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Tag: alto-falante

Mayer Hawthorne, branquelo de alma negra

Texto que escrevi para o site do Alto-falante sobre o show do Mayer Hawthorne no Rio de Janeiro.

Cidade maravilhosa. Sexta-feira. Clima agradável. Um Circo Voador cheio. Pessoas empolgadas. A noite prometia.

Atenção voltada para o palco esperando um dos mais bem comentados artistas de um “movimento” recente que ganhou a etiqueta de neo-soul: Mayer Hawthorne, que nasceu no pacote posterior à Amy Winehouse ao lado de figuras como Duffy, Adele e Janelle Monáe, por exemplo. Hawthorne veio ao Brasil acompanhando a turnê de Winehouse, mas fez seu único show completo no Rio de Janeiro, no Circo Voador, na última sexta-feira (14/01), graças aos Cariocas Empolgados.

Por volta de 23h30, os músicos da The County faziam a cama para que Mayer Hawthorne aparecesse e disparasse todo o amor contido em suas canções em cima do palco, em cima do público. Segundos depois lá estava ele nitidamente feliz para cantar a animada “Your Easy Lovin’ Ain’t Pleasin” e já interagir e orientar o público para bater palmas em determinados momentos da canção.

Acabada a primeira música já dava para afirmar que aquele branquelo com óculos de aro grosso e pinta de nerd desajeitado com as mulheres tinha o público nas mãos. E o mais importante: o público se entregou e entrou em todos os joguinhos propostos por Hawthorne no decorrer da apresentação. Tanto o ato de jogar as mãos para o alto, gritar em alguns momentos, cantar em outros, fazer pose para que ele tirasse uma foto do público e bater palmas quanto na espécie de coreografia com as mãos sincronizada com a melodia de “I Wish It Would Rain”. Um sujeito que tem plena consciência do que faz em cima do palco.

Mayer Hawthorne canta e encanta a todos. As músicas de seu único disco lançado, A Strange Arrangement, literalmente ganham vida ao vivo. E muito disso graças aos músicos de sua banda de apoio, a The County. Além, claro, do carisma e da presença de palco que ele tem. No meio das músicas ele conversa com o público e conta casos como se fosse um conhecido de bar. De fato um showman. E um soulman que passou boa parte da vida na companhia de discos de Curtis Mayfield, Stevie Wonder, Smokey Robinson, Supremes e todo o catálogo da Motown.

O som do Circo Voador estava respeitável (para público e artista) e Hawthorne foi jogando músicas no ar e atingindo falsetes sem muito esforço no momento em que ele bem queria. Entre suas músicas estavam tanto as mais contemplativas, como “A Strange Arrangement”, “Shiny And New” e “Just Ain’t Gonna Work Out”, quanto as mais pulsantes, como “Make Her Mine”, “The Ills” e “Maybe So, Maybe No”, que na verdade é uma versão que ele gravou para uma pérola soul com gostinho de mofo do The New Holidays.

Entre suas canções, Mayer Hawthorne vai imprimindo seu DNA musical por meio de versões que ele apresenta durante o show. Canções que dizem muito a seu respeito, que simbolizam sua alma negra, como “What A Fool Believes”, do Doobie Brothers, uma passagem por “Beautiful”, do Snoop Dogg (a cara do Rio de Janeiro, diga-se) e também um trecho de “Gangsta Luv”, parceria dele com o mesmo safado Snoop Dogg.

Ao final do show, todo mundo já sabia que logo ele voltaria para o bis. Voltou para mais três músicas e foi embora. Mas teve que voltar para um segundo bis, atendendo aos pedidos insistentes do público. E fechou a tampa de uma apresentação memorável de maneira digna com “Work To Do”, do The Isley Brothers.

Após o fim do show, enquanto Mayer Hawthorne seguia com seu carisma dando autógrafos e tirando fotos com os fãs, o DJ Nepal aterrorizava a pista com um set indecente carregado de soul e funk de raiz de décadas passadas. Do lado de fora do Circo Voador ainda estava a Lapa e toda sua peculiaridade de uma sexta-feira a noite. A noite ainda prometia…

Fotos 1 e 2 por Joca Vidal e foto 3 por Mayer Hawthorne

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Loki – Arnaldo Baptista

Dia desses postei aqui no Veia o documentário Maldito Popular Brasileiro, sobre Arnaldo Baptista. Hoje coloco por aqui esse texto sobre “Loki – Arnaldo Baptista” que escrevi para o site do Alto-falante em 2008, ano em que assisti pela primeira e única vez o documentário.

O documentário “Loki – Arnaldo Baptista” passa a limpo a vida do eterno mutante Arnaldo Baptista. O filme começa com o próprio fazendo um risco em uma tela branca, como se fosse retratar sua vida por meio da pintura. E na verdade é isso. O diretor Paulo Henrique Fontenelle vai contando as histórias que constroem a vida de Arnaldo Baptista enquanto ele pinta o quadro de sua vida – o colorido e psicodélico quadro de sua vida. Desse modo, o filme caminha sem correria, sem pressa, como que no tempo de Arnaldo.

Entrelaçadas com a pintura do quadro do cinebiografado estão entrevistas emocionadas e emocionantes que soam verdadeiras e carregam o espectador para uma viagem na linha do tempo e da vida do fundador de uma das bandas mais criativas e inovadoras que o Brasil já teve: Os Mutantes. Entre os entrevistados estão os cúmplices da época de banda, como Sérgio Dias (guitarra), Liminha (baixo) e Dinho (bateria) que fazem depoimentos visivelmente emocionados, principalmente quando relembram o dia em que Rita Lee comunicou sua saída da banda. Aliás, a vocalista não quis falar para o filme, mas autorizou a utilização de suas imagens em “Loki”.

Tom Zé, Lobão, Sean Lennon, Gilberto Gil, Rogério Duprat, entre outros, também prestam seus depoimentos / homenagens a Arnaldo Baptista. Além das entrevistas, Fontenelle costura imagens raras e históricas das décadas de 60 e 70, causando uma nostalgia do não vivido e mostrando a irreverência d’Os Mutantes nesse período, no qual afirma o maestro Duprat: “A cabeça d’Os Mutantes era Arnaldo Baptista”. No quadro de sua vida, o mutante pinta uma mulher loira e escreve um “sinto muito” perto da figura, É particularmente emocionante.

O filme, rodado entre 2004 e 2007, narra a vida e a carreira de Arnaldo Baptista em ordem cronológica, retratando o início de sua carreira musical, passando pela criação do conjunto O’Seis, nos anos 60, até evoluir para Os Mutantes; a lendária apresentação ao lado de Gilberto Gil, em 1967 no Festival da Record, cantando “Domingo no Parque”; o movimento tropicalista, as viagens com LSD, a viagem para a Europa (que resultou na gravação do disco “Technicolor”, gravado em 1970 e lançado somente no início dos anos 2000), a saída de Rita Lee d’Os Mutantes e da vida de Arnaldo (os dois eram casados), passando pela saída do próprio Arnaldo da banda e culminando com o lançamento do álbum solo “Loki?” (1974), considerado um dos grandes discos da música brasileira de todos os tempos, que sintetiza bem o momento da vida do mutante naquela época.

Na cronologia de sua vida ainda estão os projetos com a Patrulha do Espaço, o segundo álbum solo, “Singin’ Alone” (1982), a tentativa de suicídio no primeiro dia de 1982, ao se atirar da janela do Hospital do Servidor Público, em São Paulo. O coma de quase dois meses e a recuperação lenta já ao lado de sua terceira esposa e uma espécie de anjo da guarda, Lucinha Barbosa, que hoje vive com Arnaldo em Juiz de Fora, Minas Gerais. Além do lançamento do álbum “Let It Bed” (2004) e a reunião d’Os Mutantes em 2006 – com a participação de Zélia Duncan no “lugar” de Rita Lee.

“Loki” é um documentário apaixonado e apaixonante sobre a vida de Arnaldo Baptista, quase que um acerto de contas com esse que é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores artistas (no sentido de maior essência da palavra) da nossa música. O filme não foge do formato padrão de documentário, mas consegue levar às lágrimas e depois às gargalhadas em pouco tempo. Além de apresentar um Arnaldo sorridente, brincalhão, feliz com a vida, mostrando que ele realmente é um homem de alma pura e exemplificando que louco é quem diz que não é feliz. Arnaldo é feliz.

Loki – Arnaldo Baptista” foi exibido em Belo Horizonte no dia 1º de novembro, dentro da Mostra Cine BH 2008, no Cine Santa Tereza e contou com presença de Arnaldo e sua esposa, Lucinha. No início e no final da sessão, o brincalhão Arnaldo foi aplaudido durante vários minutos pelo público. E como em outros festivais onde o filme também foi exibido, era possível observar diversas pessoas visivelmente emocionadas e com lágrimas nos olhos (e olha que eu nem me olhei no espelho durante o filme).

 

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