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A urgência do cotidiano pelo olhar da Cia. Luna Lunera

Foto: Raquel Carneiro/Divulgação

A falta de tempo é uma queixa recorrente em nossa época. Cada vez mais o mundo nos condiciona a ter um senso de urgência para tudo. Mesmo sem saber o motivo ou o sentido de algo, tudo é necessário, tudo é para ontem. Propondo uma reflexão sobre a questão do tempo em nossa sociedade, a Cia. Luna Lunera comemora seus 15 anos de existência com a peça Urgente, que teve temporada de estreia no CCBB Belo Horizonte entre abril e maio desse ano.

Urgente é dirigida por Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa, do Areas Coletivo de Arte, do Rio de Janeiro. Em cena a atriz Isabela Paes e os atores Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Zé Walter Albinati nos apresentam cinco personagens que moram em um local que talvez seja um prédio, um lugar apertado. Vivem como se estivessem em caixotes, onde lembranças e afetos estão engavetados. Acompanhamos as urgências de cada um deles, suas lutas, seus problemas, suas questões. É tudo tão urgente que eles parecem não ter nem sequer nomes. É como se a existência de cada um daqueles personagens não fosse além daquilo que fazem, daquilo que realizam dia após dia, daquilo que aparentam ser. Uma interpretação da nossa própria existência, principalmente em um mundo em que a tecnologia impera. Nesse mundo o trabalho e o “aparentar ser” são sinônimos de status e identidade. Talvez por isso aqueles personagens aparentam trabalhar tanto. É como se o trabalho resumisse e desse significação para o ato de existir no mundo.

Ao longo da peça vemos uma retrospectiva da vida de cada ator com prazo estabelecido de dois minutos, até soar uma sirene que marca o final do tempo disponível para eles. Mas será que é possível resumir uma vida em 120 segundos? Entrelaçando ficção e momentos de realidade, Urgente é inclusive um questionamento sobre a falta de tempo e a insegurança do futuro para os próprios atores, antes de interpretarem seus personagens. Algo que foi proposto pelas diretoras durante o processo de criação da peça.

Temos no palco um espelho do nosso tempo. Seja no excesso de trabalho para preencher nosso vazio existencial, seja no excesso de tecnologia para preencher a necessidade de afeto, seja na arrogância para fugir de responsabilidades sentimentais, seja no modo como não reparamos em pessoas mais simples. E aqui é interessante notar que o personagem Antônio, espécie de zelador daquele lugar e que se diz apenas um homem “que repara”, costura toda a história durante 1h45 de espetáculo. Antônio abre a peça apresentando um esqueleto do que veremos. E ao final lá estará o personagem.

Antônio é, na vida real, o porteiro do prédio ou a faxineira da empresa que não reparamos ou não damos importância por causa da urgência do cotidiano. A nossa urgência é sempre mais importante do que a do outro, do que a própria existência do outro. O nosso trabalho é sempre mais importante do que o do outro. Em Urgente quem tem nome é Antônio, o resto talvez seja a multidão que caminha sem rumo pelo mundo. Multidão que geralmente nós apenas julgamos com uma passada de olhos. Mas será que é possível resumir pessoas em estereótipos a partir daquilo que enxergamos externamente?

A trilha sonora do espetáculo é de autoria da banda instrumental mineira Constantina que, junto com iluminação e cenário, contribui muito para que o clima desolador daqueles personagens seja transmitido. Eles trabalham, correm, fogem, trabalham mais, sonham, se desencontram, se perdem deles mesmos, esquecem os sonhos, o futuro nunca chega, não prestam atenção no presente. O desolamento é também nosso. Mas qual o sentido da urgência para tudo em nossa época? Em determinado momento da peça, dois dos personagens estão brigando e parecem ter a resposta: “É tudo pelo dinheiro! É tudo pelo dinheiro!”, dizem. Vivemos sem rumo, correndo atrás de algo que não sabemos ao certo o que é. Até que a morte chega.

 

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