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Tag archive for: alto-falante

Melhores de 2011 para o Alto-falante

(Essa coisa de lista já é assunto velho, mas coloco aqui mais um post sobre isso para deixar os meus arquivos um pouco mais organizados.)

Saiu no site do Alto-falante (que ando meio sumido, mas se os planos derem certo, apareço bem mais em 2012) uma lista de melhores discos nacionais e internacionais de 2011. E mandei meus votos que contribuíram com o resultado final – ao lado do Terence, Thiago e James. Lista completa aqui.

 

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O “Atlântico negro” do Wado

Enquanto o novo disco do Wado, Samba 808, não aparece na praça, confere aí essa videoreportagem que o Thiago Sá fez para o Alto-falante na época do lançamento do álbum Atlântico negro, em 2009.

Bem boa (queria eu ver pelo menos uma matéria assim por semana em qualquer programa de TV do Brasil com artistas que valem a pena. Queria eu…).

 

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O “machismo” de Giancarlo Rufatto

Escrevi este texto sobre o disco Machismo(2010) do Giancarlo Rufatto no ano passado para o site do Alto-falante e pedi ao Rufatto que fizesse um faixa a faixa bem livre sobre as canções do álbum. Tudo a seguir (e o texto até hoje ainda me parece interessante…).

“O lado positivo de fazer canções sem pretensão é poder tratar coisas pessoais sem preocupação maior do que divertir a si mesmo”. Esta frase, que está no “release sentimental” de Machismo (disponível para download aqui), álbum que o músico paranaense Giancarlo Rufatto lançou recentemente, sintetiza bem o que é o trabalho do sujeito: músicas sem a pretensão de cuspir verdades sobre a vida. Exceto as verdades pessoais. Rufatto vem de uma discografia calcada no estilo lo-fi de ser, com canções que sintetizam o cotidiano de um personagem urbano e, acima de tudo, a verdade do fundo do peito do autor. Transformando momentos em minutos existencialistas amparados por violões e melodias por vezes singelas e doloridas.

Rufatto sempre me pareceu a encarnação do personagem principal do livro Até O Dia Em Que O Cão Morreu (Companhia das Letras, 2007), de Daniel Galera. Principalmente por causa de músicas que revelam um estilo de vida urbano e dolorido de uma geração perdida nas amarras do cotidiano, algo como no livro de Galera. E o álbum Machismo é um apanhado disso. Canções como “Oquei”, “Desfaça as malas (e aceite o meu café)”, “Canção da espera” e “Curitiba, se você sorrir, lhe darei um doce” sintetizam esse lado do cotidiano, de cantar sobre as coisas da vida sem a pretensão de soar como poesia para a posteridade. Aqui a única pretensão parece ser a de registrar um momento. O momento em que o próprio autor vive. Canções que servem como um desabafo. Não mais que isso.

Ainda assim, as músicas acabam se transformando em retratos que sintetizam bem uma geração. Não a tal geração da nova música brasileira. Mas a geração do “cidadão comum” de classe média que trabalha para tentar pagar as contas no final do mês. Do “cidadão comum” imerso em uma adolescência tardia que sai da casa dos pais em busca da tão sonhada liberdade mas não consegue se virar sozinho. Do “cidadão comum” que tem decorado trechos e mais trechos de livros sobre cultura pop para usar em mesas de bar. Do “cidadão comum” que sonha viver um amor ao estilo das comédias românticas que Hollywood entrega a cada semana. Do “cidadão comum” que só quer ter uma vida melhor fazendo aquilo que gosta.

Todos os personagens do parágrafo anterior são identificáveis em meio aos versos de Giancarlo Rufatto que estão em Machismo. Não explicitamente, mas estão lá em entrelinhas e ideias. O disco une quatro faixas que ele lançou anteriormente (uma no Machismo EP, duas no EP Boas Festas E/Ou Single De Natal e uma no EP Canção Da Espera Ou O Fim Das Horas) com outras sete músicas inéditas. Sobre o nome do disco, Rufatto entrega que, “na teoria, o título ‘Machismo’ era uma avaliação sobre o caminho avesso que o homem médio fazia contrário ao feminismo, ficando mais sensível, mostrando sentimentos e outras coisas tipicamente ligadas à mulherada. Mas na prática é só uma piada sobre a total falta de jeito do homem para com os relacionamentos. Mas o álbum é mais relacionado à vida comum mesmo, sem grandes arroubos. Apenas tentando viver e pagar as contas”.

Machismo vem acompanhado de um “disco de covers” com as músicas “Não aprendi dizer adeus” (Leandro & Leonardo), “Eu sei, perdão” (Verde Velma), “Fake plastic trees” (“cover de Bob Dylan fazendo cover de Radiohead”, segundo Rufatto), “A garota na sua cama” (cover do próprio Rufatto) e “Inbetween days” (The Cure). O músico relata que “tocava há algum tempo essas versões. Na faculdade tinha até uma brincadeira de pegar uma música de fulano e executá-la como se fosse de ciclano. Exemplo: ‘como seria se o Pavement regravasse ‘Disarm’, do [Smashing] Pumpkins?’ Então surgiam coisas como Johnny Cash cantando ‘Bones’, do Radiohead, e ‘Paradise City’, do Guns [n Roses]. E Dylan tocando ‘Fake plastic trees’”.

Rufatto é um sujeito que escreve e canta com a sinceridade de quem só quer fazer aquilo que lhe agrada em busca de um pouco de diversão e desabafo pra que os dias caminhem de um jeito mais agradável. Com isso, a produção aparentemente tosca e desleixada das canções (lo-fi, ok?) reforçam o lado intimista e pessoal do trabalho do músico que parece compor para agradar a ele mesmo. Não mais que isso.

Para falar sobre as músicas de Machismo, ninguém melhor que o próprio Giancarlo Rufatto.

1 – Oquei foi a primeira a ser escrita. A letra está num disco do meu alterego “lo-fi dreams”, mas com outro direcionamento. A canção fala em aceitar o que sente pra tentar levar a vida pra frente – o que não dá muito certo. Na real, a maioria das pessoas simplesmente não estão prontas para conhecer o outro a fundo.

2 – Desfaça as malas (e aceite o meu café) é sobre estar sempre por um fio para desistir de tudo, estar sempre na defesa, sempre com a mala pronta para ir embora.

3 – Machismo é uma historinha com os clichês dos relacionamentos: o rapaz que tem de ser o durão, a moça que tem de ser a sensível. A primeira estrofe eu queria que soasse como uma luta de boxe entre o que você é e o que você sente. A segunda estrofe é a parte da mocinha, elas fazem drama, mas sempre se dão bem no final “hey, meu bem, sempre haverá outro ombro pra te cuidar”. E pra gente? Pra gente sempre haverá o bar.

4 – Frases de caminhão não são clichês Essa é sobre meu avô, que era caminhoneiro, e sobre minha família. O homem passou a vida e morreu na estrada. Meu pai é caminhoneiro, meus tios.

5 – Dois braços é uma canção sobre ter de acreditar todos os dias. As pessoas ouvem a palavra fé e pensam em religião, mas fé serve pra qualquer coisa, até pra loteria. E fé é uma coisa estranha. Na maior parte do tempo é “ou você tem ou não tem”, mas tem de ficar sempre se provando, sempre olhando por cima do muro como é o outro lado.

6 – Canção da espera Esperar, esperar, esperar. O que você faz enquanto espera? Eu fiquei fazendo canções enquanto esperava que ela viesse morar comigo. Ela não veio e aqui está um disco com 11 canções – sem contar os b-sides dos singles, canções desprezadas e outras canções que entrarão no disco da Hotel Avenida.

7 – Curitiba, se você sorrir, lhe darei um doce Essa é sobre um dia na vida da cidade. Gosto de Curitiba. Gosto de uma cidade que não se ofende por ser comparada à minha mãe ou a mulheres malucas que mudam de ideia o tempo todo.

8 – Chocolate & flores é sobre meu pai de sangue. Não me relaciono com ele, não sei nada sobre a vida dele, é tipo um tio bem distante. Essa letra é bem dura e talvez, num futuro distante, eu me arrependa de ter escrito. Mas hoje, não.

9 – Coração cheio é como a história da mulher que achou uma cobra congelada, levou pra casa e cuidou dela. Aí quando a cobra ficou boa, mordeu a mulher. Moral da historia: há certas coisas que simplesmente não podemos fingir. Podemos mentir, pelo menos não por muito tempo.

10 – Meu terrorismo foi a última canção a entrar no disco. Adoro essa letra pequenininha que fala sobre coisas ruins que as pessoas fazem a outras pessoas todos os dias – a pior destas coisas é jurar amor incondicional.

11 – Achados & perdidos o teclado da música denuncia: canção brega. Todas as canções do disco são meio bregas, mas essa é mais. O título, o arranjo, o assunto (o que se ganha e o que se perde de cada pessoa que se conhece por aí), o refrão, etc. Eu queria que a canção fosse meio Roberto Carlos, meio Erasmo, mas acho que ficou, no máximo, meio Sergio Reis indie, meio Amado Batista lo-fi.

Foto: divulgação (Albert Nane)

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A festa terminou

Texto sobre vida e morte de Amy Winehouse que escrevi para o Alto-falante. Brinco que este é um texto brega. Mas no fundo é apenas um texto sincero. Enfim…

Imagine uma famosa cena do senso comum: um suicida prestes a pular do alto de um prédio enquanto pessoas o acompanham lá de baixo e gritam insistentemente “Pula! Pula! Pula!”. Esta foi a vida de Amy Winehouse, a maior cantora da música pop neste início de século. Vida que teve fim hoje (23/07), quando ela foi encontrada morta em sua casa, em Londres, aos 27 anos. O motivo? Não importa tanto agora.

Amy teve sua vida exposta sem dó nem piedade como em um Big Brother elevado ao extremo. Cortesia da mesma indústria que a criou, a do entretenimento. Criar deuses, alimentar monstros e empurrar restos mortais de seres humanos escada abaixo faz parte do jogo e paga as contas de muita gente ao redor do mundo. Mundo que Winehouse teria aos seus pés se quisesse. Talento para isso a mulher tinha. Sua potência vocal e, principalmente, sua entrega nas composições lhe garantiram uma espécie de status de voz dos corações desamparados em momentos de escuridão. Sinceridade geralmente causa identificação. E se identificar com algo que um artista canta faz com que a admiração por ele seja crescente e envolvente. Algo como um masoquismo do coração: cantar sobre nossa dor costuma trazer conforto de um jeito estranho. Desabafar faz bem, dizem os melhores amigos. E na falta de uma boa conversa, canções funcionam melhor que qualquer papo ou remédio.

Ao que parece, Amy não queria ter o mundo aos seus pés. Ela só queria a felicidade, essa coisa que todos nós buscamos. E a felicidade estava em seus amores. Mas diante da impossibilidade de viver tal sentimento, ela encontrou amparo no álcool e em outras drogas mais pesadas. O resultado foram anos vivendo em uma festa que nunca terminava. Bebidas, partes íntimas expostas, brigas e afins lhe garantiam mais destaque mundo afora do que sua música, essa coisa que ficou em um segundo plano.

Polêmica era seu nome do meio. E sofrimento deveria ser seu apelido. Mesmo cantando que não prestava, aquele olhar tristemente perdido em meio a flashes nunca escondeu a fragilidade dos sentimentos de Amy Winehouse. Seu coração partido geralmente estava escondido em bebidas, mesmo que ela soubesse que as respostas não estavam no fundo de um copo. Além disso, Amy era e ainda é um exemplo visceral e dilacerante daquilo que todo mundo tem na família ou, muito longe, na vizinhança: dependentes químicos. E às vezes companhia, carinho e atenção podem funcionar mais que uma Rehab, arrisco.

Resumidamente, Amy Winehouse amou demais. E sofreu em iguais proporções. Um claro exemplo dessas pessoas que querem viver intensamente o amor, mesmo que fora dos padrões. E ela estava certa. A vida corre e corre e nem percebemos. Chega uma hora que tudo acaba (com 27 anos ou não). Até que surge o momento em que o suicida finalmente pula do alto do prédio. A festa termina, alguns cospem um “já vai tarde” e a vida continua até que o próximo espetáculo comece. Ainda assim, Amy também viveu demais. Viveu intensamente e à maneira dela, é verdade. Mas viveu. E tomara que agora ela seja lembrada pela música que deixou. Não mais que isso.

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Entrevista com Romulo Fróes

Entrevista que fiz com o Romulo Fróes para o site do Alto-falante:

Romulo Fróes, além de ser possivelmente um dos maiores pensadores da nova geração da música brasileira, é também um artista com um trabalho peculiar que merece atenção. Entrevistas com ele no Scream & Yell e no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo comprovam o lado “pensador” que está estreitamente ligado ao seu trabalho e que, em alguns momentos, até coloca uma sombra em sua obra. Do outro lado, o já clássico álbum No chão sem o chão, um dos melhores discos de 2009 e o mais emblemático de sua carreira até agora, comprova seu valor e singularidade artística.

Este ano Romulo Fróes apresenta um novo trabalho, o disco Um labirinto em cada pé, que tem a “difícil tarefa” de suceder o elogiado No chão sem o chão. Enquanto este era mais rock e experimental, no qual Fróes tentou se afastar da alcunha de sambista que ganhou com os discos Calado (2004) e Cão (2006), Um labirinto em cada pé volta a ter o samba como um elemento forte entre as composições. Sobre isso, ele revela: “A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba”. O resultado é talvez seu álbum mais acessível. Ao mesmo tempo em que assume o samba e as raízes da música brasileira, também assume o pop ao lado de um experimentalismo sem cair em uma sonoridade não assessível, pelo contrário.

O Alto-falante conversou Romulo Fróes sobre o novo álbum, parcerias, banda dos sonhos, entre outras coisas.

Você é formado em artes plásticas. Como ocorreu seu envolvimento com música?

Meu envolvimento com música como muita gente, é familiar. Meu pai, apesar de não ser um músico, é um grande cantor e um apaixonado por música brasileira pré-bossa nova. Desde muito cedo ouvi ele ouvir e cantar junto com os discos de Orlando Silva, Francisco Alves, Custódio Mesquita, Jacob do Bandolim, Jamelão, Lupicínio Rodrigues e uma infinidade de outros artistas. Esse amor e esse gosto “severo” por música, eu herdei do meu pai. Mas se existe dom, desde cedo meu dom natural foi para o desenho, eu queria ser desenhista, artista plástico, daí construí um caminho nesse sentido, até chegar ao Nuno na bienal de 1994, quando o ajudei pela primeira vez.

O Nuno Ramos é artista plástico e também é seu parceiro musical. Qual a importância dele para você, para sua carreira?

Já não trabalho mais pra ele hoje, mas a importância de ter trabalhado com o Nuno é fundamental e definitiva na minha vida, entrei em contato com um mundo que nunca entraria se não trabalhasse com ele. Aprendi e aprendo coisas que nenhuma escola ensina, meu convívio com ele e depois com o Clima é que moldou a canção que eu faço, meu trabalho não existe sem os dois.

O novo trabalho lembra mais o segundo disco [Cão] do que o terceiro [No chão sem o chão]. Ainda assim, o Um labirinto em cada pé soa como uma continuação terceiro álbum, mas com um pé mais no samba, coisa que você tentou se afastar um pouco com o No chão sem o chão.

Não sou sambista, mas lido com o samba porque afinal sou um compositor de música brasileira e tenho esse direito. O No chão sem o chão serviu a este propósito. Descolar de mim a pecha de sambista que haviam me atribuído. A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba.

Resumidamente, o álbum Calado é um samba mais triste, o Cão é essencialmente samba e o No chão sem o chão é mais rock, experimental. Você conseguiria dizer o que o disco atual reflete? Ele me parece algo como um samba mais pop…

Acho que é um disco de conclusão, de um processo realizado ao longo dos meus três primeiros álbuns. Exercitei minha composição nesses três discos, me valendo de toda a história da canção brasileira, muito centrado no samba, mas passando por todos os ritmos que compõe nossa música. Acho que tive mais acertos que erros, mas o mais importante é que criei uma base sólida de canções, que sustentam esse disco que lanço agora. É por causa dos outros álbuns, que acho que minha “voz” se individualiza nesse disco, acho que posso dizer que finalmente criei um vocabulário próprio dentro da canção brasileira. Quem ouvir o disco dirá se tenho razão.

Seu canto está menos “monótono” no novo álbum, no sentido de “menos linear”… Isso foi pensado? Você acha que está cantando melhor em Um labirinto em cada pé?

Definitivamente eu estou cantando melhor e isso obviamente se deve a prática, mas também a um desejo de atuar nesse sentido. Meu canto é muito influenciado pela bossa nova e por isso pode tender a monotonia como você disse. Sem querer perder essa austeridade que carrego na voz e que é uma marca minha, eu busquei soar mais expressivo nesse disco e acho que acabei encontrando um equilíbrio bom entre um canto mais para baixo, quase declamado e um canto mais para “fora”, interpretado.

A Nina Becker aparece em boa parte das canções do álbum em coros e backing vocals. O que ela representa para você e para o seu disco? E por que você não convidou outras cantoras além dela e da Dona Inah, por exemplo?

Continuando nesse desejo de “mexer” no meu canto, houve desta vez, como aconteceu em outros discos com a guitarra por exemplo, a vontade de explorar novas texturas musicais, novos caminhos melódicos, só que agora através de coros e backing vocals. A Nina é muito mais que só uma participação especial no disco, ela faz parte da banda, atua de forma determinante nos arranjos e na estética dele. E é a ponte com a minha geração, reverbera seu próprio trabalho no meu. Diferente da Dona Inah, que já parte de algo histórico, estabelecido, que é o samba e sua voz nos lembra disso, da influência e da permanência do samba na música brasileira. Dona Inah ao mesmo tempo que traz essa “verdade” ao disco, mostra também minha aproximação e o modo como me relaciono com esta tradição.

Como rolou a parceria com Arnaldo Antunes em “Rap em Latim”? Dos artistas “grandes e antigos” do Brasil, ele me parece ser um dos mais acessíveis com essa nova geração da música brasileira. É isso mesmo?

Exatamente, faz tempo que o Arnaldo está ligado a essa turma. Sua banda, por exemplo, é formada por músicos dessa geração como Marcelo Jeneci e Curumin e seu último disco foi produzido pelo Fernando Catatau do Cidadão Instigado. Mais recentemente, ele estreitou essa ligação, nos colocando em contato com uma geração de artistas consagrados em seu novo programa na MTV, Grêmio Recreativo. É de suma importância pra nós essa ponte que ele faz. De minha parte, ainda não realizei um desejo antigo que é me tornar parceiro do Arnaldo, por quem nutro uma admiração imensa. Dei um primeiro passo com a participação dele no disco como cantor e tenho muito orgulho disso, mas ainda quero muito fazer uma canção com ele, uma que seja.

Quais os maiores perrengues que você teve na produção do álbum?

Talvez a maior conquista da minha carreira seja meu relacionamento com a minha gravadora, a YB. Tenho a minha disposição um dos melhores e maiores estúdios do Brasil e um gênio da engenharia de som que é Cacá Lima, um dos sócios da YB, responsável pela sonoridade do meu disco novo. Conto também com a ajuda inestimável de Maurício Tagliari e Luca Raele, outros dois sócios e ex-integrantes do extinto grupo paulistano Nouvelle Cuisine, que são diretamente responsáveis, por exemplo, por eu estar cantando melhor nesse disco. Maurício, além disso, produziu o disco junto comigo. Acontece que a YB não ganha dinheiro comigo, ainda não, então preciso entrar na fila do estúdio que está sempre ocupado por trilhas de cinema e de publicidade, que é o que sustenta a produtora, além dos outros artistas que compõe a gravadora. Este é o maior perrengue, ainda mais pra um artista como eu que tem uma produção imensa de canções, ser paciente, aguardar minha vez de entrar em estúdio, mas esteja certo de que vale muito a pena, muito mesmo!

E qual o grande barato que você sentiu ao ver o disco pronto?

O mesmo de sempre, de um ciclo que se fecha. Pegar o “objeto” disco na mão, olhar o encarte, colocar o disco pra rodar, dá uma sensação de trabalho realizado que só um disco pode dar, por isso não acredito no seu fim. E uma sensação diferente de ver sua música disponibilizada na internet, que também é boa, mas é diferente.

Qual a necessidade que você tem em fazer música?

A mesma que eu tenho pra respirar.

Se você pudesse falar alguma coisa com Caetano Veloso, o que seria?

Muito obrigado.

O Caetano pegou uma galera nova para montar a Banda Cê – Pedro Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo). E se você pudesse fazer o caminho inverso: escolher alguns músicos das antigas para montar uma banda, quais seriam?

Eu montaria a banda do Farinha do Desprezo, disco do Macalé. Lanny Gordin, com quem já tive a honra de tocar e gravar, Tuti Moreno e o próprio Jards Macalé. Porque para mim talvez seja o maior som de banda que a música brasileira já teve.

Você tem pensado no formato para a banda que te acompanha nos shows? Algo que te possibilite rodar mais… Como está isso com o novo álbum?

Compliquei um pouco mais minha vida nesse show novo, porque adicionei mais dois músicos na banda que antes era formada por Guilherme Held na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Pedro Ito na bateria. Agora ela conta também com o Rodrigo Campos no violão e cavaquinho e Thiago França no saxofone. No meu último disco tinha uma formação bem reduzida, com apenas um trio de músicos além de mim, nem por isso aumentou a demanda por shows, tocar fora de São Paulo continuou uma missão muito difícil. Não penso na formação da banda nesse sentido, de viabilizar os shows, não pensei nisso quando era um trio, não penso agora que é um quinteto. Quem sabe não toco até mais, agora que tenho que carregar mais gente.

Você já havia disponibilizado o disco No chão sem o chão para download gratuito em alguns blogs. Agora você mesmo criou um blog para disponibilizar o Um labirinto em cada pé. Por que essa “mudança”?

Porque a sensação geral não era a de que eu tinha disponibilizado e sim de que os blogs tinham feito isso. Dessa vez, quis deixar claro que eu sou a favor de disponibilizar minha música, das mais diversas maneiras existentes. Seja baixando o disco novo por inteiro, seja pra ouvir em streaming, pra baixar faixa a faixa, seja pra comprar o disco físico mesmo. Está tudo lá no blog que eu criei, todos os caminhos a seguir. Tudo certinho, organizado, com as informações técnicas do disco, o encarte, o lindo texto de apresentação feio pelo Francisco Bosco e tudo mais.

Você acredita que quanto mais pessoas fizerem o download do teu disco, você vai conseguir viver de música? Aliás, como você vê essa questão de “viver de música”?

Não tenho a menor dúvida disso. Ano passado toquei em um festival em Belém, o Conexão Vivo e muitas pessoas pediram e cantaram músicas minhas no show. Foi uma surpresa e uma alegria imensas. Meu disco não está à venda em Belém, foi através da internet que elas conheceram minha música. Quanto mais e mais gente conhecer minha música, mais a possibilidade de viver da minha própria música aumenta.

Você é uma espécie de “pensador” dessa nova música brasileira. Tem entrevista em que você fala de tudo sobre essa nova geração, de menos da sua música, dos seus discos. Isso te incomoda? O que você acha disso?

Me incomoda sim, mas entendo também. A gente passa por um momento de grande transformação nos meios de produção e difusão de música e todo mundo está procurando entender o que é isso e qual o futuro da música produzida hoje. Mas acho também que, passado uma década dessas transformações, o interesse pela música que a minha geração produz, aumenta cada vez mais. Estamos vivendo um momento muito rico dentro da história da música brasileira e as pessoas começam a se dar conta disso.

E o que podemos esperar do Romulo Fróes daqui para frente?

Canção, canção, canção.

Foto: Divulgação (Fernanda Prado)

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