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Chorão (1970-2013)

(Escrevi esse texto na manhã que o cara morreu, 06/03. Deixei de molho por uns dias, hábito sempre saudável. Aí está.)

Acordo cedo, vou dar uma olhada no Twitter. Alguns fazem piada com o Chorão, do Charlie Brown Jr. O cara aprontou mais uma, penso. Até que o tweet de alguém entrega: “Chorão é encontrado morto em seu apartamento nesta madrugada”. Porra! Ligo a TV. Está tudo lá ao vivo e a cores. Loucura. A morte é sempre algo instigante. Mais instigante ainda são aqueles que destilam comentários duvidosos e se mostram sem um pingo de humanidade. O veneno escorre pelos cantos da boca. Tudo bem, ninguém tem filho, pai, mãe, cachorro. Ninguém tem família numa hora dessas.

Já não escuto mais Charlie Brown Jr. há séculos. Guardo boas lembranças do início da carreira deles. Em especial os discos Transpiração Contínua Prolongada (1997) e Preço Curto… Prazo Longo (1999). Tocava na MTV e tocava muito em uma rádio FM de Belo Horizonte que eu escutava bastante. Mas com o tempo ela acabou se tornando irrelevante pra mim. O Charlie Brown também. Ainda assim, consigo entender o poder da banda (e especialmente do Chorão) com seu público. Acredito que é quase que uma questão de entender o público de um mercado: Chorão era a personificação, em corpo de adulto, do moleque fodido de classe média que não tem nenhuma perspectiva de vida e ainda assim espera realizar todos os seus sonhos. Muitos desses se encontram na música. Fazendo ou escutando.

E tem uma fase na vida, ali entre a pré-adolescência e a adolescência, que nada parece fazer sentido, é tudo muito perdido. Até que começam as descobertas: porre de cerveja, porre de maconha, dor de cotovelo, falta de oportunidades, cigarro barato, sexo, malandragens mil. Todo mundo passa por isso. Santinhos e religiosos defendem que não. E o Chorão escrevia e cantava sobre tudo isso. Ele era isso. Cresceu mas ainda era moleque. Longe de ser genial. Para alguns, podia até ser um babaca de carteirinha, com foto 3×4 e tudo, mas precisava de ajuda, independente da substância ingerida. Talvez ele não tenha conseguido, ou não soube pedir, ou não soube aceitar. Talvez. Fez besteira. Fez merda, muita merda. Sofreu as consequências. Apanhou da vida, que não deixa nada barato.

Goste ou não, Chorão era ídolo e modelo para muita gente. Ou projeto de gente. Pessoas que sustentaram sua carreira artística. E o cara parecia saber e entender muito bem tudo isso. Encontrou a fórmula perfeita para o sucesso particular: pegou umas influências californianas aqui e misturou com o clima de Santos ali. Não esqueceu do skate, da autêntica imagem de “foda-se quem não gosta de mim” e das letras aparentemente rasas mas profundas para aquele nicho de público específico. Acertou na Mega Sena. Sabia fazer música para vender e atender àquele público. Qualidade são outros quinhentos. Além de depender do gosto de cada um.

Chorão era aquela típica pessoa que vive do jeito que bem entende. Sem se importar se os outros aplaudem ou não. Sem se preocupar em ter que dar tapinhas nas costas de alguém para conseguir algo em troca. Meio marrento, meio malandro. Acho interessante gente com personalidade assim, mesmo não sendo fã dele e não admirando várias de suas atitudes. Ainda que ele fosse vitrine para a molecada. Porque, no final das contas, as escolhas são individuais, acredito. A vida de cada um é de cada um. Para o bem ou para o mal.

Lembro que, em 2012, participando de um festival de música em uma cidade no interior de Minas Gerais e conversando com amigos sobre Os Mutantes, chega um menino, dezoito anos no máximo, e fica rodeando o papo. Perguntamos para ele qual é a maior banda do Brasil de todos os tempos. “Ah, pra mim é Charlie Brown Jr.!”, responde todo sorridente. Nos entreolhamos… Por motivos bem controversos, a banda não se apresentou no festival naquela noite. E é bem capaz que esse garoto nunca tenha visto e nem irá ver um show do grupo. E nem de ídolo similar. Chorão era provavelmente o último ~rockstar porraloka~ do rock brasileiro. Hoje parece que músicos estão muito trabalhados no politicamente correto para serem eles mesmos.

Chorão viveu a vida que ele quis viver. Isso é um ganho e tanto.

Published in música

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