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Sessão da tarde: pra não dizer que não falei de Geraldo Vandré

Depois de quase quatro décadas sem dar declarações à TV, arredio e quieto em seu universo particular, Geraldo Vandré, ícone errr… maldito da MPB desde os anos 60, concedeu entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto e deu uma geral nas últimas décadas vividas, bem à sua maneira, diga-se. Sem falar muito com a imprensa desde que voltou do exílio que sofreu em decorrência do Regime Militar, em 1973, o dono de clássicos absolutos da música brasileira como “Pra não dizer que não falei das flores” e “Disparada”, abriu o jogo bem ao modo dele – deve-se levar em conta que ele vive em um universo à parte.

Geneton entrevistou Vandré no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, no dia em que o músico completou 75 anos – 12 de setembro. Ao longo da entrevista, Vandré parece querer esconder alguma coisa, as vezes fala-mas-não-fala, afirma que nunca foi antimilitarista e quando o jornalista pergunta o que ele acha do fato de “Caminhando” (como também é conhecida a canção “Pra não dizer que não falei das flores”) ter se transformado em um hino de protesto, Vandré reluta e diz que “não fazia canção de protesto. Fazia música brasileira”. Arredio e por vezes brincalhão e meio filósofo tardio, dispara frases que podem ser interpretadas como uma possível dor que ele tem com o País, com o passado, com a história. O músico também defende que o Brasil de hoje “é outro. O que existe é uma cultura de massa. E não arte”.

Vandré aborda um ponto interessante quando é questionado sobre o que sentiu no momento em que o Maracanãzinho lotado cantou “Pra não dizer que não falei das flores”, no Festival Internacional da Canção, em 1968. Ele diz que “foi bonito. Pena que sumiram com o VT”. Assunto que reforça a ideia de que existe material, existe registro histórico da nossa cultura que está sob os “cuidados” sabe-se lá de quem. Geneton também não encontrou imagens desse momento. Engraçado que existem registros visuais de Tom Jobim tocando no mesmo festival, como lembra o próprio musico. Será que Geraldo Vandré foi “esquecido à força” por alguém? Perguntas sem respostas até que um sujeito resolva garimpar o buraco (que parece ser bem mais embaixo) e encontrar alguma coisa, algum fita perdida pelos porões das nossas emissoras de TV. Como o bravo Paulo Henrique Fontenelle fez em Loki, sobre Arnaldo Baptista, outro ícone da nossa história cultural.

Outros assuntos que merecem atenção também são abordados na entrevista, como o envolvimento de Vandré com a Força Aérea Brasileira e a lenda de que ele teria sofrido agressão ou ameaça quando retornou do exílio, na década de 70. Além do fato de ter gravado um depoimento em vídeo negando que era antimilitarista. Vídeo que, aliás, também não se sabe o paradeiro.

Já vi gente dizer que Geraldo Vandré não é coitado nessa história toda. É vilão. É louco. Que teria se auto-exilado dentro do Brasil (e de si mesmo) para se fazer de vítima de um momento na nossa história – o Regime Militar – na tentativa de virar mito. E há quem diga, também, que ele foi vítima de tortura e lavagem cerebral durante os primeiros meses quando retornou ao Brasil, em 1973. O “desaparecimento” do cara gerou tantas lendas que seu aparecimento pode se transformar em mais uma. Sabe-se lá quando ele vai falar novamente. Se vai (conseguir) abrir mais o jogo. Se vai falar sem metáforas. Mas está no sangue dele. Mesmo negando o passado, ele ainda é poeta e subversivo. “Nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”, ele reflete em determinado momento da entrevista.

E por aqui continuamos caminhando e cantando e seguindo a canção…

Assista a entrevista que Geneton Moraes Neto fez com Geraldo Vandré para o programa Dossiê Globo News.

Vale também a leitura da matéria que Nina Lemos fez sobre Geraldo Vandré para a revista Trip de agosto desse ano: “Não é o Vandré”.

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Coletânea Dia das Crianças 2010

Tudo começou com uma pergunta: “e se rolasse uma coletânea de dia das crianças apenas com músicas que contenham a palavra ‘criança’ no nome?”. Com isso, depois de uma procura nos arquivos em CD, DVD e algumas buscas pela web nossa de cada dia, cheguei em 14 músicas que, no final, viraram as 10 que estão abaixo.

O único critério de escolha foi: músicas que tenham a palavra “criança” no nome. Independente do conteúdo, mas que, no final das contas, são músicas que você pode colocar para os pimpolhos ouvirem sem problemas. Desde o bicho-grilismo do Tianastácia até pérolas de Noite Ilustrada, Toquinho e Dona Ivone Lara. Além do Tremendão e das baladinhas do Mukeka di Rato e do Devotos (oi?). Sem medo e/ou intenção de ser brega ou cult.

A ideia da capa surgiu de uma contagem regressiva: 12 minutos – cronometrados – para finalizar a arte (sic). Sem nenhuma pretensão. Apenas para ter um registro visual mesmo. Nada além disso.

Baixe aqui a Coletânea Dia das Crianças 2010. A ordem das músicas ficou assim:

01) Tianastácia – Criança louca
02) Palavra Cantada – Criança não trabalha
03) Noite Ilustrada – Meus tempos de criança
04) Chico Science & Nação Zumbi – Criança de domingo
05) Erasmo Carlos – Sou uma criança, não entendo nada
06) Dona Ivone Lara – Sorriso de criança
07) Violins – Qual a criança
08) Toquinho – É bom ser criança
09) Mukeka di Rato – Clube da criança junkie
10) Devotos – Guerra de criança

 

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Certa manhã acordei de um show instigante

Domingo. 10h da manhã. Uma latinha de cerveja barata ainda repousa ao lado do computador. Do outro lado, minha eterna garrafa de água mineral abastecida com água do filtro. Depois de dormir algumas horas e acordar ainda com imagens do pernambucano Otto na memória, em decorrência do show na noite de ontem, em Belo Horizonte, a impressão que fica é de que o músico não estava tão a vontade em cima do palco. Um sujeito aparentemente retraído, algumas vezes mostrando um “rebolado pensado” para agradar o público e outras vezes transformando o Lapa Multshow em um verdadeiro terreiro de umbanda, levando algumas pessoas a transcenderem o local levadas pela música. E outras pessoas levadas pela onda de “Street Cannabis Street”. Não a música, você entende.

As expectativas exageradas com a apresentação foram, principalmente, por causa do disco “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos”, um dos melhores lançamentos de 2009 no Brasil. Otto não estava em seu melhor dia, talvez por causa de uma febre que ele até comentou durante o show. Talvez tenha faltado mais emoção ao interpretar/encarnar canções que são, em essência, retratos do ser humano com suas dores, perdas, angústias e até felicidade. Ou talvez fosse mais exagero da minha parte a grande expectativa em torno do show. Talvez por causa da identificação imediata com as canções mais existenciais de Otto. Percebeu que “talvez” é a palavra de ordem, né?

O jeito torto e desajeitado do músico em cima do palco e as danças peculiares se transformam em um atrativo à parte, mas que contribuem para o todo. Ao lado da música, da dança, de alguns comentários desconexos por parte do músico e do cheiro doce que pairava no ar, Otto demonstrou que é um sujeito que não tem medo de se expor. Não tem medo de ser ele. Não tem medo de cuspir suas fraquezas, suas dores. Otto é um ser humano que tem problemas e não tem vergonha de admitir isso. E ele também tem, possivelmente, a melhor banda de apoio que um artista possa querer. Nomes como Fernando Catatau e a tríade Bactéria, Boca e Pupillo falam por si só.

Talvez o ponto mais instigante da noite tenha sido o fato do show não pegar como muleta apenas o álbum “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos”, disco que deu mais visibilidade ao cantor. Otto destilou músicas de toda sua discografia e o público acompanhou e cantou com a mesma empolgação. Independente se fosse uma canção que faz parte de novela global (“Crua”) ou do seu primeiro disco, Samba Pra Burro (como a música “O Celular de Naná”, por exemplo). Ainda estiveram lá “Janaína”, “Condom Black (Stop Play)”, “Saudade”, “Naquela Mesa”, “Ciranda de Maluco”, “Lavanda” e a dispensa comentários “Seis Minutos” para demonstrar que Otto tem uma história e que esta não é descartável como a maioria das “coisas” que aparecem por aí a cada virada no relógio.

Final de show, uma noite estupenda de fria em Belo Horizonte e cerveja barata para aquecer a madrugada que é, essencialmente, o melhor horário para aproveitar a cidade. Para o bem ou para o mal. Seja embalado por canções existenciais ou não. Seja perdido pelas ruas ou então apagado em cima da cama vivendo sonhos intranquilos.

Foto: divulgação

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Psiu

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