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Veia Urbana Posts

Loki – Arnaldo Baptista

Dia desses postei aqui no Veia o documentário Maldito Popular Brasileiro, sobre Arnaldo Baptista. Hoje coloco por aqui esse texto sobre “Loki – Arnaldo Baptista” que escrevi para o site do Alto-falante em 2008, ano em que assisti pela primeira e única vez o documentário.

O documentário “Loki – Arnaldo Baptista” passa a limpo a vida do eterno mutante Arnaldo Baptista. O filme começa com o próprio fazendo um risco em uma tela branca, como se fosse retratar sua vida por meio da pintura. E na verdade é isso. O diretor Paulo Henrique Fontenelle vai contando as histórias que constroem a vida de Arnaldo Baptista enquanto ele pinta o quadro de sua vida – o colorido e psicodélico quadro de sua vida. Desse modo, o filme caminha sem correria, sem pressa, como que no tempo de Arnaldo.

Entrelaçadas com a pintura do quadro do cinebiografado estão entrevistas emocionadas e emocionantes que soam verdadeiras e carregam o espectador para uma viagem na linha do tempo e da vida do fundador de uma das bandas mais criativas e inovadoras que o Brasil já teve: Os Mutantes. Entre os entrevistados estão os cúmplices da época de banda, como Sérgio Dias (guitarra), Liminha (baixo) e Dinho (bateria) que fazem depoimentos visivelmente emocionados, principalmente quando relembram o dia em que Rita Lee comunicou sua saída da banda. Aliás, a vocalista não quis falar para o filme, mas autorizou a utilização de suas imagens em “Loki”.

Tom Zé, Lobão, Sean Lennon, Gilberto Gil, Rogério Duprat, entre outros, também prestam seus depoimentos / homenagens a Arnaldo Baptista. Além das entrevistas, Fontenelle costura imagens raras e históricas das décadas de 60 e 70, causando uma nostalgia do não vivido e mostrando a irreverência d’Os Mutantes nesse período, no qual afirma o maestro Duprat: “A cabeça d’Os Mutantes era Arnaldo Baptista”. No quadro de sua vida, o mutante pinta uma mulher loira e escreve um “sinto muito” perto da figura, É particularmente emocionante.

O filme, rodado entre 2004 e 2007, narra a vida e a carreira de Arnaldo Baptista em ordem cronológica, retratando o início de sua carreira musical, passando pela criação do conjunto O’Seis, nos anos 60, até evoluir para Os Mutantes; a lendária apresentação ao lado de Gilberto Gil, em 1967 no Festival da Record, cantando “Domingo no Parque”; o movimento tropicalista, as viagens com LSD, a viagem para a Europa (que resultou na gravação do disco “Technicolor”, gravado em 1970 e lançado somente no início dos anos 2000), a saída de Rita Lee d’Os Mutantes e da vida de Arnaldo (os dois eram casados), passando pela saída do próprio Arnaldo da banda e culminando com o lançamento do álbum solo “Loki?” (1974), considerado um dos grandes discos da música brasileira de todos os tempos, que sintetiza bem o momento da vida do mutante naquela época.

Na cronologia de sua vida ainda estão os projetos com a Patrulha do Espaço, o segundo álbum solo, “Singin’ Alone” (1982), a tentativa de suicídio no primeiro dia de 1982, ao se atirar da janela do Hospital do Servidor Público, em São Paulo. O coma de quase dois meses e a recuperação lenta já ao lado de sua terceira esposa e uma espécie de anjo da guarda, Lucinha Barbosa, que hoje vive com Arnaldo em Juiz de Fora, Minas Gerais. Além do lançamento do álbum “Let It Bed” (2004) e a reunião d’Os Mutantes em 2006 – com a participação de Zélia Duncan no “lugar” de Rita Lee.

“Loki” é um documentário apaixonado e apaixonante sobre a vida de Arnaldo Baptista, quase que um acerto de contas com esse que é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores artistas (no sentido de maior essência da palavra) da nossa música. O filme não foge do formato padrão de documentário, mas consegue levar às lágrimas e depois às gargalhadas em pouco tempo. Além de apresentar um Arnaldo sorridente, brincalhão, feliz com a vida, mostrando que ele realmente é um homem de alma pura e exemplificando que louco é quem diz que não é feliz. Arnaldo é feliz.

Loki – Arnaldo Baptista” foi exibido em Belo Horizonte no dia 1º de novembro, dentro da Mostra Cine BH 2008, no Cine Santa Tereza e contou com presença de Arnaldo e sua esposa, Lucinha. No início e no final da sessão, o brincalhão Arnaldo foi aplaudido durante vários minutos pelo público. E como em outros festivais onde o filme também foi exibido, era possível observar diversas pessoas visivelmente emocionadas e com lágrimas nos olhos (e olha que eu nem me olhei no espelho durante o filme).

 

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Malditos cartunistas

Andando lá pelo youtube achei esse trailer do documentário Malditos Cartunistas, dirigido por Daniel Garcia e Daniel Paiva. O doc promete dar uma geral na profissão dos malditos desde os anos d’O Pasquim até os dias de hoje. E para isso conta com depoimentos de Jaguar, Ziraldo, Angeli, Laerte, Allan Sieber, Lourenço Mutarelli, Ota, Arnaldo Branco e até o Glauco, que já foi rabiscar por outros lugares, além de outras figuras.

Vamos esperar.

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Pelas mãos de Deus

A foto acima mostra as mãos de Laerte no momento em que ele fazia uma graça no livro de alguém, quando ele veio em Belo Horizonte dentro do projeto Conversa em quadrinhos, organizado pela Gibiteca, no dia 9/12. Além da ousadia, Laerte é também a simpatia em pessoa. Após o bate papo sobre quadrinhos, mercado, o “politicamente correto” dentro do humor, a atual fase que ele transita etc., Laerte também conversou e autografou livros com uma atenção e até mesmo um carinho que soam tão verdadeiros quanto o sorriso singelo que ele solta sem muito esforço em vários momentos.

Não fiquei de fora e pedi para Laerte autografar o meu Muchacha, que ele meio que estava “lançando” na ocasião. Ele pergunta meu nome. Eu: “ah, é Lafaiete”. Ele me olha assustado e forçando os olhos como que para me identificar: “Lafaiete? Mas você não é aquele Lafayette dos quadrinhos não, né? Ou é?” Eu: “não, não. Sou outro Lafaiete mesmo”. Laerte: “olha só que legal, Lafaiete. E como escreve seu nome?” Eu: “ah, é normal. L-A-F-A-I-E-T-E”.

Ele acabou o autógrafo no Muchacha e eu já emendei “pode nesse também?” e entreguei o Laertevisão pra ele. Ele apenas disse “outro? Claro. Pra você mesmo?” Eu: “sim”. Ele me olha bem e começa a fazer esse desenho:

Ao final agradeci com um “muito obrigado, Laerte”. E ele super simpático: “imagina, foi um prazer”.

 

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A terceira (e mais pesada) noite do 53HC Music Fest 2009

Limpando meu baú nem tão grande e muito menos com tantas coisas assim, achei esse texto que fiz sobre a terceira noite do 53HC Music Fest 2009 para o site do Conexão Vivo. Está aí com todos os erros e acertos.

A sexta-feira quente apesar dos últimos dias de chuva que Belo Horizonte vem enfrentando não desanimou o público e muito menos as bandas que tocaram na noite mais pesada da edição comemorativa de 10 anos do 53HC Music Fest. O primeiro show da noite ficou por conta da banda mineira Hold Your Breath que, subindo ao palco sem muito atraso, apresentou um show “pesado e contagiante na medida certa. Do jeito que a banda sabe fazer”, segundo Carina Gomes, fã da banda. De São Paulo, o Big Nitrons fez uma apresentação misturando alguns sons que resultam no psychobilly dançante característico do grupo para um público que começava a encher o local dos shows.

E para quem pensa que banda de psychobilly é coisa exclusivamente de homem, um engano. Prova disso são as garotas do Diabatz que, com a formação clássica do gênero – baixo acústico, guitarra e bateria sem frescuras e sem banquinho – fez uma boa apresentação. A banda paranaense tem a intenção de contribuir com a cena psychobilly do Brasil, especialmente em relação a novas bandas de garotas. “A gente espera que a gente incentive outras meninas também, né? A fazer bandas… É sempre bom. Quanto mais, melhor [para a cena]”, disse a vocalista e guitarrista Baby Rebbel.

A Henry Paul Trio, quarta banda da noite, veio de São Paulo. E com um jeitão de Elvis Presley, o vocalista e guitarrista Henry Paul conduziu a apresentação (acompanhado pela baterista Drikat Crash e pelo baixista Jimmy Black), como se o Lapa Multshow fosse um daqueles bailes clássicos de rockabilly dos anos 50, fazendo com que boa parte do público dançasse com os passos característicos do gênero musical. Além disso, ainda rolou versões de Johnny Cash e Ramones. Sim, Ramones. A música “Sheena Is A Punk Rocker” foi acompanhada a plenos pulmões pelo público.

Em conversa com a equipe do Conexão Vivo, Henry Paul fez um paralelo da cena rock de Belo Horizonte com a cena de São Paulo: “a impressão que dá aqui é de um pessoal que curte… cada um curte um negócio [estilo musical], mas todos vão para os shows de rock que vai ter, entendeu? Aí eu acho que tem mais união. Em São Paulo tem essa coisa… tipo… o cara que é bad boy, o cara que é rocker e aí ele sai e tem aquela ‘cisma’ que eu tô vendo que aqui [Belo Horizonte] não tem… Eu acho que você toca um som e sabe que o pessoal vai te dar um valor. Não vai ficar ‘ah, eu sou da antiga e não vou escutar esse som não’. O pessoal aqui é bem rock n roll”.

Após o quase-baile-rockabilly da Henry Paul Trio, a noite caminhou para um final com muito barulho e cabeças balançando. No palco: Devotos. Na plateia: pessoas que realmente conheciam as músicas da banda de Pernambuco. Fãs que cantaram praticamente todos os petardos sonoros apresentados pelo trio. Cannibal (vocal e baixo), com seu carisma pouco comum em relação às bandas de hardcore, conduziu o público com maestria durante todo o show, que teve músicas de diversas fases dos 20 anos de carreira da banda e que estão registradas no CD (e futuro DVD) comemorativo desse tempo de estrada – “Devotos 20 Anos”. E o que se viu durante o show foi um Lapa que não parou de pular nem para respirar. Mesmo.

Cannibal falou um pouco sobre as facilidades da cena independente de hoje que não existia quando o Devotos começou sua carreira. “Naquela época, cara, não tinha… Não digo facilidade, porque facilidade ninguém tem pra fazer as coisas. Mas não tinha uma janela tão aberta quanto é o Circuito Fora do Eixo, a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), vários produtores, várias empresas apoiando… Não se tinha naquela época. Hoje tem, né? Então a facilidade é maior de você fazer o circuito chegar até aqui. Basta você pesquisar o que tá acontecendo dentro de toda essa cultura fora do eixo. Então é assim, hoje a gente tá aqui e a importância não é só tocar. É tá dentro de um evento que faz questão também de passar informação pra rapaziada. Informação desde sobre a internet, desde o ambiente, desde tudo assim… Informação básica para o ser humano. Queira ou não queira a gente não vive só de música.”

A penúltima banda da noite reforçou o peso sonoro que começou com o Devotos. O DFC, de Brasília, colocou meio mundo abaixo com seu hardcore já conhecido dos fãs da capital mineira. A banda, que já se apresentou diversas vezes em Belo Horizonte, teve muitas de suas músicas de conteúdos sócio-políticos acompanhadas pelo público… histérico.

Para fechar a noite com ainda mais peso foi escalado o Ratos de Porão, que também se apresentou na primeira edição do 53HC, há 10 anos. Queira ou não, o Ratos é uma das maiores entidades do punk hardcore tupiniquim. João Gordo, com sua cara de mau, levou o público teen e alguns fãs da velha guarda a berros contínuos durante as músicas. A banda só parou mesmo quando uma corda da guitarra do Jão arrebentou. Após alguns instantes, Gordo começou a cantar os versos de “Aids, Pop, Repressão” com o público acompanhando até o fim da música e do show, que não teve mais pausa. Fica também o destaque para a roda de pogo gigante que João Gordo incentivou e rolou numa boa.

A terceira noite do 53HC Music Fest teve saldo positivo, som com poucos problemas e um público que, ao contrário do que alguns pensam por ser tratar de estilos mais pesados, compareceu por causa da música. Afinal, esse é o objetivo de um festival como o 53HC. E na próxima sexta-feira tem mais. Fique ligado.

 Fotos: divulgação (Marcela Bueno/Conexão Vivo)

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