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Tag archive for: provocações

Obrigado, Abujamra

"O que é a vida?"

Meados de 2004 zapeando canais na TV, me deparo com um senhor de olhar instigante encarando um entrevistado enquanto ouvia sua resposta. Não conhecia o entrevistado e nem o entrevistador. Minutos depois aparecia na tela: Antônio Abujamra. Foi assim que o conheci, sem querer. E o programa que ele comandava, Provocações, foi um achado e tanto. E era um programa redondo em sua proposta e, principalmente, diferente daquilo que existia na televisão. Que doido descobrir aquilo naquele momento.

A internet ainda não existia na minha casa naquele tempo. Não dava para pesquisar instantaneamente sobre o programa e seu apresentador. Não dava para ir muito além e conhecer mais com poucos cliques. Guardei dia e horário e, na semana seguinte, estava lá esperando o programa novamente. Era madrugada, em uma transmissão da Rede Minas, em BH.

Com o tempo passei a assistir o programa com papel e caneta na mão para anotar as referências que apareciam na tela, para minha sorte. Eram muitas referências. E eu completamente perdido no meio daquilo tudo, mas gostando. Não conhecia a maior parte dos entrevistados, mas não era problema. A maneira como o programa era conduzido, a ironia, a provocação full time, o “Vozes da rua” (melhor quadro de povo fala da TV brasileira), a trilha, os textos de encerramento, o questionamento eram interessantes demais. E de alguma maneira era um link direto com as aulas de filosofia na escola. Se bobear dava até onda em mim e no meu mundinho.

Anos depois, na faculdade, as aulas eram de história da psicologia. E a professora, Cristina Fellet, ensinava e provocava tudo e todos ao mesmo tempo. Me lembrava o jeito do Abujamra. Era comum Fellet chegar com uma frase como se fosse um gancho de direita no queixo que te fazia parar a vida para pensar sobre aquilo. Depois de semanas, cheguei antes da aula e perguntei se ela assistia o Provocações, porque na minha cabeça ela era brother do Abujamra. Ela disse que não conhecia. Falei sobre o programa e ela disse que parecia ser muito interessante porque “a provocação é um ótimo motivador para se fazer refletir”. Lá vai o jovem ficar pensando sobre aquilo o resto do dia. Que mulher.

E foi ali que as coisas se encaixaram mais: Antônio Abujamra causava reflexão nas pessoas com aquela provocação constante, aquela risada irônica, aquele olhar amedrontador, o silêncio aqui e ali. Fugia da pauta óbvia, mesmo estando dentro de um formato fechado do programa. Gente esquisita e legal sempre esteve por lá. Lembrando alguns: Mário Sérgio Cortella, Marçal Aquino, Rubem Alves, Monja Coen, Fabio Porchat, Ferréz, Daniela Arbex, Serginho Groisman, Toninho do Diabo, Padre Beto, Lourenço Mutarelli, Monica Iozzi, Clóvis de Barros Filho, João Carlos Martins, André Abujamra (um belo programa com pai e filho), Eduardo Sterblitch um dos mais recentes, etc forever.

E o Provocações sempre foi interessante por fazer (e deixar) as pessoas falarem honestamente, sendo elas mesmas, de uma maneira que o coloca como um dos melhores programas da nossa televisão. Mas Abujamra aparentemente nem se importava com isso. Fazia o que parecia ser a missão dele naquele momento. Não se importava com alardes. Aquela persona de apresentador meio mal humorado e ao mesmo tempo acolhedor de certa forma era o próprio. Que se fodam os ofendidos ou os empolgados. Que exemplo.

Antônio Abujamra fazia parte (na verdade ainda faz) de um grupo de pessoas que eu queria sentar pra conversar. Ou beber ou fumar, o que quer que seja. Mas queria ouvir as histórias, os textos, o silêncio. Hoje sei bem mais sobre aquele senhor de olhar instigante e sarcástico, mas o desconheço em igual proporção. Talvez isso seja a maior provocação dele com a gente: a não-entrega banalizada por parte dele sobre quem ele era. O mistério.

Morreu hoje, 28 de abril de 2015, aos 82 anos. Viveu muito. Tinha o dobro para ensinar. Faz parte. De 2004 para 2015 foi um pulo. Reflito constantemente sobre a eterna pergunta que ele gostava de finalizar as entrevistas do programa: “O que é a vida?”. Na falta de uma boa resposta tento caminhar pelo incerto sem medo da dúvida.

Obrigado, Abujamra.

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