Skip to content →

Tag: alto-falante

Entrevista com Guto (Dead Lover’s Twisted Heart)

Voltei a ouvir o disco do Dead Lover’s Twisted Heart esses dias e estava pensando em um jeito para dar a dica do álbum por aqui, aproveitando que ele está disponível em streaming pelo Soundcloud (player abaixo). Lembrei de uma entrevista que fiz com o Guto (guitarrista) para o site do Alto-falante na época em que a banda fez o show de lançamento do disco em Belo Horizonte (e ele até entrou na minha listinha de melhores de 2010).

Resolvi editar o texto de apresentação da entrevista e colocá-la aqui no Veia, já que ela é mais voltada para o disco. “Jornalismo reciclagem”. Pense nas árvores (o SWU vai trazer o Neil Young para isso – faça a sua parte).

O Dead Lover’s Twisted Heart, banda de Belo Horizonte que faz um som que mistura folk, rock e música pra dançar, já está com o aguardado primeiro disco cheio na praça desde o ano passado. DLTH saiu em CD, vinil e também foi disponibilizado em streaming e download. E o som do álbum é aquele já conhecido estilo Dead Lover’s de ser, só que bem mais trabalhado.

DLTH é safado, sexy, puritano, cool, old e romântico de um jeito que talvez só a banda consiga fazer. Entre as músicas do álbum estão as já conhecidas “Mrs. Magill” e “All things (you gotta do)” ao lado das novidades certeiras “Rock hurts and heart beats”, “Line 5102” e as belas “Pretenders” e “Isabelle”.

A conversa com o guitarrista Guto:

Finalmente o primeiro disco da banda… Fale um pouco sobre o processo de produção e gravação. Algumas músicas até já rolavam em shows, né?
Finalmente! Bem, foi um longo processo. Contando do dia em que começamos a fazer as primeiras guias até hoje já se vão 2 anos e meio! Mas esse período tão longo na verdade foi marcado por várias etapas, todas elas bem exemplares dos altos e baixos de uma banda que se mete a fazer um disco com o próprio dinheiro, com o equipamento que dá, contando com a ajuda dos amigos, de parceiros, assumindo todos os riscos desse processo. Queria ter registrado isso melhor. Ia ter sido um barato. Mas foi aquela velha história, gravamos bateria no período mais barato do estúdio (na madrugada) durante as férias, o resto todo gravamos em casa pegando todo tipo de equipamento emprestado, num esquema que tinha que desmontar estúdio quase toda semana e remontar e tal. Nisso todo tipo de mudança na vida das pessoas da banda aconteceu. Pra você ter uma ideia, o filho do nosso produtor musical tem exatamente a mesma idade do disco (risos). Bom, no final das contas o pessoal do selo Ultra Music nos ajudou a finalizar o áudio. Barral (diretor do selo) mixou, masterizamos em Nova York, Pat (baterista da banda) e Yann fizeram a arte do CD e do vinil, e agora vai!

Vocês tiveram algum apoio?
Contamos sim com amizades, apoios morais e algumas parcerias. Apoio de lei, grana do estado e essas coisas? Não tivemos não. Nem tentamos. Foi uma opção da banda. E não vou mentir pra você, é um perrengue desgraçado essa história de produzir exclusivamente com seus recursos hoje em dia. Tem que ralar muito. Seria muito legal que as pessoas tivessem ideia disso, porque é um processo muito rico também. Faltou grana? Claro! Falta até hoje. Mas a gente fez de tudo para cobrir todos os reduzidos gastos do disco com a grana que a banda gerava com os cachês. Uma das coisas que atrasou o processo foi justamente o fato de que não podíamos parar de tocar para gravar, afinal a gente precisava dos cachês para conseguir lançar nosso disco com uma qualidade legal. No final das contas, esse nosso formato “econômico” foi bem interessante, pois conseguimos fazer um processo de gravação até agora “auto-sustentável”, por assim dizer.

Quem assina a produção do disco?
Como eu estava te dizendo, esse disco conta com a produção musical do Thiakov, o mesmo produtor do nosso EP, e na verdade, a parceira mais importante da banda. Ele é como o quinto Dead Lover. Mas o processo foi caminhando de tal forma que eu, que comecei a gravar o disco só como músico terminei por assinar a co-produção artística. Eu e Thiakov tivemos que nos desdobrar imensamente para conseguir chegar a lugares que a banda ainda não tinha chegado. Estudamos muito juntos para resolver problemas de sonoridade, timbragem e arranjos. Foi muito bom no final das contas. Aprendi muito mesmo.

DLTH vai ser lançado em CD e vinil. Por que escolheram esses dois formatos?
Bom, o nosso EP anterior foi disponibilizado para download na internet, mas nós resolvemos finalizar a carreira dele com a prensa em vinil, que saiu no início do ano passado pelo selo Vinyl Land. Foi um convite do Luiz, diretor do selo, e aceitamos pelo prazer de se lançar um compacto nos dias de hoje. Escutando o disco ficamos surpresos como a sonoridade era muito fiel ao nosso projeto sonoro para a banda. Além disso, através do Luiz fomos descobrindo o imenso lastro de colecionadores, de festas e circulação do formato, assim como o interesse enorme que existe hoje pelo que se entende como uma “volta” do vinil. O nosso EP em vinil foi lançado e esgotou com uma rapidez assustadora, foi comentado até não poder mais, demos várias entrevistas falando do assunto. Então terminamos por nos “engajarmos” nessa história do vinil por motivos estéticos e ao mesmo tempo por acreditar que o vinil é um formato que cobre uma lacuna muito importante na produção e consumo da música hoje em dia e que diz respeito justamente aos novos caráteres físicos dela. Além do som ser muito específico – para nós ser esteticamente valioso – o vinil é um objeto lindo, tem muita memória cultural no meio. As pessoas compram às vezes sem ter vitrola. Escutam o MP3. Mas querem ter um novo (velho) objeto para a música.

O que mudou na banda do primeiro EP pra esse álbum cheio?
A banda amadureceu muito. E isso para nós significou até agora diversificar-se ainda mais. O som está ainda mais plural, eu acho. A banda, por sua vez, está mais segura dos arranjos, eles por sua vez estão mais claros, mais detalhados. A participação da banda acompanhando mais de perto o processo de produção do disco deu a ele uma cara mais fiel às apresentações ao vivo. O áudio está bem tratado. Mas o mais importante, o disco fecha um conceito específico deste momento da banda, daqui pra frente devemos ir caminhando para outros lados também.

Você consegue definir o Dead Lover’s? Não só a música, mas a banda como um todo?
Alguns amigos mais próximos costumam gritar durante o show uma brincadeira interna nossa que é chamar a banda de “Dead Lover is Tudo Errado”, que é uma brincadeira com a sonoridade em inglês do nome da banda. É uma boa definição. Somos meio errados (risos). Costumo dizer que somos uma banda “sem caráter”, como o macunaíma, temos qualquer cara, desde que seja boa (risos).

O disco deu uma “vazadinha de leve”, né? Como está a resposta dele até agora?
Está sendo excelente! Só elogios (risos). Essa vazadinha eu vou explicar. A gente mandou intencionalmente o disco para as pessoas que de alguma forma participaram do processo. Amigos de estrada, o pessoal que emprestou equipamento, pessoal da crítica que já nos conhece. Aí ele deu uma circuladinha bem restrita. Mas aí eu fico vendo no twitter que o disco começa a ir se espalhando, cada vez mais gente vai escutando. Tem gente indócil querendo o disco já. De qualquer forma já já sai pra todo mundo. Quem quiser escutar em primeira mão já estamos colocando o disco para audição online, mas para adquirir vai ter que ir ao lançamento.

Pretendem deixar o disco para download em algum lugar? O que pensam sobre isso? [A banda disponibilizou o disco para download aqui, além de ser possívei baixar cada música pelo próprio player do Soundcloud].
Acho que estas coisas são inevitáveis. O disco acaba aparecendo para download. E banda independente tem mesmo é que fazer sua música tocar de qualquer jeito, acho isso bom. No entanto o que acontece é que as pessoas baixam tanta música hoje em dia que lançando de qualquer jeito, sem nenhum tipo arte envolvida nisso, seu som vira quase aquele junk mail que só enche o computador do cara comum, como um spam ou mais um dos 15 discos que cara baixou no dia. Muita gente já nem baixa, escuta online mesmo num esquema que parece ser gratuito, mas as pessoas se esquecem que pagamos muita grana de provedores de internet, que por sua vez ganham enquanto disponibilizamos nossas músicas online. Muita gente acredita que “baixar” disco na internet é “gratuito”, mas não é, né? É um jogo muito delicado. Então voltando, nós devemos colocar o disco inteiro para audição na internet, venderemos o vinil e o CD e esperamos que as pessoas espalhem o nosso som o máximo que puderem.

Por que o nome dele é DLTH? Não quiseram colocar Dead Lover’s Twisted Heart de uma vez?
Pôxa, você é jornalista, imagina que coisa insuportável escrever o nome do disco “Dead Lover’s Twisted Heart da banda Dead Lover’s Twisted Heart”? (risos). Mas não é isso. Escolhemos o nome do disco depois que Pat, nossa baterista, e o Yann finalizaram a arte da capa. É uma opção meio gráfica. A arte do disco é bem minimalista e fez muito sentido serem só as iniciais.

Como vocês observam a cena da música independente em Belo Horizonte?
É engraçado, estando nesse meio aí das bandas que surgiram no final da primeira década dos anos dois mil aqui em BH há algum tempo, é possível ir vendo gente nova ir aparecendo e tornando a coisa ainda mais interessante. Não que exista uma separação entre grupos, muito pelo contrário, todo mundo está cada vez mais misturado, mas estou sacando um tanto de gente nova dando as caras na cena, fazendo um som bom pra caralho, chegando com força. Acho isso sensacional. O número de bandas só aumenta, e o mais importante: bandas muito boas. Coisa instrumental como Iconili e o Dibigode, uma onda meio ska-roque como o Fusile e o Pequena Morte, a galera mais indie do Monograma e o Hells Kitchen Project, os indecifráveis do Grupo Porco, o pessoal da musica brasileira como Urucum na Cara, o Capim Seco… é muita gente boa aí. Belo Horizonte deve ser uma das cenas mais diversas e interessantes do Brasil.

Belo Horizonte influencia a música de vocês?
Com certeza, o fato de todo mundo em Belo Horizonte se conhecer ajuda muito no nosso som. A gente é muito aberto a sonoridades, referências, amizades, interferências e tudo que mude nosso som. Nesse sentido, de alguma forma, o som desses grupos que eu mencionei antes são uma parte mais recente destas nossas referências mais recentes. Já tocamos, somos amigos ou tocaremos com todos eles. Isso é muito bom.

 

One Comment

Superguidis chega ao fim

A banda anunciou o fim pelo Twitter na última quinta-feira, 23.

Só fiquei sabendo agora (feriado… sabe como é). Baita banda. Aliás, uma das melhores do Brasil dentro do pacote “anos 2000” pra cá, sem exagero. Vai fazer falta, mas sorte que a música permanece eterna.

Abaixo estão links de textos que escrevi sobre os útlimos dois álbums da banda e uma entrevista com Andrio e Lucas feita em 2010. Tudo publicado originalmente lá no site do Alto-falante.

Texto sobre o disco A amarga sinfonia do superstar (2007).

Texto sobre o disco Superguidis (2010), com direito a um belo faixa a faixa feito por Marco Pecker, baterista da banda.

Entrevista com Andrio Maquenzi (vocal e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra e vocal).

Que venham os novos projetos de cada um.

 

Leave a Comment

Entrevista com Superguidis

Fiz essa entrevista por e-mail com o Andrio e o Lucas para o site do Alto-falante em 2010, época em que a banda estava lançando o terceiro disco, Superguidis. Gostei do resultado e os caras se mostraram bem acessíveis e comprometidos. Além de super educados (e pensar que tem gente de banda independente por aí que não tem nem qualidade musical e ainda se acha um superstar, enfim…).

Sem mais conversa… Boa leitura.

Em 2006 a banda gaúcha Superguidis lançou seu primeiro disco, que carregava o nome da banda, chamando a atenção com as músicas “O Banana”, “Malevolosidade” e “Discos Arranhados”. Gritos de uma juventude que tinha o que gritar. Nem que fosse a pasmaceira daquela fase da vida, o tênis furado ou a falta de grana. No ano seguinte, a tal prova do segundo disco ganhava corpo com A Amarga Sinfonia do Superstar, no qual apresentou uma banda madura munida de canções mais introspectivas e reflexivas que as de antes. Mesmo assim mantinham o toque de jovialidade do álbum de estreia espalhado pelas entrelinhas das canções. O ataque de guitarras afirmava a identidade da banda ao mesmo tempo em que dava a entender que a Superguidis sabia o que queria.

E agora, em março de 2010, a banda apresenta seu novo trabalho defendendo aquilo que acredita: a música. O disco de gestação demorada não tem nome “pra chamar a atenção que é o terceiro disco” do quarteto gaúcho formado por Andrio Maquenzi (vocal e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra e vocal), Marco Pecker (bateria) e Diogo Macueidi (baixo).

O Alto-falante conversou com metade da banda a respeito do novo trabalho. Entre outras coisas, Andrio e Lucas falam sobre o processo de produção do disco, o fato dele ter “vazado” antes do lançamento oficial, o DVD acústico que está a caminho e o respeito que construíram perante público e crítica. “Reconhecemos que temos potencial, mas deixamos a galera que nos ouve responder isso naturalmente”, entrega Andrio.

 

Alto-falante: O novo disco foi gravado no início de 2009, certo? O que rolou de lá pra cá que fez com que vocês adiassem tanto a data de lançamento?

Lucas: Cara, deu um monte de problemas com a gravação das cordas… Foi isso que fez o disco atrasar um ano inteiro… Como não deu tempo de gravarmos elas enquanto estávamos em Brasília gravando o disco, a coisa foi ficando pra depois e no fim das contas os atrasos foram se somando.

Andrio: O processo da mix também se deu à distância, o que não otimizou a coisa. A comunicação com o norte-americano Kyle Kelso se deu por intermédio do Seabra, aí as faixas iam e vinham, e voltavam com as nossas devidas observações e tal. Isso levava uns dias, semanas… Ainda bem que a sonoridade gigante do disco compensou esse problema de logística.

Alto-falante: Por que resolveram nomear o álbum apenas com o nome da banda? Vocês chegaram a cogitar “Tolos Mudam” e mudaram de ideia?

Lucas: Foi… A gente pensou em um monte de nomes, mas nenhum realmente nos agradou. Foi então que resolvemos deixar ele sem nome, quer dizer, ele não se chama “Superguidis”, ele só não tem nome. Isso é pra chamar a atenção que é o terceiro disco, saca? Daí as pessoas vão se obrigar a chamar de “o terceiro disco do Superguidis”! A gente tem bastante orgulho de batalhar bastante e ter 3 discos lançados desde 2006.

Andrio: Em cima da hora, começamos a pensar que “Tolos Mudam” soaria pretensioso, cínico demais. Até rolou uma versão 2 do nome (Tolos [Não] Mudam), mas aí tivemos uma identificação tão forte com a capa que deixamos o nome pra escanteio. E putz, os melhores discos são mais conhecidos pela capa (como o do “Cachorro de Três Patas”, do Alice In Chains, o do “Abacate” do Pearl Jam…).

Alto-falante: Como foi a decisão de colocar instrumentos de cordas no disco (cellos e violinos)? Deu muito trabalho pra fazer os arranjos? Como funcionou?

Lucas: Foi uma ideia quase sem querer… A gente tava gravando uma pré-produção em casa mesmo quando durante a gravação de “Visão Além Do Alcance” alguém veio com a “piada” que ficaria legal uns cellos ali no meio da música. A ideia inicial era ter um solo de guitarra… Daí, como tínhamos tempo pra brincar, resolvemos tentar com um simulador de cello e tal… No fim o Andrio fez o arranjo e logo após ele gravá-lo rolou um comentário “cara, ficou ridículo!” (risos). Mas depois fomos ouvir e tinha ficado do caralho! Na verdade é esse mesmo arranjo que entrou no disco. Mas com instrumentos de verdade, claro. Fazer os arranjos foi uma das coisas mais divertidas que eu já fiz. Acho que pro Andrio também. A gente meio que dividiu a autoria dos arranjos… Foi tão divertido que qualquer música que eu faço hoje eu me pergunto “cabe cordas aqui?”. Sério, eu me divirto demais fazendo isso!

Andrio: Eu estava ouvindo o “Mellon Collie & The Infinite Sadness”, dos Pumpkins, pelo menos umas 3 vezes por dia, daí que a ideia de inserir cordas em algumas faixas começou a não me soar estranha. Claro que, guardadas as devidas proporções, né? As cordas desse disco são fantásticas, impossíveis de comparar ainda mais com chinelões que nem a gente.

Alto-falante: Qual a maior diferença do “A Amarga Sinfonia do Superstar” para o “terceirão”?

Lucas: Acho que a maior diferença é que no terceiro a gente teve a intenção declarada de fazer um disco com início, meio e fim! Quer dizer, houve músicas que foram compostas exclusivamente pra ocupar um espaço específico no disco. A coisa é que nós só temos o verão pra tirar férias e ficar um mês em Brasília gravando, daí lá por maio de 2008 a gente sentou e decidiu que precisava de um disco pra gravar no verão de 2009, senão só poderíamos gravar no verão de 2010. Foi quando resolvemos nos disciplinar e começar a fazer músicas pro disco. Nunca tínhamos feito isso, já tínhamos umas 5 musicas quando decidimos isso, precisávamos de mais 7 mais ou menos. Foi o que rolou, mas uma acabou ficando de fora. Os outros dois discos tinham sido a junção das músicas que tínhamos até um dia antes de ir gravar. Acho que isso faz bastante diferença no resultado final.

Andrio: Aham.

Alto-falante: No disco físico do novo trabalho vem também um CD acústico que vocês gravaram em maio de 2009. Fale um pouco sobre esse show.

Lucas: O show foi do caralho! Mas foi o dia mais estressante das nossas vidas. A gente precisou levar todo o equipamento e a gravação do áudio também era responsabilidade nossa! Depois desse dia eu prometi pra mim mesmo que nunca mais ia fazer o som do PA, gravar e tocar o mesmo show! Meu olho ficou tremendo uns 3 dias depois que passou (risos). Sério! Mas depois de pronto deu orgulho! Valeu a pena! Era um lugar bem pequeno e tava abarrotado de gente em um dia meio frio. Quer dizer, perfeito pro clima que a gente queria capturar. Foi lindo!

Andrio: Começamos a pensar num clima meio “Nirvana MTV Unplugged”, rolou até um convite para os irmãos Daitx, da conterrânea e então inativa ProzaK, que compareceram para interpretar conosco duas músicas de seu repertório. Tipo o que aconteceu com os irmãos Kirkwood dos Meat Puppets (risos).

Alto-falante: E por que decidiram lançar o acústico junto com o novo trabalho?

Lucas: Foi pra compensar a espera do pessoal que nos incomodou 2009 inteiro (risos). Desde que falamos na comunidade do Orkut que estávamos gravando disco novo já começou a pressão pra lançarmos de uma vez… Daí por causa do atraso a coisa começou a ficar mais intensa. Foi quando a gente lembrou que daria tempo de finalizar o áudio do acústico antes do DVD em si. Resolvemos então ao invés de colocar umas faixas bônus colocar o disco todo!

Andrio: A gente curte pacas essa relação com quem nos ouve e nos acompanha. Então assumimos tipo um compromisso de entregar um novo trabalho do jeito mais compensador possível. Só faltava o disco chegar com chumaços de cabelo de cada integrante.

Alto-falante: O DVD desse acústico sai quando? Vai demorar muito tempo como o disco? (risos)

Lucas: Tomara que não (risos)… Agora ele tá na mão dos nossos bróders da Baixada Nacional Filmes… A ideia é ter ele pronto lá por maio. Já estamos agendando o show de lançamento aqui em poa [Porto Alegre]. Se tudo der certo, vai rolar ao vivo pela internet. Vai ser do caralho!

Andrio: E num teatro e tal. Se rolar, vestidos de fraque e de gel no cabelo! Coisa única em nossa carreira.

Alto-falante: O disco vazou antes do lançamento oficial… O que vocês pensam disso?

Lucas: Adoramos! Nos sentimos banda grande (risos). Mas sério, foi bacana mesmo. O legal é que foi bem espontâneo! Mandamos o disco todo pra um monte de gente da imprensa com a intenção de que cada um liberasse uma música e o pessoal corresse atrás aí nos blogs… Mas daí um desses caras de blog upou o disco todo no 4shared dele pra liberar depois do lançamento e ficou na dele. A coisa é que alguém esbarrou nesse link que abriu o berreiro na comunidade! Foi do caralho!

Andrio: E isso só tem a acrescentar pra todos. A galera já pode ir nos shows de lançamento conhecendo o disco, ou seja, assim a gente não engana a torcida. E se as pessoas curtiram mesmo a bolacha, vão levar pra casa sua versão física.

Alto-falante: Os dois primeiros álbuns de vocês foram bem aceitos por público e crítica. Rolou alguma pressão da própria banda para se superar por causa disso? Uma preocupação em não decepcionar quem está de fora?

Lucas: As nossas pressões são sempre internas, quer dizer, a gente tá muito mais interessado em fazer um disco bom, o melhor que a nossa capacidade nos permitir, do que agradar alguém de fora. Foi assim nos outros 2 também… Claro que a aprovação do público e crítica é importante mas não mudamos uma nota de lugar visando isso, saca? Ter uma banda, pra nós, sempre foi muito mais por causa da música do que por qualquer outra razão!

Andrio: Falou tudo.

Alto-falante: Como é trabalhar com Philippe Seabra novamente? Não se mexe em time que está ganhando? (risos)

Lucas: Pois é, já estamos acostumados com o Seabra. Esse disco é um pouco mais “torto” que o segundo, né… Então acredito que tenha sido um desafio pra ele tanto quanto foi pra nós.

Andrio: Só falta a gente ensiná-lo a assar um churrasco fora daqueles modelos norte-americanos (bifinhos na grelha do jardim, etc).

Alto-falante: O “A Amarga Sinfonia do Superstar” já mostrava claramente uma maturidade da banda em relação às composições. E agora, vocês acham que estão ainda mais maduros, perdendo um pouco da “jovialidade” do primeiro álbum?

Lucas: Cara, a gente fez o primeiro disco entre 19 e 21 anos. Agora temos entre 25 e 26… Não tem como soar igual, né! Só se a gente fosse bem mais retardado do que a gente é (risos). Mas não, meu, acho que esse disco tem vários momentos bem joviais. Claro que a coisa tá soando um pouco diferente mas ainda somos os mesmos abobados de sempre, só a nossa visão do mundo mudou um pouco e isso afeta demais a nossa música… Ainda não somos velhos o suficiente pra fazer discos “burocráticos”, mas não temos nenhum interesse de fazer o primeiro disco de novo!

Andrio: É isso mesmo. Aquela coisa na época me fazia muito sentido, mas não [me] vejo compondo daquele jeito atualmente. Claro que, pelo menos pra mim, tentarei sempre fugir do óbvio. Tipo, tu nunca vai ouvir a frase “brilho do teu olhar” em alguma de nossas músicas… Tá loco…

Alto-falante: Vocês ainda moram em Guaíba/Porto Alegre, né? Muitos dizem que esse ano parece ser decisivo para a carreira da banda. Vocês pretendem continuar morando aí ou planejam uma mudança de ares com o intuito de “fortalecer a carreira”?

Lucas: Pois é… Porto Alegre não é tão longe e todos nós temos coisas que nos prendem aqui. O Andrio trabalha e estuda, o Marco e eu estudamos e o Diogo trabalha… Quer dizer, não podemos simplesmente largar tudo e ir correndo atrás do Papai Noel, saca? Com essa descentralização da coisa toda achamos que é perfeitamente possível permanecer aqui e tocar as nossas vidas sem nenhum dano pra carreira da banda…

Andrio: Acho que o “fortalecer a carreira” vai se dar justamente por essa não-afobação que a gente sempre adotou. 2010 vai ser nosso grande ano por isso: consolidar a carreira com música autoral, sem precisar moldá-la para o que, convenhamos, não existe.

Alto-falante: Vocês já estão na estrada há algum tempo, são reconhecidos e respeitados dentro da cena independente nacional. Mas e aí em Porto Alegre, como vão as coisas? Já têm um respeito local ou estão meio que como um “patinho feio”, por não fazer o tal rock gaúcho?

Lucas: As coisas estão tão paradas por aqui que eu nem sei mais… Mas sim, temos bastante respeito… Acho que mais pela insistência do que por qualquer outra coisa. Sempre tivemos o nosso público fiel aqui e acho que vamos ter por um bom tempo ainda.

Andrio: Até não acho que seja por insistência. Insistência é coisa de banda ruim que compra o passe a qualquer custo. Somos bastante humildes, mas não bobos. Reconhecemos que temos potencial, mas deixamos a galera que nos ouve responder isso naturalmente.

Alto-falante: Como andam os planos da banda daqui pra frente?

Lucas: Tocar onde der! Já temos uma baita agenda pra esse primeiro semestre e eu já tô temendo pela aprovação nas cadeiras que eu me matriculei (risos).

Andrio: Idem. Se eu e o Marco perdermos o Prouni por excesso de faltas, tamo f#@&%o.

 CONFIRA AQUI A CRÍTICA DO DISCO “SUPERGUIDIS” E UM FAIXA-A-FAIXA FEITO PELO BATERISTA MARCO PECKER

Fotos: divulgação/Thiago Piccoli.

One Comment

“As coisas quase sempre acabam”

Texto que escrevi sobre o disco Superguidis, que a banda lançou em 2010. E,  agora que eles anunciaram o fim, transforma-se no último álbum oficial do grupo. Um belo trabalho com direito a CD acústico.

Este texto foi publicado no site do Alto-falante quando o disco foi lançado e conta com um faixa a faixa bem legal que o Marco Pecker (baterista) escreveu.

Em algum dia de 2007, os gaúchos da Superguidis lançavam o segundo álbum da carreira, “A Amarga Sinfonia do Superstar”, chamando a atenção para aquilo que parecia inevitável: os “guris” estavam mais maduros. Ainda assim a jovialidade do disco de estreia permeava as entrelinhas das canções, revelando o possível novo caminho que a banda poderia seguir. Algo como uma “banda de carreira”, como já disse alguém. A banda não fica presa àquilo que deu ostart na carreira. Ela parece ter a intenção de crescer, evoluir. Não, não são todas as bandas que apresentam tal intenção. Algumas recriam o mesmo disco a cada lançamento. O que, até agora, não é o caso aqui.

E eis que o terceiro álbum da Superguidis conhece o mundo. Registro aguardado, principalmente por ser a prova cabal dos novos rumos (ou não) da banda, o disco chegou ao plano virtual antes do real, garantindo ao grupo um status de banda grande (leia mais aqui). O álbum “Superguidis”, conhecido também como “Terceiro”, se mostra difícil em uma primeira audição, mas ganha corpo e crédito com o tempo. Andrio (vocal e guitarra) e Lucas (guitarra e vocal), que dividem as composições da banda, estão mais sérios? Sim. Mais sóbrios? Sim, mas não muito. Na casa dos vinte e poucos anos, a vida ainda não parece ter aquele peso como os adultos a concebem. Ainda há espaço para os temas que eles cantavam lá em meados de 2006, quando lançaram o primeiro álbum. Só que de uma perspectiva diferente. Uma perspectiva madura de um jeito torto. Os mesmos temas estão mais sérios, evoluíram. As melodias não apresentam muita diferença. Mas isso pode ter outro nome: identidade.

Desilusões (“As Camisetas”), pé na bunda (“Casablanca”) e polaróides do jovem de classe média (“Quando Se É Vidraça” e “Não Fosse O Bom Humor”) permeiam o álbum ao lado do medo que o peso da vida de gente grande traz sem pedir licença (“O Usual”). Além da vida adulta propriamente dita (“De Mudança”). Tudo isso sem perder ou mesmo deixar o passado de lado (“Fã Clube Adolescente”). Talvez a faixa que melhor represente a fase de transição da banda seja “Nova_completa”, na qual o personagem da letra assume o fato natural de envelhecer ao mesmo tempo em que pede sua rotina de volta, com guitarras entrelaçadas servindo de base.

Para fechar, a direta “Aos Meus Amigos” pode sintetizar bem o que é o disco com os últimos versos da segunda parte “Aos meus amigos toda a acidez / De um abraço embriagado / E a simplicidade de quem tem / Um par de tênis furado”. Como se todo o álbum fosse um trabalho conceitual, em que uma música é complemento da anterior. E aqui fosse, realmente, o grande final. Quando o personagem que caminha por todas as canções dá um adeus mais tranquilo, revelando que ainda guarda algo de sua adolescência, nem que seja o All Star furado. A canção demonstra, no final da parte instrumental, uma audácia ainda não vista nos discos anteriores da banda (o que acontece também em “Roger Waters”, com piano e cordas que causam estranhamento de início).

A Superguidis continua se comunicando de igual para igual com seu público, emoldurando o que vive, o que não gostaria de viver, o que o aflige, o que o faz lamentar e ter medo. Como se fosse um diário aberto ou a crônica de uma geração de classe média ávida por alguém que berre aquilo que ela tem vontade de gritar. Mas levando em consideração o tamanho do Brasil, os Guidis ainda são pequenos. Não vão tocar em FMs de meia em meia hora. Muito menos serão lembrados daqui alguns anos pelo Fantástico. Em contrapartida eles fazem música de acordo com sua capacidade e seu tempo. E isso, diante de uma indústria ainda perdida ao redor do seu próprio umbigo, às vezes basta.

“Superguidis” não parece ser o grande álbum da banda. O disco aponta caminhos, sem dúvida. Mas eles ainda não estão totalmente maduros. E isso não é necessariamente negativo. O pingo de juventude ainda corre nas veias, nas guitarras e nos versos do quarteto gaúcho. Vamos esperar pelo futuro.

Bônus: faixa a faixa, por Marco Pecker (baterista do Superguidis)

1 – Roger Waters
Quando o Lucas nos apresentou esta música, notei realmente a diferença e a maturidade pela qual passamos desde o primeiro CD, lançado há um tempo por um cara chamado Fernando Rosa.
Esta música foi definida de cara a primeira do disco. Queríamos mostrar que mudamos e ela é o divisor de águas da Superguidis. Arranjos de cordas, piano, apenas violão, sem a parede de guitarras. Ela é para se ouvir e pensar: “isto é Superguidis? Não é que é mesmo, e é bom”.

2 – Não Fosse O Bom Humor
Carinhosamente chamada pela banda de BH (sim, colocamos apelidos em quase todas as músicas), ela foi estrategicamente escolhida como a segunda faixa por contrapor-se a Roger Waters. A calmaria criada na primeira faixa vem com o esporro juvenil e gritante logo em seguida. Um cara que se repreende, que passa sufoco no trabalho, na escola e que ainda assim tem bom humor para aguentar tudo isso, é o resumo da vida da Superguidis.

Ela é uma enxurrada de guitarras do começo ao fim. No inicio eu pensei: “onde vai ficar a bateria no meio de tanta guitarra?”. E não é que ela está lá, firme e forte para martelar no ouvido de todo mundo. Esta música acompanha um videoclipe facilmente encontrado no Youtube. Quem não entendeu o significado dela, assista o clipe.

3 – Visão Além Do Alcance
Esta foi a primeira música que decidimos “brincar” com as cordas. A demo deste disco foi toda gravada na garagem da minha casa, totalmente caseiro mesmo. As guitarras que entram em 1m10seg ficaram lindas, e elas entregam para as cordas a responsabilidade de continuar assim. Dito e feito. As cordas que no começo eram apenas para “brincar” acabaram ficando no lugar do solo da guitarra.

4 – As Camisetas
Não sei por que, mas o início dessa música me lembra algo da PJ Harvey (“As Camisetas” tem o apelido de “PJ”). A parede de guitarras que vem junto com o refrão esbarra em qualquer possibilidade de alguém querer dizer que “por que será que sempre chove toda vez que alguém te abandona” seja uma frase clichê.

5 – Quando Se É Vidraça
Uma das minhas preferidas, tanto na letra quanto nos arranjos. Um dia ouvi Foo Fighters. Aquele dia foi a minha perdição (risos). “Quando Se É Vidraça” (apelidada por nós de “pagode”) inicia mais ou menos como chuva de verão, sabe? No começo são só uns pinguinhos, aí o cara acha que não dá nada, vai sair e não vai se molhar, quando vê é tarde, tá lá todo molhado.

Quando tem a parada, nos 2min21seg, parece que foi pensada exatamente para nós darmos uma descansada (risos), pois ela é daquelas que dá vontade de tocar como se fosse a última vez na vida. Dá para notar como a gente se entrega nesta música pela respiração ofegante do Andrio no final, aos 3min13seg.

6 – Fã Clube Adolescente
Ela me faz acreditar que ainda é possível fazermos músicas como “Malevolosidade” ou “O Raio Que O Parta“, direta, reta, bateria marcada e com uma guitarra que parece uma caixa de abelha gritando no ouvido. Sou apaixonado pelo bumbo desta música. Senhores ouçam este bumbo! O refrão diz exatamente o que somos, principalmente quando estamos os quatro juntos. Nem o Fernando Rosa nos aguenta (risos).

7 – De Mudança
A cereja do bolo como costuma falar Philippe Seabra [produtor do disco]. Se existe aquele filho que o cara mais gosta (não sei se existe isso, ainda não sou pai), taí ela. Tem o apelido de “Supla”, porque o Andrio costuma cantar nos ensaios imitando a voz do dito cujo (risos), uma obra. Acredito ser a mais bela música do disco, a letra é simples e ao mesmo tempo forte, da a sensação de que em algum momento da vida tu vai olhar pra tua senhora excelentíssima companheira e dizer  “eu prometo que não saio deste lugar”.

Tem momentos distintos dentro da mesma música. É como se uma faixa se encontrasse com outra. Podemos dividi-la em: apresentação, até os 1min26seg; depois vem crescendo até os 2min14seg; neste momento abre-se a caixa de abelha, deste ponto até os 2min51seg quando a ouvi gravada pela primeira vez eu pensei: “Alice in Chains”. Alí eu chorei (risos).

Ela fecha com uma porrada. Três toneladas de guitarras mais baixo mais bateria te abraçando.

8 – Casablanca
Esta é uma música muito pessoal do Lucas, então eu não sei nem se consigo falar algo sobre ela. O refrão diz tudo e a mensagem é direta. Alguém deve ter entendido muito bem o que ele quer dizer. Lembro de ter escrito no Twitter a mensagem: “agora sim temos um disco de rock”. Foi logo após termos recebido esta música da pré-mix. As guitarras estão estrondosas, quando elas entram aos 48 segundos. É de estourar auto falantes. A bateria está monstruosa também. Quando volta da parada a música segue uma melodia mais calma. Esta é a idéia, estamos começando a nos despedir, o disco está chegando ao final. Uma curiosidade que só rola nos ensaios: o Andrio começa “Casablanca” cantando “Dreams“, do Cranberries.

9 – O Usual
“O Usual” para mim é a música mais estranha do disco. Eu demorei a entendê-la. Algo nela passa uma melancolia que em nenhuma outra música da Superguidis eu tinha sentido, é mais uma música do Lucas e tão pessoal como “Casablanca”. Não consigo imaginar “brincarmos” com ela como fazemos com as outras músicas. Digamos que ela seja o lado negro deste disco. Não que o lado negro seja ruim, mas é o momento de absorver a letra, muito mais do que as guitarras.

10 – Nova_completa
Está aí uma balada que me lembra “O Banana”, só que a primeira versão foi há uns oito anos. O cara cresceu e agora ele está largando de mão este papo de sofrer por algo que não vale mais a pena. O solo em 1min41seg é o mais próximo que podemos chegar do Pearl Jam. Quem me dera ter a capacidade de fazer algo parecido com o que o Dave Abbruzzese faz.

11 – Aos Meus Amigos
Esta faixa foi pensada em todos os pedacinhos, desde a guitarra com slides até as cordas. Queríamos algo enxuto, que soasse como um quarteto de cordas e não uma orquestra. Acredito que foi a música que mais deu trabalho e ela fecha mais uma fase da Superguidis. Esperamos ter alcançado as expectativas que todos tinham deste disco. Agora podemos dizer “Pronto, entregamos um disco com 11 faixas e nos orgulhamos dele”. É o auge de nossa competência musical, pelo menos até agora.

2 Comments

Superguidis – A amarga sinfonia do superstar

Texto que escrevi em 2007 sobre o álbum A amarga sinfonia do superstar, do Superguidis, para o site do Alto-falante. Acho esse texto mal escrito. Eu era jovem (e agora a ressaca me impede de fazer uma revisão). Leia se tiver coragem. 😛

O mercado fonográfico brasileiro vive um momento de reformulação e busca pela novidade. Com isso, novas (e ótimas) bandas aparecem pelos quatro cantos do país. Hoje não é somente o eixo Rio-São Paulo que ‘movimenta’ a cena nacional, mas sim um eixo muito mais interessante, inteligente e democrático: Oiapoque-ao-Chuí. Já que o Brasil é um país de extensão continental, nada mais justo do que esse novo eixo para diminuir a exclusão musical de outrora.

A Superguidis, que acaba de lançar seu segundo disco, lidera essa nova cena nacional. A segunda bolachinha e prova de fogo atende pelo nome de “A Amarga Sinfonia do Superstar” que, com certeza, é um dos discos mais aguardados do ano. Já que a banda foi unanimidade em 2006, tanto por parte de público quanto de crítica com o homônimo – e ótimo – “Superguidis”, não tem como passar despercebido perante o som dos gaúchos. Simplicidade e talento para fazer música da maneira mais jovem e sincera possível que se torna perceptível em uma primeira audição.

O disco, produzido por Philippe Seabra e lançado pelo já histórico selo brasiliense Senhor F Discos, continua com a conhecida sonoridade Superguidis: ‘guitarrada’, melodias singelas e marcantes e letras inteligentes. Só que, agora, as letras estão mais reflexivas e pessoais. Além de vocais mais enxutos. As influências de Pavement e Guided By Voices continuam marcando presença. Mas, mesmo com essas influências, o som da banda tem identidade própria. Pelo primeiro acorde de cada canção é possível assimilar e entender que se trata de Superguidis. Nada soa forçado no disco. “A Amarga Sinfonia do Superstar” vem com dez faixas inéditas e uma regravação. Mas uma dica é escutar o álbum até o último segundo.

A pessoal e masoquista “Por Entre As Mãos”  joga ao vento que alguém é o “melhor naufrágio” de outro. Uma letra bem Superguidis. O desabafo de “Mais Do Que Isso” serve para dizer que a banda não se importa em ser uma possível salvação do rock ou algo similar. Eles não querem ser “prisioneiros das imagens da radiodifusão”. Talvez não queiram fazer parte de uma amarga sinfonia de superstar. Querem ser apenas Superguidis, não mais que isso. “Mais Um Dia De Cão” tem tudo para se tornar um daqueles hinos indie de uma geração. Uma típica música para os fãs acompanharem com emoção a flor da pele. Verdades absolutas de jovens que não se contentam com aquilo que acontece. A regravação de “Ainda Sem Nome” vem com uma roupagem diferente. Um pouco mais acelerada e solos mais agudos e rápidos. As letras com um ar old school e bem sacadinhas permanecem. A exemplo de “Os Erros que Ainda Irei Cometer” e seus versos “bicicleta aro 15, tênis com cheiro de chiclete / São o bastante pra me lembrar desses anos que voam sem parar”. Mas talvez os ‘guris’ (Andrio Maquenzi, voz e guitarra; Lucas Pocamacha, guitarra e vocais; Diogo Macueidi, baixo e Marco Pecker, bateria) da Superguidis achem que já estão velhos demais e não tão espertos. Segundo “Nunca Vou Saber”. E tomara que eles realmente nunca saibam quando estiverem velhos. Pois desse modo eles correm o sério e excelente risco de continuar enchendo nossos ouvidos com suas pérolas musicais. Tomara que continuem jovens que não dependam de Wellaton. Assim eles chegam “lá” meio fora dos padrões da indústria (estes ainda existem?). Do jeito que eles estão é “mais fácil de acertar”. Então apenas leia (as letras no excelente encarte), escute e sinta “A Amarga Sinfonia do Superstar” e constate o que pode acontecer com os Guidis.

A banda passa com louvor na prova do segundo disco. Mostra um som ainda sincero, preciso e necessário em meio a crise de músicas descartáveis que assolam nossas rádios-com-falta-de-inteligência em assimilar bandas realmente interessantes e relevantes para o grande público. Agora resta esperar até o final do ano pra saber se a banda vai ser, novamente, unanimidade nas famosas listinhas de melhores do ano e coisa e tal. Fácil fácil isso acontecer.

 

3 Comments