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Categoria: entrevista

Entrevista com Romulo Fróes

Entrevista que fiz com o Romulo Fróes para o site do Alto-falante:

Romulo Fróes, além de ser possivelmente um dos maiores pensadores da nova geração da música brasileira, é também um artista com um trabalho peculiar que merece atenção. Entrevistas com ele no Scream & Yell e no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo comprovam o lado “pensador” que está estreitamente ligado ao seu trabalho e que, em alguns momentos, até coloca uma sombra em sua obra. Do outro lado, o já clássico álbum No chão sem o chão, um dos melhores discos de 2009 e o mais emblemático de sua carreira até agora, comprova seu valor e singularidade artística.

Este ano Romulo Fróes apresenta um novo trabalho, o disco Um labirinto em cada pé, que tem a “difícil tarefa” de suceder o elogiado No chão sem o chão. Enquanto este era mais rock e experimental, no qual Fróes tentou se afastar da alcunha de sambista que ganhou com os discos Calado (2004) e Cão (2006), Um labirinto em cada pé volta a ter o samba como um elemento forte entre as composições. Sobre isso, ele revela: “A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba”. O resultado é talvez seu álbum mais acessível. Ao mesmo tempo em que assume o samba e as raízes da música brasileira, também assume o pop ao lado de um experimentalismo sem cair em uma sonoridade não assessível, pelo contrário.

O Alto-falante conversou Romulo Fróes sobre o novo álbum, parcerias, banda dos sonhos, entre outras coisas.

Você é formado em artes plásticas. Como ocorreu seu envolvimento com música?

Meu envolvimento com música como muita gente, é familiar. Meu pai, apesar de não ser um músico, é um grande cantor e um apaixonado por música brasileira pré-bossa nova. Desde muito cedo ouvi ele ouvir e cantar junto com os discos de Orlando Silva, Francisco Alves, Custódio Mesquita, Jacob do Bandolim, Jamelão, Lupicínio Rodrigues e uma infinidade de outros artistas. Esse amor e esse gosto “severo” por música, eu herdei do meu pai. Mas se existe dom, desde cedo meu dom natural foi para o desenho, eu queria ser desenhista, artista plástico, daí construí um caminho nesse sentido, até chegar ao Nuno na bienal de 1994, quando o ajudei pela primeira vez.

O Nuno Ramos é artista plástico e também é seu parceiro musical. Qual a importância dele para você, para sua carreira?

Já não trabalho mais pra ele hoje, mas a importância de ter trabalhado com o Nuno é fundamental e definitiva na minha vida, entrei em contato com um mundo que nunca entraria se não trabalhasse com ele. Aprendi e aprendo coisas que nenhuma escola ensina, meu convívio com ele e depois com o Clima é que moldou a canção que eu faço, meu trabalho não existe sem os dois.

O novo trabalho lembra mais o segundo disco [Cão] do que o terceiro [No chão sem o chão]. Ainda assim, o Um labirinto em cada pé soa como uma continuação terceiro álbum, mas com um pé mais no samba, coisa que você tentou se afastar um pouco com o No chão sem o chão.

Não sou sambista, mas lido com o samba porque afinal sou um compositor de música brasileira e tenho esse direito. O No chão sem o chão serviu a este propósito. Descolar de mim a pecha de sambista que haviam me atribuído. A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba.

Resumidamente, o álbum Calado é um samba mais triste, o Cão é essencialmente samba e o No chão sem o chão é mais rock, experimental. Você conseguiria dizer o que o disco atual reflete? Ele me parece algo como um samba mais pop…

Acho que é um disco de conclusão, de um processo realizado ao longo dos meus três primeiros álbuns. Exercitei minha composição nesses três discos, me valendo de toda a história da canção brasileira, muito centrado no samba, mas passando por todos os ritmos que compõe nossa música. Acho que tive mais acertos que erros, mas o mais importante é que criei uma base sólida de canções, que sustentam esse disco que lanço agora. É por causa dos outros álbuns, que acho que minha “voz” se individualiza nesse disco, acho que posso dizer que finalmente criei um vocabulário próprio dentro da canção brasileira. Quem ouvir o disco dirá se tenho razão.

Seu canto está menos “monótono” no novo álbum, no sentido de “menos linear”… Isso foi pensado? Você acha que está cantando melhor em Um labirinto em cada pé?

Definitivamente eu estou cantando melhor e isso obviamente se deve a prática, mas também a um desejo de atuar nesse sentido. Meu canto é muito influenciado pela bossa nova e por isso pode tender a monotonia como você disse. Sem querer perder essa austeridade que carrego na voz e que é uma marca minha, eu busquei soar mais expressivo nesse disco e acho que acabei encontrando um equilíbrio bom entre um canto mais para baixo, quase declamado e um canto mais para “fora”, interpretado.

A Nina Becker aparece em boa parte das canções do álbum em coros e backing vocals. O que ela representa para você e para o seu disco? E por que você não convidou outras cantoras além dela e da Dona Inah, por exemplo?

Continuando nesse desejo de “mexer” no meu canto, houve desta vez, como aconteceu em outros discos com a guitarra por exemplo, a vontade de explorar novas texturas musicais, novos caminhos melódicos, só que agora através de coros e backing vocals. A Nina é muito mais que só uma participação especial no disco, ela faz parte da banda, atua de forma determinante nos arranjos e na estética dele. E é a ponte com a minha geração, reverbera seu próprio trabalho no meu. Diferente da Dona Inah, que já parte de algo histórico, estabelecido, que é o samba e sua voz nos lembra disso, da influência e da permanência do samba na música brasileira. Dona Inah ao mesmo tempo que traz essa “verdade” ao disco, mostra também minha aproximação e o modo como me relaciono com esta tradição.

Como rolou a parceria com Arnaldo Antunes em “Rap em Latim”? Dos artistas “grandes e antigos” do Brasil, ele me parece ser um dos mais acessíveis com essa nova geração da música brasileira. É isso mesmo?

Exatamente, faz tempo que o Arnaldo está ligado a essa turma. Sua banda, por exemplo, é formada por músicos dessa geração como Marcelo Jeneci e Curumin e seu último disco foi produzido pelo Fernando Catatau do Cidadão Instigado. Mais recentemente, ele estreitou essa ligação, nos colocando em contato com uma geração de artistas consagrados em seu novo programa na MTV, Grêmio Recreativo. É de suma importância pra nós essa ponte que ele faz. De minha parte, ainda não realizei um desejo antigo que é me tornar parceiro do Arnaldo, por quem nutro uma admiração imensa. Dei um primeiro passo com a participação dele no disco como cantor e tenho muito orgulho disso, mas ainda quero muito fazer uma canção com ele, uma que seja.

Quais os maiores perrengues que você teve na produção do álbum?

Talvez a maior conquista da minha carreira seja meu relacionamento com a minha gravadora, a YB. Tenho a minha disposição um dos melhores e maiores estúdios do Brasil e um gênio da engenharia de som que é Cacá Lima, um dos sócios da YB, responsável pela sonoridade do meu disco novo. Conto também com a ajuda inestimável de Maurício Tagliari e Luca Raele, outros dois sócios e ex-integrantes do extinto grupo paulistano Nouvelle Cuisine, que são diretamente responsáveis, por exemplo, por eu estar cantando melhor nesse disco. Maurício, além disso, produziu o disco junto comigo. Acontece que a YB não ganha dinheiro comigo, ainda não, então preciso entrar na fila do estúdio que está sempre ocupado por trilhas de cinema e de publicidade, que é o que sustenta a produtora, além dos outros artistas que compõe a gravadora. Este é o maior perrengue, ainda mais pra um artista como eu que tem uma produção imensa de canções, ser paciente, aguardar minha vez de entrar em estúdio, mas esteja certo de que vale muito a pena, muito mesmo!

E qual o grande barato que você sentiu ao ver o disco pronto?

O mesmo de sempre, de um ciclo que se fecha. Pegar o “objeto” disco na mão, olhar o encarte, colocar o disco pra rodar, dá uma sensação de trabalho realizado que só um disco pode dar, por isso não acredito no seu fim. E uma sensação diferente de ver sua música disponibilizada na internet, que também é boa, mas é diferente.

Qual a necessidade que você tem em fazer música?

A mesma que eu tenho pra respirar.

Se você pudesse falar alguma coisa com Caetano Veloso, o que seria?

Muito obrigado.

O Caetano pegou uma galera nova para montar a Banda Cê – Pedro Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo). E se você pudesse fazer o caminho inverso: escolher alguns músicos das antigas para montar uma banda, quais seriam?

Eu montaria a banda do Farinha do Desprezo, disco do Macalé. Lanny Gordin, com quem já tive a honra de tocar e gravar, Tuti Moreno e o próprio Jards Macalé. Porque para mim talvez seja o maior som de banda que a música brasileira já teve.

Você tem pensado no formato para a banda que te acompanha nos shows? Algo que te possibilite rodar mais… Como está isso com o novo álbum?

Compliquei um pouco mais minha vida nesse show novo, porque adicionei mais dois músicos na banda que antes era formada por Guilherme Held na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Pedro Ito na bateria. Agora ela conta também com o Rodrigo Campos no violão e cavaquinho e Thiago França no saxofone. No meu último disco tinha uma formação bem reduzida, com apenas um trio de músicos além de mim, nem por isso aumentou a demanda por shows, tocar fora de São Paulo continuou uma missão muito difícil. Não penso na formação da banda nesse sentido, de viabilizar os shows, não pensei nisso quando era um trio, não penso agora que é um quinteto. Quem sabe não toco até mais, agora que tenho que carregar mais gente.

Você já havia disponibilizado o disco No chão sem o chão para download gratuito em alguns blogs. Agora você mesmo criou um blog para disponibilizar o Um labirinto em cada pé. Por que essa “mudança”?

Porque a sensação geral não era a de que eu tinha disponibilizado e sim de que os blogs tinham feito isso. Dessa vez, quis deixar claro que eu sou a favor de disponibilizar minha música, das mais diversas maneiras existentes. Seja baixando o disco novo por inteiro, seja pra ouvir em streaming, pra baixar faixa a faixa, seja pra comprar o disco físico mesmo. Está tudo lá no blog que eu criei, todos os caminhos a seguir. Tudo certinho, organizado, com as informações técnicas do disco, o encarte, o lindo texto de apresentação feio pelo Francisco Bosco e tudo mais.

Você acredita que quanto mais pessoas fizerem o download do teu disco, você vai conseguir viver de música? Aliás, como você vê essa questão de “viver de música”?

Não tenho a menor dúvida disso. Ano passado toquei em um festival em Belém, o Conexão Vivo e muitas pessoas pediram e cantaram músicas minhas no show. Foi uma surpresa e uma alegria imensas. Meu disco não está à venda em Belém, foi através da internet que elas conheceram minha música. Quanto mais e mais gente conhecer minha música, mais a possibilidade de viver da minha própria música aumenta.

Você é uma espécie de “pensador” dessa nova música brasileira. Tem entrevista em que você fala de tudo sobre essa nova geração, de menos da sua música, dos seus discos. Isso te incomoda? O que você acha disso?

Me incomoda sim, mas entendo também. A gente passa por um momento de grande transformação nos meios de produção e difusão de música e todo mundo está procurando entender o que é isso e qual o futuro da música produzida hoje. Mas acho também que, passado uma década dessas transformações, o interesse pela música que a minha geração produz, aumenta cada vez mais. Estamos vivendo um momento muito rico dentro da história da música brasileira e as pessoas começam a se dar conta disso.

E o que podemos esperar do Romulo Fróes daqui para frente?

Canção, canção, canção.

Foto: Divulgação (Fernanda Prado)

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Entrevista com Guto (Dead Lover’s Twisted Heart)

Voltei a ouvir o disco do Dead Lover’s Twisted Heart esses dias e estava pensando em um jeito para dar a dica do álbum por aqui, aproveitando que ele está disponível em streaming pelo Soundcloud (player abaixo). Lembrei de uma entrevista que fiz com o Guto (guitarrista) para o site do Alto-falante na época em que a banda fez o show de lançamento do disco em Belo Horizonte (e ele até entrou na minha listinha de melhores de 2010).

Resolvi editar o texto de apresentação da entrevista e colocá-la aqui no Veia, já que ela é mais voltada para o disco. “Jornalismo reciclagem”. Pense nas árvores (o SWU vai trazer o Neil Young para isso – faça a sua parte).

O Dead Lover’s Twisted Heart, banda de Belo Horizonte que faz um som que mistura folk, rock e música pra dançar, já está com o aguardado primeiro disco cheio na praça desde o ano passado. DLTH saiu em CD, vinil e também foi disponibilizado em streaming e download. E o som do álbum é aquele já conhecido estilo Dead Lover’s de ser, só que bem mais trabalhado.

DLTH é safado, sexy, puritano, cool, old e romântico de um jeito que talvez só a banda consiga fazer. Entre as músicas do álbum estão as já conhecidas “Mrs. Magill” e “All things (you gotta do)” ao lado das novidades certeiras “Rock hurts and heart beats”, “Line 5102” e as belas “Pretenders” e “Isabelle”.

A conversa com o guitarrista Guto:

Finalmente o primeiro disco da banda… Fale um pouco sobre o processo de produção e gravação. Algumas músicas até já rolavam em shows, né?
Finalmente! Bem, foi um longo processo. Contando do dia em que começamos a fazer as primeiras guias até hoje já se vão 2 anos e meio! Mas esse período tão longo na verdade foi marcado por várias etapas, todas elas bem exemplares dos altos e baixos de uma banda que se mete a fazer um disco com o próprio dinheiro, com o equipamento que dá, contando com a ajuda dos amigos, de parceiros, assumindo todos os riscos desse processo. Queria ter registrado isso melhor. Ia ter sido um barato. Mas foi aquela velha história, gravamos bateria no período mais barato do estúdio (na madrugada) durante as férias, o resto todo gravamos em casa pegando todo tipo de equipamento emprestado, num esquema que tinha que desmontar estúdio quase toda semana e remontar e tal. Nisso todo tipo de mudança na vida das pessoas da banda aconteceu. Pra você ter uma ideia, o filho do nosso produtor musical tem exatamente a mesma idade do disco (risos). Bom, no final das contas o pessoal do selo Ultra Music nos ajudou a finalizar o áudio. Barral (diretor do selo) mixou, masterizamos em Nova York, Pat (baterista da banda) e Yann fizeram a arte do CD e do vinil, e agora vai!

Vocês tiveram algum apoio?
Contamos sim com amizades, apoios morais e algumas parcerias. Apoio de lei, grana do estado e essas coisas? Não tivemos não. Nem tentamos. Foi uma opção da banda. E não vou mentir pra você, é um perrengue desgraçado essa história de produzir exclusivamente com seus recursos hoje em dia. Tem que ralar muito. Seria muito legal que as pessoas tivessem ideia disso, porque é um processo muito rico também. Faltou grana? Claro! Falta até hoje. Mas a gente fez de tudo para cobrir todos os reduzidos gastos do disco com a grana que a banda gerava com os cachês. Uma das coisas que atrasou o processo foi justamente o fato de que não podíamos parar de tocar para gravar, afinal a gente precisava dos cachês para conseguir lançar nosso disco com uma qualidade legal. No final das contas, esse nosso formato “econômico” foi bem interessante, pois conseguimos fazer um processo de gravação até agora “auto-sustentável”, por assim dizer.

Quem assina a produção do disco?
Como eu estava te dizendo, esse disco conta com a produção musical do Thiakov, o mesmo produtor do nosso EP, e na verdade, a parceira mais importante da banda. Ele é como o quinto Dead Lover. Mas o processo foi caminhando de tal forma que eu, que comecei a gravar o disco só como músico terminei por assinar a co-produção artística. Eu e Thiakov tivemos que nos desdobrar imensamente para conseguir chegar a lugares que a banda ainda não tinha chegado. Estudamos muito juntos para resolver problemas de sonoridade, timbragem e arranjos. Foi muito bom no final das contas. Aprendi muito mesmo.

DLTH vai ser lançado em CD e vinil. Por que escolheram esses dois formatos?
Bom, o nosso EP anterior foi disponibilizado para download na internet, mas nós resolvemos finalizar a carreira dele com a prensa em vinil, que saiu no início do ano passado pelo selo Vinyl Land. Foi um convite do Luiz, diretor do selo, e aceitamos pelo prazer de se lançar um compacto nos dias de hoje. Escutando o disco ficamos surpresos como a sonoridade era muito fiel ao nosso projeto sonoro para a banda. Além disso, através do Luiz fomos descobrindo o imenso lastro de colecionadores, de festas e circulação do formato, assim como o interesse enorme que existe hoje pelo que se entende como uma “volta” do vinil. O nosso EP em vinil foi lançado e esgotou com uma rapidez assustadora, foi comentado até não poder mais, demos várias entrevistas falando do assunto. Então terminamos por nos “engajarmos” nessa história do vinil por motivos estéticos e ao mesmo tempo por acreditar que o vinil é um formato que cobre uma lacuna muito importante na produção e consumo da música hoje em dia e que diz respeito justamente aos novos caráteres físicos dela. Além do som ser muito específico – para nós ser esteticamente valioso – o vinil é um objeto lindo, tem muita memória cultural no meio. As pessoas compram às vezes sem ter vitrola. Escutam o MP3. Mas querem ter um novo (velho) objeto para a música.

O que mudou na banda do primeiro EP pra esse álbum cheio?
A banda amadureceu muito. E isso para nós significou até agora diversificar-se ainda mais. O som está ainda mais plural, eu acho. A banda, por sua vez, está mais segura dos arranjos, eles por sua vez estão mais claros, mais detalhados. A participação da banda acompanhando mais de perto o processo de produção do disco deu a ele uma cara mais fiel às apresentações ao vivo. O áudio está bem tratado. Mas o mais importante, o disco fecha um conceito específico deste momento da banda, daqui pra frente devemos ir caminhando para outros lados também.

Você consegue definir o Dead Lover’s? Não só a música, mas a banda como um todo?
Alguns amigos mais próximos costumam gritar durante o show uma brincadeira interna nossa que é chamar a banda de “Dead Lover is Tudo Errado”, que é uma brincadeira com a sonoridade em inglês do nome da banda. É uma boa definição. Somos meio errados (risos). Costumo dizer que somos uma banda “sem caráter”, como o macunaíma, temos qualquer cara, desde que seja boa (risos).

O disco deu uma “vazadinha de leve”, né? Como está a resposta dele até agora?
Está sendo excelente! Só elogios (risos). Essa vazadinha eu vou explicar. A gente mandou intencionalmente o disco para as pessoas que de alguma forma participaram do processo. Amigos de estrada, o pessoal que emprestou equipamento, pessoal da crítica que já nos conhece. Aí ele deu uma circuladinha bem restrita. Mas aí eu fico vendo no twitter que o disco começa a ir se espalhando, cada vez mais gente vai escutando. Tem gente indócil querendo o disco já. De qualquer forma já já sai pra todo mundo. Quem quiser escutar em primeira mão já estamos colocando o disco para audição online, mas para adquirir vai ter que ir ao lançamento.

Pretendem deixar o disco para download em algum lugar? O que pensam sobre isso? [A banda disponibilizou o disco para download aqui, além de ser possívei baixar cada música pelo próprio player do Soundcloud].
Acho que estas coisas são inevitáveis. O disco acaba aparecendo para download. E banda independente tem mesmo é que fazer sua música tocar de qualquer jeito, acho isso bom. No entanto o que acontece é que as pessoas baixam tanta música hoje em dia que lançando de qualquer jeito, sem nenhum tipo arte envolvida nisso, seu som vira quase aquele junk mail que só enche o computador do cara comum, como um spam ou mais um dos 15 discos que cara baixou no dia. Muita gente já nem baixa, escuta online mesmo num esquema que parece ser gratuito, mas as pessoas se esquecem que pagamos muita grana de provedores de internet, que por sua vez ganham enquanto disponibilizamos nossas músicas online. Muita gente acredita que “baixar” disco na internet é “gratuito”, mas não é, né? É um jogo muito delicado. Então voltando, nós devemos colocar o disco inteiro para audição na internet, venderemos o vinil e o CD e esperamos que as pessoas espalhem o nosso som o máximo que puderem.

Por que o nome dele é DLTH? Não quiseram colocar Dead Lover’s Twisted Heart de uma vez?
Pôxa, você é jornalista, imagina que coisa insuportável escrever o nome do disco “Dead Lover’s Twisted Heart da banda Dead Lover’s Twisted Heart”? (risos). Mas não é isso. Escolhemos o nome do disco depois que Pat, nossa baterista, e o Yann finalizaram a arte da capa. É uma opção meio gráfica. A arte do disco é bem minimalista e fez muito sentido serem só as iniciais.

Como vocês observam a cena da música independente em Belo Horizonte?
É engraçado, estando nesse meio aí das bandas que surgiram no final da primeira década dos anos dois mil aqui em BH há algum tempo, é possível ir vendo gente nova ir aparecendo e tornando a coisa ainda mais interessante. Não que exista uma separação entre grupos, muito pelo contrário, todo mundo está cada vez mais misturado, mas estou sacando um tanto de gente nova dando as caras na cena, fazendo um som bom pra caralho, chegando com força. Acho isso sensacional. O número de bandas só aumenta, e o mais importante: bandas muito boas. Coisa instrumental como Iconili e o Dibigode, uma onda meio ska-roque como o Fusile e o Pequena Morte, a galera mais indie do Monograma e o Hells Kitchen Project, os indecifráveis do Grupo Porco, o pessoal da musica brasileira como Urucum na Cara, o Capim Seco… é muita gente boa aí. Belo Horizonte deve ser uma das cenas mais diversas e interessantes do Brasil.

Belo Horizonte influencia a música de vocês?
Com certeza, o fato de todo mundo em Belo Horizonte se conhecer ajuda muito no nosso som. A gente é muito aberto a sonoridades, referências, amizades, interferências e tudo que mude nosso som. Nesse sentido, de alguma forma, o som desses grupos que eu mencionei antes são uma parte mais recente destas nossas referências mais recentes. Já tocamos, somos amigos ou tocaremos com todos eles. Isso é muito bom.

 

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Entrevista com Superguidis

Fiz essa entrevista por e-mail com o Andrio e o Lucas para o site do Alto-falante em 2010, época em que a banda estava lançando o terceiro disco, Superguidis. Gostei do resultado e os caras se mostraram bem acessíveis e comprometidos. Além de super educados (e pensar que tem gente de banda independente por aí que não tem nem qualidade musical e ainda se acha um superstar, enfim…).

Sem mais conversa… Boa leitura.

Em 2006 a banda gaúcha Superguidis lançou seu primeiro disco, que carregava o nome da banda, chamando a atenção com as músicas “O Banana”, “Malevolosidade” e “Discos Arranhados”. Gritos de uma juventude que tinha o que gritar. Nem que fosse a pasmaceira daquela fase da vida, o tênis furado ou a falta de grana. No ano seguinte, a tal prova do segundo disco ganhava corpo com A Amarga Sinfonia do Superstar, no qual apresentou uma banda madura munida de canções mais introspectivas e reflexivas que as de antes. Mesmo assim mantinham o toque de jovialidade do álbum de estreia espalhado pelas entrelinhas das canções. O ataque de guitarras afirmava a identidade da banda ao mesmo tempo em que dava a entender que a Superguidis sabia o que queria.

E agora, em março de 2010, a banda apresenta seu novo trabalho defendendo aquilo que acredita: a música. O disco de gestação demorada não tem nome “pra chamar a atenção que é o terceiro disco” do quarteto gaúcho formado por Andrio Maquenzi (vocal e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra e vocal), Marco Pecker (bateria) e Diogo Macueidi (baixo).

O Alto-falante conversou com metade da banda a respeito do novo trabalho. Entre outras coisas, Andrio e Lucas falam sobre o processo de produção do disco, o fato dele ter “vazado” antes do lançamento oficial, o DVD acústico que está a caminho e o respeito que construíram perante público e crítica. “Reconhecemos que temos potencial, mas deixamos a galera que nos ouve responder isso naturalmente”, entrega Andrio.

 

Alto-falante: O novo disco foi gravado no início de 2009, certo? O que rolou de lá pra cá que fez com que vocês adiassem tanto a data de lançamento?

Lucas: Cara, deu um monte de problemas com a gravação das cordas… Foi isso que fez o disco atrasar um ano inteiro… Como não deu tempo de gravarmos elas enquanto estávamos em Brasília gravando o disco, a coisa foi ficando pra depois e no fim das contas os atrasos foram se somando.

Andrio: O processo da mix também se deu à distância, o que não otimizou a coisa. A comunicação com o norte-americano Kyle Kelso se deu por intermédio do Seabra, aí as faixas iam e vinham, e voltavam com as nossas devidas observações e tal. Isso levava uns dias, semanas… Ainda bem que a sonoridade gigante do disco compensou esse problema de logística.

Alto-falante: Por que resolveram nomear o álbum apenas com o nome da banda? Vocês chegaram a cogitar “Tolos Mudam” e mudaram de ideia?

Lucas: Foi… A gente pensou em um monte de nomes, mas nenhum realmente nos agradou. Foi então que resolvemos deixar ele sem nome, quer dizer, ele não se chama “Superguidis”, ele só não tem nome. Isso é pra chamar a atenção que é o terceiro disco, saca? Daí as pessoas vão se obrigar a chamar de “o terceiro disco do Superguidis”! A gente tem bastante orgulho de batalhar bastante e ter 3 discos lançados desde 2006.

Andrio: Em cima da hora, começamos a pensar que “Tolos Mudam” soaria pretensioso, cínico demais. Até rolou uma versão 2 do nome (Tolos [Não] Mudam), mas aí tivemos uma identificação tão forte com a capa que deixamos o nome pra escanteio. E putz, os melhores discos são mais conhecidos pela capa (como o do “Cachorro de Três Patas”, do Alice In Chains, o do “Abacate” do Pearl Jam…).

Alto-falante: Como foi a decisão de colocar instrumentos de cordas no disco (cellos e violinos)? Deu muito trabalho pra fazer os arranjos? Como funcionou?

Lucas: Foi uma ideia quase sem querer… A gente tava gravando uma pré-produção em casa mesmo quando durante a gravação de “Visão Além Do Alcance” alguém veio com a “piada” que ficaria legal uns cellos ali no meio da música. A ideia inicial era ter um solo de guitarra… Daí, como tínhamos tempo pra brincar, resolvemos tentar com um simulador de cello e tal… No fim o Andrio fez o arranjo e logo após ele gravá-lo rolou um comentário “cara, ficou ridículo!” (risos). Mas depois fomos ouvir e tinha ficado do caralho! Na verdade é esse mesmo arranjo que entrou no disco. Mas com instrumentos de verdade, claro. Fazer os arranjos foi uma das coisas mais divertidas que eu já fiz. Acho que pro Andrio também. A gente meio que dividiu a autoria dos arranjos… Foi tão divertido que qualquer música que eu faço hoje eu me pergunto “cabe cordas aqui?”. Sério, eu me divirto demais fazendo isso!

Andrio: Eu estava ouvindo o “Mellon Collie & The Infinite Sadness”, dos Pumpkins, pelo menos umas 3 vezes por dia, daí que a ideia de inserir cordas em algumas faixas começou a não me soar estranha. Claro que, guardadas as devidas proporções, né? As cordas desse disco são fantásticas, impossíveis de comparar ainda mais com chinelões que nem a gente.

Alto-falante: Qual a maior diferença do “A Amarga Sinfonia do Superstar” para o “terceirão”?

Lucas: Acho que a maior diferença é que no terceiro a gente teve a intenção declarada de fazer um disco com início, meio e fim! Quer dizer, houve músicas que foram compostas exclusivamente pra ocupar um espaço específico no disco. A coisa é que nós só temos o verão pra tirar férias e ficar um mês em Brasília gravando, daí lá por maio de 2008 a gente sentou e decidiu que precisava de um disco pra gravar no verão de 2009, senão só poderíamos gravar no verão de 2010. Foi quando resolvemos nos disciplinar e começar a fazer músicas pro disco. Nunca tínhamos feito isso, já tínhamos umas 5 musicas quando decidimos isso, precisávamos de mais 7 mais ou menos. Foi o que rolou, mas uma acabou ficando de fora. Os outros dois discos tinham sido a junção das músicas que tínhamos até um dia antes de ir gravar. Acho que isso faz bastante diferença no resultado final.

Andrio: Aham.

Alto-falante: No disco físico do novo trabalho vem também um CD acústico que vocês gravaram em maio de 2009. Fale um pouco sobre esse show.

Lucas: O show foi do caralho! Mas foi o dia mais estressante das nossas vidas. A gente precisou levar todo o equipamento e a gravação do áudio também era responsabilidade nossa! Depois desse dia eu prometi pra mim mesmo que nunca mais ia fazer o som do PA, gravar e tocar o mesmo show! Meu olho ficou tremendo uns 3 dias depois que passou (risos). Sério! Mas depois de pronto deu orgulho! Valeu a pena! Era um lugar bem pequeno e tava abarrotado de gente em um dia meio frio. Quer dizer, perfeito pro clima que a gente queria capturar. Foi lindo!

Andrio: Começamos a pensar num clima meio “Nirvana MTV Unplugged”, rolou até um convite para os irmãos Daitx, da conterrânea e então inativa ProzaK, que compareceram para interpretar conosco duas músicas de seu repertório. Tipo o que aconteceu com os irmãos Kirkwood dos Meat Puppets (risos).

Alto-falante: E por que decidiram lançar o acústico junto com o novo trabalho?

Lucas: Foi pra compensar a espera do pessoal que nos incomodou 2009 inteiro (risos). Desde que falamos na comunidade do Orkut que estávamos gravando disco novo já começou a pressão pra lançarmos de uma vez… Daí por causa do atraso a coisa começou a ficar mais intensa. Foi quando a gente lembrou que daria tempo de finalizar o áudio do acústico antes do DVD em si. Resolvemos então ao invés de colocar umas faixas bônus colocar o disco todo!

Andrio: A gente curte pacas essa relação com quem nos ouve e nos acompanha. Então assumimos tipo um compromisso de entregar um novo trabalho do jeito mais compensador possível. Só faltava o disco chegar com chumaços de cabelo de cada integrante.

Alto-falante: O DVD desse acústico sai quando? Vai demorar muito tempo como o disco? (risos)

Lucas: Tomara que não (risos)… Agora ele tá na mão dos nossos bróders da Baixada Nacional Filmes… A ideia é ter ele pronto lá por maio. Já estamos agendando o show de lançamento aqui em poa [Porto Alegre]. Se tudo der certo, vai rolar ao vivo pela internet. Vai ser do caralho!

Andrio: E num teatro e tal. Se rolar, vestidos de fraque e de gel no cabelo! Coisa única em nossa carreira.

Alto-falante: O disco vazou antes do lançamento oficial… O que vocês pensam disso?

Lucas: Adoramos! Nos sentimos banda grande (risos). Mas sério, foi bacana mesmo. O legal é que foi bem espontâneo! Mandamos o disco todo pra um monte de gente da imprensa com a intenção de que cada um liberasse uma música e o pessoal corresse atrás aí nos blogs… Mas daí um desses caras de blog upou o disco todo no 4shared dele pra liberar depois do lançamento e ficou na dele. A coisa é que alguém esbarrou nesse link que abriu o berreiro na comunidade! Foi do caralho!

Andrio: E isso só tem a acrescentar pra todos. A galera já pode ir nos shows de lançamento conhecendo o disco, ou seja, assim a gente não engana a torcida. E se as pessoas curtiram mesmo a bolacha, vão levar pra casa sua versão física.

Alto-falante: Os dois primeiros álbuns de vocês foram bem aceitos por público e crítica. Rolou alguma pressão da própria banda para se superar por causa disso? Uma preocupação em não decepcionar quem está de fora?

Lucas: As nossas pressões são sempre internas, quer dizer, a gente tá muito mais interessado em fazer um disco bom, o melhor que a nossa capacidade nos permitir, do que agradar alguém de fora. Foi assim nos outros 2 também… Claro que a aprovação do público e crítica é importante mas não mudamos uma nota de lugar visando isso, saca? Ter uma banda, pra nós, sempre foi muito mais por causa da música do que por qualquer outra razão!

Andrio: Falou tudo.

Alto-falante: Como é trabalhar com Philippe Seabra novamente? Não se mexe em time que está ganhando? (risos)

Lucas: Pois é, já estamos acostumados com o Seabra. Esse disco é um pouco mais “torto” que o segundo, né… Então acredito que tenha sido um desafio pra ele tanto quanto foi pra nós.

Andrio: Só falta a gente ensiná-lo a assar um churrasco fora daqueles modelos norte-americanos (bifinhos na grelha do jardim, etc).

Alto-falante: O “A Amarga Sinfonia do Superstar” já mostrava claramente uma maturidade da banda em relação às composições. E agora, vocês acham que estão ainda mais maduros, perdendo um pouco da “jovialidade” do primeiro álbum?

Lucas: Cara, a gente fez o primeiro disco entre 19 e 21 anos. Agora temos entre 25 e 26… Não tem como soar igual, né! Só se a gente fosse bem mais retardado do que a gente é (risos). Mas não, meu, acho que esse disco tem vários momentos bem joviais. Claro que a coisa tá soando um pouco diferente mas ainda somos os mesmos abobados de sempre, só a nossa visão do mundo mudou um pouco e isso afeta demais a nossa música… Ainda não somos velhos o suficiente pra fazer discos “burocráticos”, mas não temos nenhum interesse de fazer o primeiro disco de novo!

Andrio: É isso mesmo. Aquela coisa na época me fazia muito sentido, mas não [me] vejo compondo daquele jeito atualmente. Claro que, pelo menos pra mim, tentarei sempre fugir do óbvio. Tipo, tu nunca vai ouvir a frase “brilho do teu olhar” em alguma de nossas músicas… Tá loco…

Alto-falante: Vocês ainda moram em Guaíba/Porto Alegre, né? Muitos dizem que esse ano parece ser decisivo para a carreira da banda. Vocês pretendem continuar morando aí ou planejam uma mudança de ares com o intuito de “fortalecer a carreira”?

Lucas: Pois é… Porto Alegre não é tão longe e todos nós temos coisas que nos prendem aqui. O Andrio trabalha e estuda, o Marco e eu estudamos e o Diogo trabalha… Quer dizer, não podemos simplesmente largar tudo e ir correndo atrás do Papai Noel, saca? Com essa descentralização da coisa toda achamos que é perfeitamente possível permanecer aqui e tocar as nossas vidas sem nenhum dano pra carreira da banda…

Andrio: Acho que o “fortalecer a carreira” vai se dar justamente por essa não-afobação que a gente sempre adotou. 2010 vai ser nosso grande ano por isso: consolidar a carreira com música autoral, sem precisar moldá-la para o que, convenhamos, não existe.

Alto-falante: Vocês já estão na estrada há algum tempo, são reconhecidos e respeitados dentro da cena independente nacional. Mas e aí em Porto Alegre, como vão as coisas? Já têm um respeito local ou estão meio que como um “patinho feio”, por não fazer o tal rock gaúcho?

Lucas: As coisas estão tão paradas por aqui que eu nem sei mais… Mas sim, temos bastante respeito… Acho que mais pela insistência do que por qualquer outra coisa. Sempre tivemos o nosso público fiel aqui e acho que vamos ter por um bom tempo ainda.

Andrio: Até não acho que seja por insistência. Insistência é coisa de banda ruim que compra o passe a qualquer custo. Somos bastante humildes, mas não bobos. Reconhecemos que temos potencial, mas deixamos a galera que nos ouve responder isso naturalmente.

Alto-falante: Como andam os planos da banda daqui pra frente?

Lucas: Tocar onde der! Já temos uma baita agenda pra esse primeiro semestre e eu já tô temendo pela aprovação nas cadeiras que eu me matriculei (risos).

Andrio: Idem. Se eu e o Marco perdermos o Prouni por excesso de faltas, tamo f#@&%o.

 CONFIRA AQUI A CRÍTICA DO DISCO “SUPERGUIDIS” E UM FAIXA-A-FAIXA FEITO PELO BATERISTA MARCO PECKER

Fotos: divulgação/Thiago Piccoli.

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Entrevista com Bonifrate

Entrevista que fiz com o Bonifrate para o site do Alto-falante. Ele está lançando disco novo, mas a ideia da entrevista era ser mais ampla mesmo. Ir além do disco e “desvendar” um pouco do universo particular do sujeito. O legal é que, ao contrário do clima “viajandão” do trabalho dele, Bonifrate se mostra um cara bem sóbrio e ciente das coisas que faz. Não é ninguém “fritado”. É isso.

Bonifrate tem um mundo só dele.

Um mundo em que seres místicos e psicodélicos vivem ao lado de gatas loucas e fantasmas. As referências podem até parecer meio batidas, mas no mundo particular de Bonifrate, esses elementos caminham em harmonia. Prova disso é seu novo álbum solo, Um futuro inteiro (disponível para download gratuito), que chega em 2011 com gostinho de mofo de décadas passadas. Dentro de sua discografia solo, este é seu terceiro disco cheio, que vem depois de Sapos alquímicos na era espacial (2002) e Os Anões da Villa do Magma (2005), entre alguns EPs pelo caminho.

Bonifrate é uma das cabeças por trás da banda carioca Supercordas, que tem no currículo o bem falado Seres verdes ao redor (2006), uma espécie de encontro entre Sá, Rodrix e Guarabyra com Syd Barrett e Brian Wilson no século XXI. E enquanto o Supercordas não lança um novo álbum, o músico coloca na mesa seu trabalho solo mais bem produzido até agora, mas ainda assim dentro do esquema lo-fi, que já é uma “característica” de sua obra. Sobre isso ele fala: “Eu sempre fui um entusiasta da falta de recursos como campo criativo, mesmo que por necessidade”. E essa falta de recursos não diminui o resultado do trabalho ou algo do tipo, apenas faz com que tenha uma pegada ainda mais peculiar dentro do vasto campo de álbuns produzidos e disseminados a cada folha virada no calendário.

Bonifrate vem de uma escola que mistura folk, prog rock, psicodelia, rock rural e folhas verdes. Para conhecer um pouco mais sobre o sujeito, o Alto-falante teve uma conversa que vai além do novo álbum.

Boa viagem.

Lembra quando você fez sua primeira música?
Lembro, mas tento esquecer (risos). Era uma canção bem bobinha, escrita em inglês, sobre uma menina de quem eu gostava. Meu quarto em Parati tinha uma vista pra estrada, e eu ficava ali de plantão esperando ela passar de bicicleta. Depois eu tentei jogar no limbo essa canção, porque não gostava nem um pouco dela, e considerei a primeira de verdade um épico psicodélico em 3 movimentos chamado “Mushroom World”, que escrevi logo depois. Era igualmente boba, mas eu não tinha vergonha dela, e alguns dos meus amigos gostaram. Então eu comecei a escrever mais e gravar fitas pra dar pra eles.

Alguns sintetizam seu trabalho como folk, mas acredito que vai um pouco além do estilo… O que pensa disso?
Eu acho que folk não é só uma palavra de quatro letras (com o perdão do trocadilho). Não dá pra traduzir simplesmente como “folclore” e, se desse, eu diria que não tem nada a ver com o que eu faço. Tem a ver na medida em que se inventou essa tradição do “folk contemporâneo” em meados do século XX, e essa tradição foi se transformando, se diluindo em outras, se despolitizando, até que passou a se referir mais à forma do que à substância, mais a um cara com um violão de aço e um suspendedor de gaita do que ao teor político e trabalhista das letras, ao que ele estava operando ali com aquela parafernália. E eu toco com um violão de aço e um suspendedor de gaita, então a primeira coisa que deve vir à cabeça de quem assiste é… “folk”. E com essa certa razão.

Por outro lado, as palavras podem não definir, mas ajudam. Quando me perguntam qual é o esquema do show, eu posso até dizer que é “space folk”. Como “estilo”, acho que o som vai além, pode chegar ao prog, ao rock psicodélico, à marchinha, até ao synth pop; mas como uma palavra polissêmica, eu diria que o folk é que está bem além de mim.

Como foi o processo de produção de Um futuro inteiro?
Durante alguns meses em 2009 e 2010, eu passei por um desses surtos de composição. Vinha escrevendo umas duas canções por semana, e todas se relacionavam de alguma forma ao que estava acontecendo na minha vida, essa necessidade que as canções suprem de botar as coisas da vida nos seus “devidos lugares”. Mas esses “devidos lugares” não são como uma prateleira de discos ou um catálogo de biblioteca, e esse processo envolve justamente desorganizar os eventos pontuais em um todo mais ou menos coerente que não existe aqui e agora, existe em outro espaço-tempo, que é o das canções. É esse o espaço-tempo que me interessa. É o que rege o processo, e é o que rege a vida.

O processo de gravação foi bem simples (mas não necessariamente fácil). Gravei sozinho, no meu quarto, com uma placa de som USB, um notebook e dois microfones. Tive essa força incrível dos meus amigos e companheiros musicais, fazendo participações que realmente mudaram a cara do disco, e sempre pra melhor. Filipe Giraknob, Alexander Zhemchuzhnikov, Sandro Rodrigues, Augusto Malbouisson e Diogo Valentino: eu faço questão de citá-los, porque foram um refresco coletivo indispensável ao individualismo do resto do processo.

Até agora você tinha dois discos cheios e alguns EPs lançados. Sempre num esquema mais lo-fi… O Um futuro inteiro está mais “produzido”. Isso foi pensado? Por que você acha que isso ocorreu?
Acho que foi uma consequência lógica das transformações digitais desses anos. O primeiro disco, Sapos alquímicos na era espacial (2002), foi feito num gravador de fita de 4 canais; o segundo, Os anões da Villa do Magma (2005), já foi gravado no computador mas ainda estava tateando no escuro das novas possibilidades. Ainda acho Um futuro inteiro bem lo-fi, mas de um jeito diferente. No Anões, eu e Valentino (que mixou comigo) procuramos disfarçar a sonoridade digital. Eu gravei só percussões, não tem baterias programadas, só usamos plug-ins bem básicos, soa mais orgânico. Um futuro inteiro não teve essa preocupação. Aceitei fazer um disco lo-fi digital, que soa digital, sem preciosismos analógicos. Foi a verdadeira “farra do plug-in” (risos). Em outras palavras, eu sempre fui um entusiasta da falta de recursos como campo criativo, mesmo que por necessidade. Essa falta de recursos só mudou de forma. Ficou mais fácil emular digitalmente os recursos que faltavam.

Você costuma fazer uma divisão das músicas que compõe que entram no repertório do Supercordas ou no seu repertório solo? Como isso funciona?
Isso funciona de maneira bem pragmática. Se tem um disco solo no horizonte, eu escrevo pra esse disco, e se tem um dos Supercordas, escrevo pra ele. Mas às vezes pode sair uma canção que me pareça cair melhor como Supercordas, então eu boto na roda. Não tem regras rígidas, não tem porque ter. Por exemplo: tem uma canção nova que ficou de fora do álbum, mas que vai entrar num EP de extras e remixes. Eu fiz uma versão solo (junto com o Valentino), mas quero tocar com os Supercordas também porque é simplesmente a cara do som que a gente tem pensado em fazer depois.

Então tem esse EP a caminho… Já tem alguma coisa mais definida?
Não muito, mas deve constar de umas duas inéditas que não entraram no disco, um ou dois remixes, algo por aí.

Não dá pra fugir: e o novo disco do Supercordas, alguma previsão? Como anda a produção dele?
Prefiro não prognosticar. Tem sido uma grande saga dramática isso aí. Mudamos de idéia mil vezes sobre como gravar, com base nas circunstâncias, nas propostas, em mil idas e vindas. Temos bastante material já gravado, e posso dizer que estamos todos resolvidos a terminar logo, e com os recursos que nós temos e aos quais podemos recorrer. Estamos já pensando no outro, e que não demore a começar.

Se falassem para você escolher um artista nacional e outro gringo para dividir o palco, quais seriam?
Não sei se gostaria tanto de dividir o palco com algum artista que eu admire muito, acho que ficaria muito nervoso. Quer dizer, a gente dividiu uma vez com a Fernanda Takai e foi incrível, porque ela é incrível e fez a gente se sentir mesmo em casa. Eu gosto de dividir o palco com meus amigos, e alguns deles estão entre os melhores artistas do Brasil hoje em dia.

E quem são eles?
Pra ficar só nos amigos compositores bem chegados, e pra não gerar uma lista enorme e esquecer um monte de gente, eu acho que Simplício Neto, Augusto Malbouisson, Sandro Rodrigues a.k.a. Digital Ameríndio e Stan Molina são alguns dos melhores escritores de canções que o Brasil já teve. Eu e Stan queríamos fazer qualquer coisa que tivesse como título “Some of my friends are some of the best composers of all times”. Pode soar coisa de grupelho, e provavelmente é porque é mesmo.

E qual a sua banda dos sonhos?
Tenho um pé atrás com essas bandas dos sonhos, vê só o Dirty Mac no Rolling Stones Rock’n’Roll Circus. Tem o Clapton, o Richards, o Lennon e o Mitch Mitchell na mesma banda, mas é claro que a música não soa tão bem quanto a versão do White Album. Minhas bandas dos sonhos são as bandas que existem e que eu amo. Provavelmente os Flaming Lips. Eles conseguiram ir mais longe na minha idéia do que é uma grande banda do que qualquer outra jamais foi.

Escolha um: Syd Barrett ou Brian Wilson.
Syd. Por motivos subjetivos, não porque eu ache ele maior ou mais talentoso que o Brian. Simplesmente porque a música do Syd de alguma forma modelou a maneira como eu escrevo canções. Está nas raízes desse impulso. A música do Brian eu demorei mais pra conseguir entender e absorver, tem mais a ver com a racionalização do que com o abismo pra mim, mas na certa ela também está lá, nas minhas eternas favoritas.

Entre essas suas eternas favoritas, você consegue listar cinco músicas que fazem parte do seu DNA, por assim dizer?
São tantas, essas. Eu consigo citar algumas tendo o disco novo em mente, canções que têm conexões com a ambientação do álbum e que sempre tocaram na minha cabeça desde a primeira vez que eu ouvi: “Cold brains” do Beck, “Da maior importância” do Caetano, “It’s all over now baby blue” do Dylan, “Grilos” do Erasmo e “Dark globe” do Syd. Eu só citei compositores homens cantando sobre tensões e desencontros. Não foi pensado, mas parece natural em se tratando de um disco desse tipo.

Quais suas maiores influências? Não só as musicais…
Das musicais, a gente acabou citando algumas nesse papo, então acho que já tá bom. Das extra-musicais, tudo pode entrar no feitio de uma canção. É uma questão de olhar os sinais do mundo e decodificar, desorganizar, organizar de novo pra que aquilo exista num outro plano, onde as coisas são mais duráveis, mais abrangentes em termos de linguagem e de interpretação. Eu existo de um jeito em que nada de relevante parece realmente ter se passado se não tiver sido antes processado por novas canções. As canções influenciam tudo, e não o contrário.

Quais artistas você tem ouvido recentemente?
Eu tenho ouvido muito essa banda italiana chamada Jennifer Gentle. Os ambientes sonoros deles são fantásticos, podem te levar do alto de uma árvore num dia ensolarado até um porão escuro e com cheiro de mofo em poucas notas. Não tenho me ligado muito em novidades, eu escuto as mesmas coisas de sempre frequentemente, volta e meia mergulho em alguma música do passado que eu não tinha explorado muito anteriormente (o Leonard Cohen por exemplo foi um dos últimos), escuto sempre os discos novos das minhas bandas favoritas e eles quase sempre me instigam (ainda não consegui parar de ouvir o Embryonic dos Flaming Lips, é tipo o melhor disco de todos os tempos), e também escuto o que a galera que eu conheço e admiro daqui tem feito, procuro acompanhar.

Vocês do Supercordas não têm mais o Estúdio Musgo, né? Como foi a experiência de ter e manter um estúdio?
Não, o Musgo fechou no final de 2009. Foi bem desgastante, porque tínhamos que fazer o estúdio funcionar comercialmente pra podermos pagar as contas, que nem sempre se pagavam. Mas foi uma baita experiência. Acabamos trabalhando em projetos de outras pessoas, seja gravando, seja compondo arranjos, tínhamos bastante tempo pra tocar sem nos preocuparmos muito com as horas de ensaio ou de gravação. Com certeza fez a gente crescer, com o que tinha e bom e de ruim.

Então ainda não chegaram naquele lugar de “viver de música”. Acha que isso ainda vai rolar um dia?
Nem perto desse lugar, e seria muito otimista dizer que sim. Não sou tão otimista, mas sou um pouco. Acho que as coisas podem melhorar, mas a continuidade e o desenvolvimento futuros da música pra mim já não estão ligados a viver dela materialmente ou não.

Qual sua relação com a cena musical do Rio de Janeiro?
Não sei se há uma cena. São muitas coisas diferentes acontecendo, frequentemente de forma esparsa. Eu não tenho relação alguma, por exemplo, com a cena do samba da Lapa. Simplesmente não faz parte do meu universo. Mas quase toda sexta-feira estou logo ali do lado, no Plano B, assistindo a algum concerto experimental, de improviso livre, etc. Muitos dos meus amigos e companheiros musicais fazem parte dessa “cena”, que tem se expandido pra outros lugares ultimamente. Eu e a galera dos Supercordas estamos sempre circulando por esses meios. Tocando em projetos de amigos, inventando novos projetos, etc. Mas é o Rio de Janeiro, né? Sabe como é, de repente você pode estar no meio de uma efeméride da Orquestra Voadora, ou de uma muvuca roqueira numa gig dos Vulcânicos, e tá tudo valendo.

E como você vê a aceitação ou mesmo a “curiosidade” por parte do público da cidade em relação ao seu trabalho ou dos seus parceiros musicais?
Nós Supercordas costumávamos alcançar mais gente em São Paulo do que aqui, mas eu acho que isso mudou um pouco. Tem uma galera se interessando pelo nosso som, e pelos outros sons, e muita gente nova, que talvez não estivesse ainda ouvindo música independente em 2003 quando nós começamos, e certamente não estava no fim dos anos 90 quando os Vibrosensores existiam, por exemplo. Mas é difícil perceber isso da nossa parte, eu acho. Não deixa de parecer que é sempre um grande e crescente círculo de amigos que vão aos concertos e que, de maneiras diversas, se relacionam com música.

Tanto a sua obra solo quanto com o Supercordas está disponível para download gratuito. Isso não parece ser um problema para vocês. Pelo contrário, né?
Claro, pelo contrário. É como a música se espalha hoje em dia. Não se pode esperar das pessoas que elas comprem um CD e muito menos que comprem um download. Não no Brasil. Pro bem ou pro mal, o download gratuito já é incontornável. Voluntária ou involuntariamente vai acontecer com todo mundo que lança um disco. Mas isso não conclui nem soluciona o problema que se criou com a ruína das gravadoras. Você tem um monte de gente no escuro tentando encontrar novas formas de sobreviver com música, e é claro que a maioria não consegue. As próprias bandas devem ter uma mentalidade empresarial hoje em dia pra serem bem-sucedidas, e eu não acho isso nada bom. Ter uma mentalidade empresarial não tem nada a ver com fazer música relevante, instigante ou criativa. São outros tempos, a música não tem mais o papel que tinha no século XX.

E qual era esse papel?
Bom, não é como se houvesse um papel específico ou uma vontade comum que unisse todas as manifestações musicais, mas eu acho que a música tinha uma ligação mais estreita com a sociedade, conversava melhor com o planeta e o espaço onde se dava essa conversa não era tão fragmentado quanto hoje em dia é.

Ainda assim você sente uma necessidade de lançar disco físico?
Ah, sim. Porque eu ainda sou uma pessoa do século XX (risos). Um futuro inteiro está saindo com tiragem limitada, num esquema semi-caseiro de produção, pela Cloud Chapel Records do meu amigo Stan. Ainda existe aquela galera que, mesmo podendo fazer download, vai querer ter o disco em casa, nem que seja pra botar na estante e ouvir o mp3 baixado.

E os próximos passos?
Agora estou pra começar a montar um concerto com os Demônios do Brejo ou alguma variação deles. Nos próximos meses devemos fazer algumas apresentações por aqui [Rio de Janeiro] e por Sampa, em outras cidades se rolar a oportunidade. Quem quiser ficar por dentro desses movimentos pode escrever pra bonifrate@gmail.com pedindo pra entrar na lista de notícias. Espero muito poder tocar esse show em Belo Horizonte logo mais, tenho muita saudade dos camaradas mineiros.

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Entrevista com Diogo Soares, do Los Porongas

Entrevista que fiz com Diogo Soares sobre o novo álbum do Los Porongas para o site do Alto-falante, logo antes dos shows que eles fizeram em Belo Horizonte.

Formada por Diogo Soares (voz), João Eduardo (guitarra), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria), a banda Los Porongas, uma das mais emblemáticas dessa geração, está com um novo disco cheio em mãos. O segundo depois do silêncio, posterior ao álbum Los Porongas (2007) e ao EP Enquanto uns dormem (2005), chega carregado de influências sobre a atual fase da banda na cidade de São Paulo. Nascido e criado no Acre, o grupo mudou-se para a capital paulista em 2007 e, desde então, vem caminhando com sua carreira dando passos que têm como prioridade a música.

O Los Porongas é emblemático por tudo que representa em relação ao que produz. Músicos acima da média unidos com um vocalista (e compositor) também acima da média que costuma cantar com emoção, despejando a alma em cima de um palco. Sem parecer forçado, há de ressaltar. Desses tipos que não são muito comuns pelas esquinas da música brasileira. E o resultado disso tudo é um som autoral que apresenta qualidade e ganha força com o álbum O segundo depois do silêncio.

O Alto-falante conversou com Diogo Soares a respeito do novo trabalho da banda, dessa fase na selva de concreto que é São Paulo, do envolvimento deles com a cena musical da cidade e por aí vai.

– Para começar: em “Bem longe” você canta “bem longe de casa / buscando chegar / quem voa sem asa / vai se acostumar”. Como foi o período de adaptação de vocês na nova cidade, novos amigos… O que aconteceu com a banda desde que vocês chegaram em São Paulo?

Muita coisa aconteceu e acabamos conhecendo muita gente. São Paulo tem isso de agregar quem está de passagem. No nosso caso tem muito haver com a música. Quando chegamos não conhecíamos ninguém e ninguém nos conhecia. Quatro anos depois eu tenho a impressão de que chegamos a São Paulo agora. Foi necessário um bom tempo para que encontrássemos nossa turma, ou mesmo para que a formássemos, eu diria. Acho que tem também o aspecto da mudança na vida de cada um dos integrantes. Isso foi muito drástico, até porque não morávamos juntos no Acre.

– Em que momento na história do Los Porongas vocês pararam para pensar em se mudar realmente para São Paulo? Quando vocês acharam que isso era necessário?

Não sei se houve um momento do tipo grito do Ipiranga, mas sei que em 2006, depois de rodar por cerca de 12 cidades brasileiras, o que era uma proeza pra uma banda do Acre até então, a gente sentiu públicos diferentes reagindo bem à nossa música. A banda começou em 2003 e desde lá sabíamos que se prosperasse e quiséssemos viver dessa música que aprendemos a fazer juntos, seria natural ir pra uma cidade onde o público de exceção fosse maior que no Acre e de onde fosse mais fácil e barato se deslocar. Se Rio Branco fosse onde fica Curitiba, talvez nós nunca tivéssemos saído de lá. Mas tem aquela coisa também, um grande pintor na renascença queria ir pra onde? Pra Florença, claro! Ou então ficava pintando retrato de nobre falido. São Paulo era a única opção para quem fosse mudar de Rio Branco querendo viver de rock quando tomamos essa decisão.

– Já pensaram no que poderia ter acontecido com a banda se vocês tivessem continuado no Acre e não fossem para São Paulo?

Nos conhecendo um pouco como já conheço, a banda poderia ter acabado. Quatro anos depois de sair de lá, vemos novas bandas se formando, espaços pra tocar surgindo, mas nada que sustente uma carreira, então imagine isso mais tempo atrás. Agora, é bem verdade que a banda podia ter acabado depois de nos mudarmos. Morar junto num lugar estranho, onde não existe amor, como canta o Criolo, foi difícil, mas nosso sonho era viver isso por inteiro, assumir ser artista para a vida e viver a história sendo uma banda que grava discos e faz shows. Isso falou mais alto.

O segundo depois do silêncio não é tão “ensolarado” quanto o primeiro álbum. Até o encarte reforça isso com o cinza. Vocês já falaram que o disco funciona como uma espécie de polaroide desse tempo de vocês em São Paulo, né? As composições dele seriam mais pessoais que no primeiro?

Acho que nossas canções sempre são pessoais, isso é algo em comum entre as músicas do primeiro e deste disco, tem a cara de cada um de nós. O que acredito que acontece n’O segundo depois do silêncio é que conseguimos imprimir nele as mudanças que aconteceram conosco neste tempo estranho, de adaptação e isso se mostra desde os timbres até as letras. São outros enfoques, outra forma de se expressar de cada um no seu instrumento, até porque nós quatro temos um processo de criação e relação com a música muito particular e diferente uns dos outros. Mas quanto às temáticas das canções, dá pra dizer que enquanto o primeiro disco tinha uma visão muito mais particular, no novo disco grande parte das letras coloca o eu lírico em situações de relação com outros seres.

– Existe alguma divisão nas composições da banda? Um faz isso, o outro faz aquilo… Como isso funciona?

Toda musica nasce de um jeito diferente. Não tem o songwritter, nem a dupla genial no Los Porongas, não existe um método. No primeiro disco eu fiz praticamente todas as letras, neste o João compôs vários trechos e o Anzol foi uma espécie de consultor, ou seja, se muda de música pra música, imagine de um disco pro outro. A gente pega a idéia do outro e vai transformando em uma obra coletiva a partir dos nossos talentos, referências e limitações. O Anzol, por exemplo, compôs várias melodias que foram a base pra gente começar a improvisar como em “Fortaleza” e “Silêncio”. Tem música que o Magrão só chega e cria o baixo, outras, como “Bem Longe” e “A Verdade”, são feitas a partir de uma linha de baixo que ele propôs e que carrega a canção. Todo mundo propõe coisas e começamos a tocar, aí vai surgindo a melodia, às vezes já com uma letra. Sem regras, nem fórmulas, nem tempo pré-determinado.

– O disco [O segundo depois do silêncio] está mais “pesado” que o anterior. Representa mais o que a banda é em cima do palco. Isso foi uma preocupação de vocês?

Que bom que tu achou isso! Todos nós achávamos que estava mais leve! E até me lembro de conversar com o João e atentar para isso, bem no início da pré-produção, mas o resultado que obtínhamos já no começo, em termos de canção, era tão agradável que ficou em segundo plano pensar o “peso” do disco. Acho que até preterimos o peso em detrimento da coerência. Às vezes é mais bonito uma viola caipira dobrando uma melodia com um piano que uma guitarra gritando alto, muito embora eu me amarre quando ela grite.

– O disco foi produzido por “João Eduardo, Carlos Eduardo Gadelha [d’O Jardin das Horas] e Los Porongas”. Como funcionou essa divisão e por que não foi produzido por “Carlos Eduardo Gadelha e Los Porongas”, por exemplo? Qual o papel do João no disco?

Isso me soa estranho mesmo lendo na pergunta e não na ficha técnica, mas é a única forma de dar os créditos corretamente. O processo de concepção e gravação desse disco foi lento e em cada etapa tinha alguém desempenhando um papel diferente. A banda levantou o som da pré-produção com o João tomando à frente disso, claro que com os meninos tocando e comigo cantando e interferindo na composição, mas quem fez toda a onda de estúdio, de comprar o MAC, os microfones certos, de se arriscar mixando o que gravávamos foi o João, então era como se ele fosse o produtor nessa época, até porque ele propunha muitas coisas em termos de arranjo, além dos instrumentos que ele tocava. Com a pré tivemos um norte da sonoridade que queríamos alcançar e muita coisa em termos de efeitos e mixagem já havia sido criada pelo João. Na reta final ele precisou se afastar das gravações e coube ao Carlos Gadelha, a quem já tínhamos incumbido de fazer a mixagem do disco, a tarefa de terminar de gravar e a liberdade de propor novos arranjos e edições nas canções, o que trouxe outras referências e imagens sonoras.

– Vocês chegaram a fazer uma espécie de pesquisa musical pensando no disco?

Acho que a pesquisa foi a mudança pra São Paulo. Os shows que a gente viu desde que chegou, as pessoas que conhecemos. Acho que os músicos que conhecemos e de quem nos tornamos amigos formam parte muito significativa das referências pra esse disco novo. Essa pesquisa foi a lei natural dos encontros agindo.

– Como rolou a história com Dado Villa-Lobos na música “Sangue novo”?

O Dado é um querido! Nos conhecemos através do Alex Antunes, que nos botou pra tocar juntos em nosso primeiro show em São Paulo, em abril de 2007. De lá pra cá já tocamos no Acre, no Rio e em Belém. Quando tocamos juntos no Rio, em 2009, num show em homenagem ao Chico Mendes, ele sugeriu que conhecêssemos o estúdio dele, o Lobo Mao, e gravássemos uma música pra sentir o clima. Passamos o dia seguinte gravando “Sangue Novo”, uma das únicas do repertório novo que estava pronta. Saímos de lá com a idéia de que voltaríamos ao Rio pra gravar, pois adoramos o som do lugar e a vibe da galera. Mas não rolava sair de São Paulo pra gravar noutro lugar. Como ele é um gentleman e um músico muito sensível, nos cedeu a faixa e ainda deu a dica: se o som do lugar for legal, comprem bons microfones, bons pré-amplificadores e gravem. E foi o que a gente fez.

– O estúdio Cambuci Roots, em que vocês centralizaram a produção e gravação do disco, fica na garagem da casa de vocês, né? Já rolou muita treta com os vizinhos por causa disso? [risos]

Risos porque num é tu! Rapaz, no Cambuci Roots nunca rolou treta, mas onde moramos por quase 3 anos foi um verdadeiro inferno. Ainda bem que acabou. Quando cada um foi morar num canto o Anzol foi cair no Cambuci Roots e eu moro numa rua atrás, o João mora perto também. Isso em São Paulo ajuda muito.

– Qual é a relação do Los Porongas com a cena musical de São Paulo?

Pra falar a verdade temos a impressão de que estamos chegando agora em São Paulo. Hoje temos uma vida social decente. Há quatro anos não conhecíamos ninguém e ninguém nos conhecia. Ainda bem que os amigos e os fãs se multiplicaram. Como não são muitos acreanos em São Paulo, nem tínhamos jeito de pseudo-londrino, ou éramos pernambucanos, ficamos um bom tempo sem turma. Mas o lugar se apropria de você e as amizades vão dando sentido a tudo, os encontros. Foi ótimo poder assistir e conhecer o Curumin, a Tulipa Ruiz, ou o Tatá [Aeroplano] e a turma do Cérebro Eletrônico, mas a relação de troca mais profunda e transformadora se deu mais intensamente com outros artistas de fora de São Paulo.

– E o papel do Mais Massa nisso tudo? Parece ser um esquema que vai muito além da música. É por aí mesmo?

O Mais Massa foi um resultado espontâneo do encontro entre músicos com trabalhos completamente distintos, numa cidade estranha e muito foda de se viver. Foi importante pra todo mundo em todos os sentidos que se possa imaginar. A gente, O Sonso, Saulo Duarte e a Unidade, O Jardim das Horas, Volver, Madame Saatan começamos a tocar juntos na Livraria da Esquina. Aí surgiu um sentimento de amizade e identificação que passou a unir todo mundo, mas cada um foi tocando sua carreira. O Mais Massa é além da música, mas foi só por ela que ele existiu, tanto que a gente quer lançar um disco com as composições que foram feitas no período em que essa movimentação começou. A amizade evoluiu para relações de trabalho muito sadias. A gente passou muito tempo querendo encontrar alguém que acreditasse que era possível ganhar dinheiro com a nossa música. E foi a partir do Mais Massa que começamos a trabalhar com Tiago Barizon, nosso produtor hoje, homem à frente do selo que lançou o novo disco, a Baritone Records (que tem um modelo de contrato que eu tenho certeza que vai ser objeto de estudo!). Ele foi um dos primeiros a incentivar a onda toda. A gente fica brincando de Tropicália e dizemos que até um Rogério Duarte teve, só que o nosso é um artista das palavras, um acadêmico estudioso e amante do rock e da literatura, sem dúvida uma das figuras centrais nessa nossa experiência coletiva. Não sei como esses dois aguentaram esse bocado de artista junto.

– O que o coro e as pessoas na música “Longo passeio” representam para vocês da banda?

São nossos amigos, é o que o Mais Massa deixou de mais importante, além das canções que fizemos, que acredito serem muito representativas do Brasil e do tempo em que a gente vive. Eu botei a maior pilha pra rolar esse coro. No dia da gravação rolou um churrasco e a galera tava num clima massa. Eu adoro isso de agregar, das pessoas se conhecerem e se disporem ao que pode acontecer de um encontro, de um show, de um happening, isso é o que mais me fascina na música. O poder que ela tem de conectar pessoas. Foi um tesão gravar aquilo. João e Carlos tiveram trabalho porque a cerveja correu solta. Nossas mulheres estão lá, o filho do Magrão; o Daniel Groove, que me fez enxergar novamente a poesia em São Paulo quando nos conhecemos; o Zeca Viana, que saiu da Volver e continuou em São Paulo pra tocar o próprio trabalho, o Saulo e o João Leão, que moram no Cambuci Roots, tanta gente. Na minha cabeça era pra ser uma mistura de “Travessia do Eixão” na versão da Legião Urbana com o [disco] Beach Boys’ Party!.

– Consegue definir o Los Porongas de 2007 e o Los Porongas de 2011 em uma frase?

“Saí pra dar um passeio pelo quintal do mundo e descobri que o universo é bem mais profundo”, é de uma música de um dos vocalistas mais doidos que eu vi no Acre, o Daniel do Lona.

– E como você acha que a banda vai estar daqui a dez anos? Ou não acha nada?

Daqui a dez anos eu quero que ainda sejamos amigos e estejamos em cima do palco emocionando as pessoas.

– Como foi o lançamento do disco em Rio Branco este ano? Teve um gostinho especial?

Sempre tem! Foi lotação máxima do mais importante teatro de Rio Branco. São sempre muito intensos os shows no Acre, talvez por uma mistura de saudade e orgulho do público em relação à banda.

– A banda já liberou O segundo depois do silêncio para download gratuito. Esse tipo de coisa não parece ser um “problema” para vocês, né?

Eu quero que o público acesse, possa ouvir, ter. Se quiser pagar a gente não acha ruim, não. Problema pra que, né? Eu quero é fazer show. Vou vender mais CDs no final do que em qualquer loja. E nem por isso vai deixar de ter na Fnac, ou na Cultura e onde mais se quiser vender o disco. Estamos vivendo uma mudança radical e ligeira. Em 2007 lançamos o primeiro disco e um ano depois, certamente menos de mil pessoas tiveram acesso a ele, porque só foram prensados mil, ainda que tenhamos disponibilizado pra baixar. Em 2011 lançamos o disco no Acre em janeiro e alguns meses depois decidimos incentivar o download gratuito e só o fizemos pelo Twitter e Facebook. Em menos de 48 horas mais de mil pessoas tinham baixado o disco.


Foto: divulgação

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