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Melhores de 2013: 10 discos de Belo Horizonte (mais um bônus)

Sem muita conversa de introdução (afinal, já estamos quase em 2015)… Apenas que: eis 11 discos lançados em Belo Horizonte em 2013 que merecem atenção. Ah, subjetividade reina nesta lista, claro. E sim, voltei com o blog. De nada. ;]

 

 

 


Conglomano
, da dupla Dokttor Bhu e Shabê, é um disco de rap que não fica preso ao gênero. E, acima de tudo, não tem medo de reverenciar suas referências. Uma homenagem principalmente à black music dos anos 70 e à cultura pop. Tudo com letras certeiras sobre temas comuns ao gênero, mas usadas de maneira não comum. Com isso o álbum se sobressai por fazer uso de uma gama enorme de referências de um jeito que consegue criar identidade própria. Sem medo algum de arriscar. Arte é isso, pressuponho. É como se a dupla se apropriasse de diversos outros tipos de manifestações artísticas além da música e transformasse aquilo tudo em um universo particular. O universo Conglomano, que é “um conglomerado de irmãos na missão, informação e alegria, levando o ritmo onde há disritmia”, segundo definição dos próprios.

O disco leva o rap produzido em Belo Horizontepara um patamar que ainda não havia sido alcançado, segundo meu pequeno entendimento enquanto ouvinte. É rap de raiz sem medo de ir além, é rock, é romântico, é engraçado, é sério, é dançante, é político, é funk, é literatura, é até George Clinton e é, acima de qualquer coisa, música. É um trabalho exato, redondo e ao mesmo tempo parece não ter pretensão alguma além de ser um disco feito por amigos e para amigos. Talvez por isso me soe como uma obra que mereça atenção hoje e amanhã. Músicas como “Boi de piranha”, “Ainda somos os mesmos”, “Insônia” e a faixa título falam por si. Falando em cultura pop e referências, Conglomano é como um filme do Quentin Tarantino: a cada momento você descobre um novo detalhe e se instiga mais.

O pecado do disco, até agora, é não existir pelo menos o streaming na íntegra dele em algum lugar da internet.

Top 3: “Conglomano”, “Boi de piranha” e “Insônia”.
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Lupe de Lupe é uma banda necessária. Dessas que fazem barulho, não apenas sonoro (a exemplo da faixa “Há algo podre no reino de Minas Gerais”, do disco Sal grosso, de 2012). Afinal, a vida não é tão bonita e colorida, como se vende em qualquer perfil no Facebook ou Instagram. E a Lupe de Lupe sabe disso e parece sentir uma necessidade em gritar algo a respeito. E gritam no EP Distância. Gritam os defeitos, os demônios, os medos e o cinza de todos nós. Alguns não gostam desse espelho, preferem transmutar a realidade com um filtro qualquer. Escolhas.

Em um tempo em que quase tudo e todos são pretensiosamente perfeitos e cheios de likes em cenários incríveis, a Lupe de Lupe não parece ter medo de seguir o caminho em que acredita. Mesmo que esse caminho seja oposto ao resto. A própria música da banda já denuncia essa crença: um caos sonoro com letras aparentemente escritas em sessões de exorcismo que revelam sentimentos humanos. Sim, porque isso tudo é ser humano. Em Distância há ainda um pequeno grande clássico em forma de canção: “Homem”, em que o vocalista Vitor Brauer narra, à flor da pele, uma história com um amigo. Uma história que não ocorreu. Uma história que poderia ter ocorrido. Um caminho não tão fácil. Mas que justamente por isso é o caminho da banda. Que continuem seguindo em frente.

Top 3: “Homem”, “Os dias morrem” e “À distância da palma da mão”.
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Conhecida por dar voz e canções belíssimas ao grupo Transmissor, Jennifer Souza estreia em disco solo com um trabalho delicado, suave, intimista. Impossível breve é folk, jazz e uma espécie de pop contemplativo para ser consumido sem a correria dos tempos atuais. É justamente uma pílula para acalmar tais momentos. Em sua introspecção musical, Jennifer nos deu nove canções aconchegantes como “Para Kerouac”, “Esparadrapo” e “Pedro & Lis”, uma das pérolas do disco que conta com participação do músico paulista Fabio Góes. Caminhando entre desilusões, amores e saudades, Impossível breve se mostra um trabalho bastante humano, próximo ao peito de cada um de nós.

Top 3: “Pedro e Lis”, “Esparadrapo” e “Para Kerouac”.
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Casa Volante é um projeto do músico Vitor Garcia. Mas ele não está sozinho. Na empreitada estão diversos convidados que marcam presença na cena musical de Belo Horizonte, como Marcelo Mercedo (Udora, Rivera), Flávio Albuquerque (Impar), Daniel Nunes (Constantina), Lenis Rino e outros. Música com defeito apresenta oito canções redondas que misturam elementos eletrônicos com instrumentos acústicos, resultando num power pop aconchegante e meio torto que lembra os também tortos The Apples in Stereo em alguns momentos aqui e ali. Destaque a faixa “O novo” e versos singelos como “todo dia o novo vem dizer / que falta algo / mas não sei o que fazer / e tanto faz” e uma bela parte instrumental. Uma das gratas surpresas do ano.

Top 3: “O novo”, “Uma palavra” e “Sempre assim”.
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Talvez não exista nada que sintetize melhor o nosso tempo do que sentir saudades do futuro, daquilo que está por vir. Uma geração ansiosa que quer tudo para ontem entende bem esse sentimento. David Dines batizou sua primeira mixtape como SDDS FUTURO. O trabalho carrega seis faixas que ele mesmo etiqueta como “electropical pop music”. Um pop dançante mais ensolarado e cantado em português e inglês que bebe em fontes do passado, como Phil Spector (“Old ways are dead”) e Depeche Mode (“Close to me”). Olhe para o passado para compreender o futuro, já disse o outro. Mas o grande mérito do trabalho é a faixa “Não me venha com essa de amor”, com melodia poderosa e letra tão contemporânea quanto o nome da mixtape. A saudade do futuro do título talvez seja uma referência ao que Dines deseja para si. Um caminho a percorrer que talvez ele já saiba onde vai dar e nós não. Ainda.

Top 3: “Não me venha com essa de amor”, “Saudade” e “Talk of the town”.
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Young Lights tem uma sonoridade tão universal quanto as raízes de seu idealizador Jairo Horsth, que passam por Boston, Sabará e Belo Horizonte. Integrando a Geração Perdida da capital mineira (ao lado de bandas como Lupe de Lupe e Quase Coadjuvante), a sonoridade do projeto é baseada na música folk que bebe na fonte de Bob Dylan e, principalmente, na emoção sofrida de Bon Iver. An early winter tem uma enorme carga melódica presente em suas seis canções, seja na seca “Oh darling, look”, na contida “You drowned, i swam” ou na ensolarada “Alaska, i just want to be home”, que remete ao início da carreira do Coldplay. Young Lights é um dos projetos musicais mais interessantes para se prestar atenção em BH.

Top 3: “Alaska, i just want to be home”, “Anybody else to me” e “Oh darling, look”.
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Ouvir qualquer música feita por Barulhista é fazer uma viagem sonora, é se permitir viajar. Em seu décimo trabalho, Café branco, o músico (que também faz parte da banda Constantina) apresenta cinco faixas que funcionam como pequenos universos paralelos e distintos. Mas que, em sequência, se transformam em um caminho único com início, meio e fim. Desde os suspiros iniciais de “a lufa”, passando pela climatizada “Colo-paradeiro”, a minimalista “Malevich” e a introspectiva “Passàrgada”, que remete ao poema de Manuel Bandeira e apresenta uma melancolia compatível com os versos do poeta. Finalizando com “Nonada”, que é a faixa mais orgânica do EP, misturando violão e sintetizadores, até atingir seu ápice com elementos de música brasileira. De acordo com Barulhista, sua música é “para dançar sentado”. Desse modo, Café branco é aquele som para ouvir e se perder na dança de uma viagem interna.

Top 3: “a lufa”, “Nonada” e “Passàrgada”.
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Porquê da voz
é um disco para se tocar em qualquer lugar. Do churrasco indie à rádio popular da cidade. César Lacerda fez um trabalho acessível. Parece, sim, ter a pretensão de ser pop, popular. Lembrando aquela surrada expressão de obra feita para agradar a patroa e a empregada (como se, em essência, fizesse algum sentido separar as duas moças. Mas isso é outra história…). Tudo isso com qualidade e referências de música popular brasileira, que se entrelaçam em todo o álbum, sem se perder. Nascido em Diamantina, Lacerda está presente na cena de Belo Horizonte por meio de discos de outros artistas locais, como Graveola E O Lixo Polifônico, Kristoff Silva, Gustavo Amaral e a lista segue. Um dos grandes destaques de Porquê da voz é justamente a voz do sujeito. Faixas como “Manawê”, “Tudo incerto” e “A dois”, com participação de Lenine, merecem atenção redobrada. Resumindo tudo: é um disco bem feito.

Top 3: “A dois”, “Tudo incerto” e “Manawê”.
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Luiz Rocha é cantor, compositor de trilhas, ator e integrante do grupo Todos os Caetanos do Mundo. Em Ar, seu primeiro disco solo, ele sintetiza todas as suas vertentes artísticas. O que mais chama atenção é a interpretação das letras, como em “É tudo que eu tenho”, “Enquanto você dorme” e “Oración”, parceria com César Lacerda. Apesar das interpretações por vezes sofridas, as canções têm uma leveza de ser como sugere o título do álbum. E uma leveza que se traduz também nos temas, basicamente sobre amor, esse sentimento que atormenta qualquer coração, como na faixa “Outras partes” e na sofrida “Do seu amor”, que sintetiza o universo dos relacionamentos com um único verso: “se tudo enfim acabou / acabou de começar outra história”. Um resumo sussurrado de dor e esperança. Um disco justamente para tais momentos.

Top 3: “Do seu amor”, “Pássara poesia” e “É tudo que eu tenho”.
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Homens lentos
é um disco de misturas, que vai do samba ao axé, do pop ao carimbó. É um disco com letras que propõem uma reflexão sobre a sociedade contemporânea, tendo como recorte Belo Horizonte. Mas é, antes de tudo, um conceito do geógrafo/pensador Milton Santos (1926-2001) que diz, basicamente, que os tais homens lentos resistem à velocidade com que o mundo anda. Desse modo, conseguem perceber melhor o que se passa ao redor deles (saiba mais). Em resumo, A Fase Rosa faz um apanhado sobre a vida na cidade e sobre aqueles que a habitam. Destaque para faixas como “Lourdes e Leblon”, “O arquiteto e o carnaval” e “Desmancha”, síntese da capital mineira: “O entoar, os mc’s e o duelo ali a conviver / com a PM, o escárnio total e o olhar paternal da zona sul / se convir faz tombar, mais que essas belas fachadas do Belô / todo esse amor”.

Top 3: “Desmancha”, “Lourdes e Leblon” e “O arquiteto e o carnaval”.
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Idealizada pelo selo Vinyl Land Records, a coletânea Collectors Choice: BH 2013 faz um panorama da música produzida em Belo Horizonte nesse início de século XXI. Na coletânea estão representantes de diversas cenas musicais da cidade, como o rap (Família de Rua, Julgamento, Renegado, Zimun), o rock (Ram, Dead Lovers Twisted Heart, Thiakov), o indie-pop (Transmissor, Câmera), o instrumental (Constantina, Dibigode, Iconili, Thiago Delegado), o ska-punk (Fusile, Pequena Morte), entre tantos outros artistas que somam 21 nomes, 21 músicas com 21 linguagens distintas, apesar de classificadas em gêneros similares. A coletânea, em vinil duplo, é um bom resumo (veja bem, resumo) do que ocorre em BH atualmente.

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A música brasileira em 2011 (ou 50 discos nacionais para download)

A música brasileira está cada vez melhor. Sou daqueles que acreditam que estamos vivendo o momento mais rico da nossa história musical. Nossa música nunca esteve tão interessante, instigante, descentralizada. Isso sem contar sua diversidade. Não é inteligente comparar o atual momento com outros do passado. Os contextos cultural, político e tecnológico são diferentes. As pessoas são outras. E pessoas são influenciadas pelo meio em que estão inseridas. E desse modo influenciam o próprio meio. É um ciclo. Assim segue a roda da história.

Fato é que agora há, realmente, uma liberdade ilimitada para nossos artistas. Os que querem viver de música, vão aos trancos e barrancos (e muito suor na fuça) tentando fechar suas contas no final do mês. Os que querem apenas fazer e disponibilizar música na internet, trabalham para isso. Um ano acaba, mudamos a folha do calendário e brincamos de eleger os “melhores” do ano anterior. Mas a verdade é que todos devem ser respeitados. Independente do gosto de cada um ou da posição em alguma lista. Algumas bandas e artistas, nós apenas não gostamos. E não é por isso que seus trabalhos devem ser desrespeitados. Mesmo que em alguns casos ainda não estejam totalmente lapidados.

Se um artista gosta e sente orgulho do trabalho que faz, que continue, oras. Se ele acredita naquilo que produz, manda bala. Mas esperar que todos gostem e elogiem é outra história. As pessoas têm gostos diferentes, vontades distintas, prioridades diversas. E isso é bonito que só. Mesmo. Os gostos, vontades e opiniões alheias devem ser respeitados. Todo mundo tem seu telhado de vidro. Ainda mais em tempos de redes sociais onde todos sentem necessidade de opinar, julgar e crucificar aquilo que é diferente. Aquilo que é diferente do que não gostamos e acreditamos. Com exceção de alguns pilantras, que são fáceis de serem identificados, os artistas que não gostamos devem ser respeitados. Eles também estão escrevendo a história.

E em relação ao ato de escrever nossa história, 2011 foi um ano com boas páginas escritas. O Los Porongas lançou um belo álbum, O segundo depois do silêncio, em que confirma Diogo Soares como um dos melhores letristas dessa geração. Pélico finalmente ganhou a atenção merecida com Que isso fique entre nós, já que seu disco anterior (O último dia de um homem sem juízo, de 2008) parece não ter sido descoberto na época de seu lançamento. E é tão bonito quanto o álbum mais recente. Wado segue fazendo música popular (com Samba 808) e não tocando para as massas, o que é triste. Triste também foi o fim da Superguidis, uma das bandas mais incríveis (e com uma das discografias mais consistentes) que já passaram pelo Brasil. E eles deixaram o EPílogo na tentativa de amenizar a dor da despedida. Apenas uma tentativa.

Fabio Góes voltou ao centro das atenções com O destino vestido de noiva e provando por A+B que é possível fazer música pop de altíssima qualidade cantando em português com produção mais do que caprichada no Brasil. Criolo talvez seja dono do disco mais emblemático de 2011. Tanto pela sua própria qualidade artística quanto pelas discussões ao seu redor sobre ser hype ou não ser. Eis a questão. Nó na orelha de fato não é um disco de rap. É um disco de música. Música nem tão genial quanto o que foi ventilado por aí, é verdade. Mas um disco de música de qualidade. E isso é o que importa. Falando em hype, A Banda Mais Bonita da Cidade não fez barulho com seu disco homônimo, como ocorreu com o clipe pessoas-felizes-venham-me-abraçar de “Oração”.

E falando em fenômeno, Cícero é o artista que provavelmente deve levar 2012 no bolso. Dada a repercussão de seu álbum Canções de apartamento entre pessoas que já se tornaram fãs fanáticos. Algo como os que idolatram Los Hermanos até a última ponta. O jovem Silva também foi bastante comentado com seu Silva EP, que parece ser mais efêmero que o disco do Cícero. Embora sejam trabalhos completamente distintos. Romulo Fróes, o inquieto Romulo Fróes, tirou mais um bom álbum da manga. Não à altura de seu trabalho anterior (No chão sem o chão, de 2009), mas um disco que demonstra ser claramente aquilo que ele acredita. E isso não é pouco.

Kassin foi caminhando devagar em seu posto de produtor e se tornou um dos maiores nomes da nova música brasileira nesse início dos anos 2000. Seu primeiro álbum solo, Sonhando devagar, tem as letras mais nonsenses de 2011 e a sonoridade mais instigante. Além da música “Calça de ginástica”, desde já um dos clássicos da década. Um trabalho para se prestar atenção ainda em 2016. Momo lançou um triste e belíssimo disco, Serenade of a sailor, com muita música em inglês talvez mirando o mercado internacional. Potencial para isso, ele tem. Independente do idioma. Bonifrate foi a mais grata surpresa do ano com seu Um futuro inteiro: psicodelia brasileira de qualidade sem soar datado em pleno 2011. Jair Navez não lançou disco, mas um single (Um passo por vez) com duas músicas que seguem o caminho que lhe garante o carimbo de um dos compositores mais sinceros e viscerais que há muito tempo não ouvimos no Brasil. Karina Buhr segue com a banda dos sonhos de muito artista do mundo e lançou Longe de onde apostando em uma linha diferente do primeiro álbum (Eu menti pra você, de 2010). O que prova que, como nos palcos, ela é uma artista inquieta.

A música instrumental made in Brazil segue de vento em polpa: Bixiga70 dando orgulho a Fela Kuti em seu álbum homônimo. 4 Instrumental com um pé no rock progressivo aqui e ali em 4.1. Macaco Bong com um EP (Verdão e verdinho) nem tão inspirado quanto o disco de estreia. Mas ainda assim interessante. Aeromoças e Tenistas Russas e seu festeiro álbum Kadmirra. Isso sem contar o Vendo 147 pisando fundo em Godofredo e o Constantina com Haveno, um trabalho acima da média. O MarginalS entregou um disco único. O grupo registrou uma jam que não será reproduzida ao vivo. Isso pelo simples motivo de que todos os shows da banda são únicos, levados na base do improviso, de acordo com o momento. E o álbum, batizado (ou não batizado) como (disco sem nome), é uma boa síntese disso.

O rap também segue bem (possivelmente em seu melhor ano): Emicida com o EP Doozicabraba e a revolução silenciosa que só afirma sua qualidade e seu refinamento pop. Pop também mirado por Flávio Renegado em Minha tribo é o mundo. E, na mesma área, o Julgamento veio com seu segundo trabalho, o EP Muito além, que deixa mais claro o potencial que a banda tem para além das montanhas de Belo Horizonte.

Mesmo com um disco de releituras, por assim dizer, o Apanhador Só fez um trabalho interessante em Acústico-Sucateiro, gravado com sucatas e instrumentos musicais básicos. Tom Zé deve ter ficado orgulhoso do grupo. O Nevilton finalmente entregou seu álbum De verdade com canções jovens, pegajosas e até intensas. E intensidade é a palavra que sintetiza Peixe homem, do Madame Saatan, banda que faz música com peso, sem excessos e o principal: sem cair no virtuosismo chato de algumas bandas do gênero. Peso que pode ser percebido também com o primeiro disco cheio do The Baggios. Seus dois integrantes pegaram Raul Seixas, Zefirina Bomba, White Stripes, punk rock e bateram tudo em um liquidificador com uma empolgação adolescente. E acertaram a mão naquilo que se propõem a fazer. O liquidificador também foi utilizado pelo Graveola e o Lixo Polifônico para confeccionar Eu preciso de um liquidificador, álbum de sonoridade ímpar em 2011.

O Pública entregou seu álbum mais bem produzido, Canções de guerra, mas sem uma grande canção pegajosa. Como já está na história do grupo: “Long plays”, de Polaris (2006) e “1996”, de Como num filme sem um fim (2009). O Violins lançou Direito de ser nada, seu disco com sonoridade mais pop e ao mesmo tempo mais irregular se comparado com a própria discografia da banda, que tem no currículo pérolas como Aurora prisma (2003), Grandes infiéis (2005), Tribunal surdo (2007) e A redenção dos corpos (2008). Beto Só fez seu álbum mais introspectivo e confessional: Ferro-velho de boas intenções, cujo nome é algo a se pensar antes que a vida termine. E a letra de “Boas intenções” causa reflexão: “Por não querer nunca errar / meus planos todos adiei / […] / pior é que não há / do que me desculpar / só sou um ferro-velho / de boas intenções ”. E isso diz muito sobre os primeiros parágrafos desse texto.

Música é alimento. Ou pelo menos assim deveria ser com todo mundo. Mas cada um tem seu nível de envolvimento com música, que pode mudar vidas, acabar com algumas e fazer nascer tantas outras. Esse texto é apenas uma tentativa de organizar ideias desconexas sobre o ano que passou em relação à nossa música. Música que tenho tanto gosto em ouvir, pesquisar, indicar. A seguir estão 50 discos lançados em 2011 e disponibilizados para download gratuito pelos próprios artistas. Muita coisa ficou de fora, pois se eu fosse juntar tudo, esse texto não sairia antes do ano que vem. Atente-se para a diversidade e qualidade que temos em nosso quintal. E como eu escrevi lá no início: a música brasileira está cada vez melhor.

Busque o novo.

(Clique nos nomes para baixar os discos)

4 Instrumental – 4.1

A Banda Mais Bonita da Cidade – A banda mais bonita da cidade

Academia da Berlinda – Olindance

Aeromoças e Tenistas Russas – Kadmirra

Apanhador Só – Acústico-sucateiro

Belo Horizonte – Uma trilha sonora possível

Beto Só – Ferro-velho de boas intenções

Bixiga70 – Bixiga70

Bonifrate – Um futuro inteiro

Câmera – Invisible houses

China – Moto contínuo

Cícero – Canções de apartamento

Cinco Rios – Todas as janelas do dia

Constantina – Haveno

Criolo – Nó na orelha

Driving Music – Comic sans

Eddie – Veraneio

Emicida – Doozicabraba e a revolução silenciosa

Falcatrua – Urbano

Flávio Renegado – Minha tribo é o mundo

Graveola e o Lixo Polifônico – Eu preciso de um liquidificador

Gui Amabis – Memórias luso/africanas

Harmada – Música vulgar para corações surdos

Humanish – Humanish

Julgamento – Muito além

Junio Barreto – Setembro

Karina Buhr – Longe de onde

Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França – Metá Metá

Lirinha – Lira

Los Porongas – O segundo depois do silêncio

Ludov – Minha economia EP

Macaco Bong – Verdão e verdinho

Madame Saatan – Homem peixe

MarginalS – (disco sem nome)

Mordida – Mordida

Nevilton – De verdade

Nuda – AMARÉNENHUMA

Paralaxe – Deus ex machina ou o terceiro segredo

Pélico – Que isso fique entre nós

Pública – Canções de guerra

Quarto Negro – Desconocidos

Rafael Castro – Rafael Castro canta Roberto Carlos

Romulo Fróes – Um labirinto em cada pé

Silva – Silva EP

stella-viva – Deus não tem aviões

Superguidis – EPílogo

The Baggios – The Baggios

Vendo 147 – Godofredo

Violins – Direito de ser nada

Wado – Samba 808

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Leia também: 2010 acabou. Mas a música não

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Melhores de 2011: 10 discos de Belo Horizonte (mais um bônus)

A ideia era que essa lista aparecesse por aqui no aniversário de 114 anos de Belo Horizonte (12 de dezembro), fazendo um apanhando do que ocorreu na música da capital mineira durante 2011 ao mesmo tempo em que mostrasse sua diversidade de estilos, intenções, etc. Mas não deu tempo (ou preguiça de correr com as coisas). O fato é que 2011 foi interessante para a música em Belo Horizonte. Boas bandas da cidade lançaram novos (e consistentes) trabalhos. E com uma qualidade de produção respeitável. A lista abaixo diz respeito apenas aos discos que eu ouvi, obviamente. Muita coisa passou em branco e algumas outras eu ouvi e não tive interesse algum em continuar ouvindo. Faz parte da vida.

Acredito que o mais interessante entre esses destaques é a diversidade de estilos: pop, rap, indie, experimental, música inclassificável. Qualidade artística tem de sobra. E para todos os gostos. O que não vale é ficar passivo esperando uma boa banda cair nos ouvidos sem mais nem menos. No final de cada texto sobre os álbuns, tem link para conhecer mais o trabalho de cada artista. De nada.

Unindo bossa nova, Clube da Esquina, folk, arranjos de altíssima qualidade, melodias doces e letras autênticas, o primeiro trabalho do Transmissor, Sociedade do crivo mútuo (2009), já sinalizava que a banda merecia uma atenção mais cuidadosa. Corta para 2011 e essa constatação ganha ainda mais força com Nacional, o novo álbum do grupo. Agora a banda parece mais unida musicalmente em canções redondas, diretas e sem excessos. Nacional soa como um trabalho sincero, simples e sem pretensão de ser grandioso. Mas que, justamente por isso, se torna especial. O Transmissor não dá um passo maior do que a perna pode suportar. E talvez o grande segredo de alguns artistas é saber o seu tamanho e capacidade artística/criativa. E, a partir disso, trabalhar para que o resultado seja o mais completo e sincero possível dentro daquilo que são capazes.

Dadas as devidas proporções, o Transmissor parece estar em um degrau musical próximo ao Skank da fase Maquinarama (2000) para cá, emulando uma sonoridade de décadas passadas sem se perder e sem esquecer de sua história e identidade. Instrumental preciso e cristalino com melodias e letras fáceis sem serem banais resulta em uma banda pop de alta qualidade. Sim, porque o Skank é um grupo pop por excelência que, além do lado comercial (o que é demérito para alguns, infelizmente), tem também um lado artístico que deve ser bastante respeitado. E o Transmissor parece seguir um caminho parecido. Uma banda pronta.

Top 3: “Só se for domingo”, “Vazio” e “Dois dias”.
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Cinco anos separam o primeiro disco do grupo (o belo Ecos da cidade, de 2006) deste novo trabalho. Período mais do que suficiente para muito artista ser esquecido ou se esquecer pelo caminho. Não foi o que ocorreu com o Cinco Rios em Todas as janelas do dia, álbum que transpira lirismo e sinceridade. A pegada urbana da banda continua afiada em canções que funcionam como pequenas fotografias de uma metrópole, em que os elementos que saltam aos olhos (ou ouvidos) são os detalhes. Como se o álbum fosse um edifício em que suas janelas (as músicas) guardam pequenos universos. E lá dentro tudo é possível. Todas as janelas do dia tem produção caprichada e soa orgânico, humano. Nada parece exagerado e/ou “robotizado”. Resultado do processo de gravação em fita de rolo. Ecos de pós-punk, Radiohead, O Último Número e noites em claro olhando o mundo pela janela em selvas de concreto. Além de tudo, o CD tem um trabalho gráfico de encher os olhos.

Top 3: “Manhã veloz”, “Saga” e “Volta pra casa”.
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Liberdade pode ser a palavra que sintetiza o que é o Graveola, grupo que parece firmar sua identidade com Eu preciso de um liquidificador. No primeiro álbum (homônimo, de 2009), eles não me soavam interessantes. Parecia uma música típica de estudantes universitários militantes de esquerda com sandálias nos pés que lotavam os shows em Belo Horizonte por conta da carência dos fãs de Los Hermanos. Por causa disso, não dei muita atenção ao segundo trabalho do grupo (Um e meio, de 2010). Ainda assim, era possível perceber a tal fagulha de liberdade criativa da banda. E agora eles entregam Eu preciso de um liquidificador, bem mais encorpado, com momentos que lembram a Vanguarda Paulista de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Além da autenticidade d’Os Mutantes. Referências em que a palavra de ordem é justamente liberdade.

Top 3: “Blues via satélite”, “Pra parar de vez” e “Lindo toque”.
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A gangue Julgamento (três vocais, dois DJs, guitarra, baixo e bateria) tem um trabalho bem peculiar dentro do gênero hip hop, em que o formato de banda garante ao grupo uma mobilidade dentro de sua proposta. E garante principalmente um peso instrumental que, em alguns casos, combina perfeitamente com as letras despejadas pelos três MCs, como as músicas “Muito além” e “O poder da palavra”, por exemplo. As letras não fogem dos temas do hip hop, tratando de assuntos sociais/humanos já característicos ao gênero, mas são trabalhadas de maneira mais livre e não tão “quadrada” e rígida como em outros grupos. Destaque para a faixa “E como diz”, que é essencialmente uma canção pop. E esse formato de canção das faixas de Muito além garante ainda mais destaque ao conjunto da obra. Depois de um álbum cheio (No foco do caos, de 2008) que ainda não registrava o que o Julgamento é em cima do palco, este EP Muito além consegue fazer o trabalho de mostrar a cara do grupo ao vivo e vem carregado com o peso dos shows, um dos grandes triunfos da banda.

Top 3: “Muito além”, “E como diz” e “O poder da palavra”.
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O Câmera bebe na mesma fonte da saudosa banda Valv, também de Belo Horizonte. Com sonoridade do que se convencionou chamar de indie rock (e cantando em inglês), o grupo lançou o EP Invisible Houses com seis músicas que caminham esbarrando nos ombros de bandas indie da década passada em sonoridade melancólica, relaxante e até soturna. Bom para ouvir em dias de chuva.

Top 3: “Time will”, “Isles” e “By surprise”.
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Haveno é o quarto álbum da banda Constantina e pode ser classificado (se é que isso é possível) como uma grande viagem a céu aberto. Como um road movie em que a única coisa que importa é a sensação de liberdade enquanto o vento bate no rosto. O grupo, que tem os pés no post-rock, caminha por pitadas de lisergia musical neste trabalho em meio a texturas e intervenções diversas. Principalmente por causa do número de seus integrantes. Sete pessoas com referências e pretensões distintas que conseguem um resultado harmonioso em Haveno, palavra em Esperanto que significa porto. E é isso: o Constantina está em seu porto, um lugar seguro em que pode, ao mesmo tempo, experimentar suas influências e começar uma nova viagem.

Top 3: “Bagagem extra”, “Benjamin Guimarães” e “Azul marinho”.
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Deus ex machina ou o terceiro segredo é o terceiro trabalho da Paralaxe. E é provavelmente o álbum que poucas pessoas sabem da existência. A banda disponibilizou o disco na internet sem alarde algum. Dentro do universo particular do grupo, os temas das letras (o principal destaque da Paralaxe) estão entre cosmos, história, pop e cenas urbanas em canções mais orgânicas que nos álbuns anteriores, Paralaxe (2005) e o clássico desconhecido Under pop pulp fiction (2007). Apesar da sonoridade mais orgânica por causa dos instrumentos, boa parte das canções de Deus ex machina tem cara de música para festa e devem funcionar bem ao vivo.

Top 3: “Caim”, “Anjo de Portugal” e “Beri beri”.
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Renegado acrescentou o Flávio em seu nome artístico e afirmou sua vontade de ser pop, de fazer música pop com Minha tribo é o mundo. O primeiro álbum do rapper, Do Oiapoque a Nova York (2008), já demonstrava essa intenção, mas agora a produção está ainda mais redonda (produção que ficou por conta de Plínio Profeta (O Rappa, Lenine, Tiê, etc.)). Minha tribo é o mundo é um nome que sintetiza perfeitamente a sonoridade do disco, que vai de batidas do hip hop norte-americano ao samba e música eletrônica, com letras que seguem dentro do gênero hip hop, de polaróides urbanas e até amor. Tudo isso em uma embalagem que lembra o samba-rap de Marcelo D2 e a sonoridade ultraglobal de Matisyahu em alguns momentos. Um artista sem medo de ser pop (e popular).

Top 3: “Minha tribo é o mundo”, “Pontos cardeais” e “Suave”.
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Capitaneado por João Eduardo, guitarrista da banda Cinco Rios, o projeto Belo Horizonte – Uma trilha sonora possível é justamente o que o nome já entrega: uma provável trilha sonora para a capital mineira. Como se o nascimento da trilha ocorresse antes do filme propriamente dito. Ou ainda como se fosse a trilha para a própria cidade, literalmente. Experimente andar pelas ruas com o disco nos fones de ouvido. As madrugadas são particularmente interessantes para isso. Lançado sob uma licença Creative Commons, o disco contém 12 faixas com diversas parcerias, mas talvez a mais emblemática seja a canção “Cinco da tarde”, escrita por César Gilcevi (baterista e letrista da saudosa banda Carolina Diz) e cantada por Gato Jair (ex-vocalista do extinto grupo O Último Número). Gilcevi ainda é um dos melhores cronistas do mundo urbano de Belo Horizonte e O Último Número influenciou boas bandas da cidade, inclusive a Cinco Rios e a própria Carolina Diz. Belo Horizonte – Uma trilha sonora possível é um disco para ser apreciado sem correria, na mesma dose que algumas noites da cidade exigem: com calma, atenção e o desprendimento certo.

Top 3: “Cinco da tarde”, “Música triste” e “Trânsito (alt song)”.
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O Falcatrua envelheceu. Essa é a primeira constatação a se fazer sobre a banda no novo álbum, Urbano. E este envelhecer não é algo como uma banda de tiozinhos chatos. Mas algo como uma maturidade musical. E a parte mais perceptível fica em relação às letras (quase todas assinadas pelo vocalista André Miglio sozinho), que agora estão mais… adultas. O lado mais circense da banda, como no primeiro disco, Álbum de família (2002), não está em Urbano e ficou para os palcos, local em que a banda se destaca, principalmente por conta de Miglio (mesmo que às vezes suas performances soem repetitivas demais em palcos maiores). Não é todo grupo que consegue envelhecer e manter músicas com suas pegadas já características de pop/rock e groove, neste caso específico. O Falcatrua ainda não é uma banda de músicos chatos.

Top 3: “Urbano”, “Tudo termina em nada” e “Não quero ser só”.
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Não seria justo colocar Rubinho Troll em algum lugar entre o início e o final desta lista, que na verdade é só um jeito de organizar as coisas. E seria ainda mais injusto não colocar Rubinho Troll. Por isso ele aparece aqui como bônus. Mesmo não morando em Belo Horizonte (ele mora em Londres desde os anos 90), Troll é filho (e fruto) da cidade. Produzido por John Ulhoa, Stinkin like a brazilian é um trabalho que provavelmente será descoberto e admirado daqui algum tempo, como é o caso hoje dos álbuns do Sexo Explícito (Combustível para o fogo, de 1989, e O disco dos mistérios, de 1991), banda que tinha Rubinho nos vocais e John nas guitarras.

Troll é uma espécie de lenda e gênio pouco compreendido em meio a sua autenticidade, esquisitice e sensibilidade pop. Assuntos bizarros ganham tratamento instigante em suas mãos, como é o caso de “Hoje eu me vi por dentro (Endoscopia)” – o nome fala por si só – e “Minha vida é uma bosta”, interessante se analisada parte de sua letra: “é easy cantar besteira / na banheira ou no chuveiro / mas quando é lá fora pro povo inteiro / é embaraçoso se a família está assistindo / e as crianças estão rindo”. Desde que o Sexo Explícito acabou, Troll mudou-se para Londres e não lançou mais trabalhos, porém compôs canções que entraram no repertório da banda de John, o Pato Fu, como “Menti pra você, mas foi sem querer”, “Mamãe ama é o meu revólver” e “A necrofilia da arte”. Já em “Você só quer tocar o seu violão”, o músico apresenta uma espécie de discussão de relacionamento entre um casal em que a única voz que aparece é a da mulher, representada por ele mesmo.

Rubinho é estranho, seu timbre é peculiar, seus temas são inigualáveis. E, dessa união, há em Stinkin like a brazilian pelo menos uma música que pode ser guardada sob a etiqueta de pop perfeito, caso de “Peçonhas ocultas”: sincera, pegajosa, genial e estranha. Todas as canções do álbum são de sua autoria, com exceção de “Repelente”, versão para a música do Defalla, outra banda genial do Brasil. Stinkin like a brazilian é pop, mas não é um trabalho fácil, pelo contrário. É audacioso e, mesmo lembrando sua extinta banda e o início da carreira do Pato Fu em alguns momentos, tem personalidade, algo não tão comum hoje em dia. Talvez Rubinho Troll continue com sua vida sem pretensão de seguir uma carreira artística, talvez lance um disco em 2013 ou talvez nunca mais lance um trabalho. Imprevisibilidade deve ser algum de seus sobrenomes registrados na carteira de identidade. E autenticidade também.

Top 3: “Peçonhas ocultas”, “Gênio de 3 corações” e “Alma turbinada”.
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Onde é que está meu rock’n’roll?

Quarta-feira, 13 de julho de 2011.

1h15

Há quase uma semana tento escrever alguma coisa sobre esse tal rock’n’roll que, verdade seja dita, dentro do universo música, é um dos alimentos principais por aqui, mesmo que eu viva dizendo “não gosto de rock. Gosto de música”. E é isso mesmo. Mas o rock foi o início de tudo, alí quando você supostamente começa a se entender por gente e é um clichê: contra tudo e contra todos. E da música que enche as paredes do quarto agora sai a frase que dá título a este texto, um dos versos de “Será que eu vou virar bolor”, de Arnaldo Baptista – quer sujeito mais rock que ele?

E a indagação “onde é que está meu rock’n’roll?” faz ainda mais sentido quando não consigo escrever nenhuma linha sobre o que esse estilo carrega nas veias: inconformismo e atitude. Alguns segundos com o pensamento anestesiado observando o céu escuro pela janela e sentindo um frio do cão, a constatação é simples: o rock está em tudo.

Em tudo.

Pode ser a singela lembrança de quando você descobriu que Kurt Cobain e Renato Russo eram os caras que realmente te entendiam quando você começava a transitar pela adolescência e seus hormônios e sentimentos eram muito mais apressados que você (mesmo que nenhum dos dois sujeitos estivessem vivos na época). Rock é tanto aquela dor de cotovelo juvenil quanto a raiva contra o mundo, mesmo sem ter um motivo específico para isso. E gritar que você é do contra faz parte da construção da sua personalidade naquele momento da vida. E lá está o rock para te dar gás e voz.

Rock é lembrar de quando você andava pelas ruas berrando “Esporrei na manivela” ou “Eu quero ver o oco” do Raimundos pelo simples fato de contestar a vida em sociedade. Ou então de quando você aprendeu a tocar “Conto de fraldas” do Tom Zé na versão do Tianastácia, até os olhos encherem de lágrimas. Mesmo que fossem apenas três acordes. E os mais fáceis, diga-se. Rock é lembrar que “Californication” do Red Hot Chili Peppers foi o primeiro disco que você comprou com seu próprio dinheiro. É saber que John Frusciante canta coisas em seus discos solo que você entende. Além de ser algo como o Jimi Hendrix da sua adolescência.

Com o tempo você entende que Cidadão Kane e tudo que ele representa é até mais punk que o Ramones e o Sex Pistols juntos. Ou que o Dr. Hannibal é uma espécie de Ozzy Osbourne: mau, enigmático, assustador, instigante. Talvez por isso você nutra um carinho especial por ele(s). Nessa mesma categoria de memórias, o Brilho eterno de uma mente sem lembranças é como uma canção de melodia doce dos Beatles. Talvez “Let it be”: algo que te faça ter esperança na vida, no amor, na amizade, em você. E eu realmente acredito que isto tudo é rock. De verdade.

Rock é lembrança. É como se fosse uma espécie de amigo imaginário que está com você nos momentos mais emblemáticos da vida e até nos mais idiotas. Mas que você guarda com carinho porque faz parte da sua história, como alguns versos de Renato Russo e até do Roberto Carlos. Ou ainda algumas linhas de Xico Sá. Tudo está entranhado em você, nas suas lembranças. Seja com o primeiro porre alcoólico, o primeiro término de namoro, o primeiro cigarro, o primeiro bilhetinho de amor, a primeira orgia.

Rock é o encanto por uma mulher pelo simples fato dela ter boa parte dos mesmos livros que você. É sorrir ao ver uma criança cantando “We will rock you” do Queen no meio da rua ou um vizinho de onze anos que te acha legal simplesmente porque você tem uma camisa do Rolling Stones. E nestes momentos há esperança no mundo. É como se o grande Deus do universo (Jimi Hendrix, só para deixar claro) fizesse com que a vida continuasse realmente viva a cada novo nascer do sol que você acompanha ao atravessar a cidade para ir trabalhar. São coisas assim que fazem tudo valer a pena. São coisas assim que te fazem acreditar que tudo pode ser rock. Da coisa mais palpável a um sonho com aquilo que você quer ser quando crescer. Mesmo que seu verdadeiro sonho seja nunca crescer.

E aí você me pergunta onde é que está o rock’n’roll em meio a este texto confuso.

Diria que está em cada movimento que o coração faz para me manter vivo.

1h37

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Roberto Carlos é patrimônio nacional

Hoje, 19 de abril, Roberto Carlos completa 70 anos. O homem, a lenda, o Rei, o artista que mais vende discos no País desde a década de 60, continua firme em seu posto de ícone maior da música brasileira em todos os tempos. E segue influenciando gerações e mais gerações de artistas da nossa música desde que ele próprio se entende por artista – para o bem ou para o mal. E isso mesmo sem lançar um disco composto exclusivamente por canções inéditas em mais de dez anos. E, sobretudo, um disco relevante, que não seja apenas um reprocesso de décadas passadas.

Aliás, até nisso Roberto Carlos mantém vantagem: é um dos poucos artistas do Brasil, senão o único, que pode se dar ao luxo de pegar o passado, mudar alguns arranjos e seguir encantando o público com algo que, em mãos e interpretações de outros, soariam como mais do mesmo forçado. Isso porque, inegavelmente, Roberto Carlos tem material, carisma e história de sobra para fazer o seu mais do mesmo particular em discos entupidos de versões ao vivo e algumas poucas canções inéditas desde a virada dos anos 90 para os anos 2000. Mais especificamente com o disco “Roberto Carlos”, lançado em 1998. Muito por conta da doença e posterior morte de sua esposa, Maria Rita, em 1999.

Robertão é como aquele vizinho que não é da família, mas participa de todos os eventos e encontros familiares. É alguém que faz parte do nosso cotidiano, das nossas rodas de conversa, dos nossos momentos de lazer e tristeza. Ele está presente em cada momento. Seja arrumando casa ao som de músicas que não sabemos exatamente onde e quando aprendemos a cantar ou então embalando nossas lágrimas com canções que dizem mais a nosso respeito do que qualquer sessão de terapia.

E mesmo que pareça viver em um universo paralelo de estrela inatingível, Roberto Carlos ainda se assemelha com cada um de nós, simples mortais. Pode ser tanto aquele tio romântico à moda antiga quanto um avô careta que não gosta de álcool ou palavrão. Pode ser aquele primo mais velho que te leva para ir paquerar algum broto em uma sessão de cinema ou aquele seu amigo protótipo de James Dean, mezzo rebelde sem causa mezzo galã sofrendo e correndo do amor a 120, 150, 200km/h nas avenidas da vida. Ou ainda aquela tia chata que só fala de religião e cosias do tipo. Mas lá estaremos nós o acompanhando em cada passo, cada personagem dentro dessa nossa grande família.

Atualmente, as mesmas canções de outrora soam chatas nos famigerados especiais de final de ano da Rede Globo. Parece que a orquestra de dezenas de músicos que acompanham Roberto Carlos em cima do palco não garantem os toques de originalidade e ousadia juvenil dos áureos tempos do Rei. São arranjos tão água com açúcar e inofensivos quanto uma música do Thiago Pethit. Os arranjos que vão dos anos 60 até meados de 70 tinham mais “atitude” e presença. Enfim, eram mais relevantes. Mesmo sendo, em grande parte, rockinhos (ou Iê Iê Iê, como preferir) embalados para vender e agradar adolescentes com temas tão ousados quanto andar descalço em dias frios.

Roberto Carlos já foi Rei. Hoje talvez seja rei. Mas independente da “nomeação” em letra maiúscula ou minúscula, ele vai continuar encantando pessoas e corações de diferentes idades com suas letras e músicas de décadas passadas. Seu legado já está cravado na história e na memória de cada um de nós. E isso não tem mais volta.

Foto: divulgação.

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