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Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente

Lourenço Mutarelli (uma das minhas obsessões literárias nos últimos meses) está com um novo álbum de quadrinhos no mercado. Depois de alguns anos dedicados à literatura – em livros como O cheiro do raloA arte de se produzir efeito sem causa e O natimorto, por exemplo -, o autor volta às origens com Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente. O livro de 127 páginas, que apresenta a história de um homem transtornado pela morte de sua mulher, foi pintado em tinta acrílica e tem um desenho por página. No vídeo abaixo, Mutarelli fala mais sobre o trabalho.

Aproveitando a deixa, indico aqui uma mega entrevista (em tamanho e qualidade) que o pessoal do Rio Comicon fez com Lourenço Mutarelli em 2010 e que viu a luz do dia agora, no final de 2011. Na entrevista ele dá uma geral em sua vida, obra, mercado e outras coisas interessantes. Alguns trechos que destaco:

E por que parou com os quadrinhos e se dedicou a escrever?
Mutarelli. Primeiro, porque era coisa que exigia que eu trabalhasse muitas horas por dia. No mínimo, 12, às vezes 18 horas por dia, para eu conseguir fazer um álbum por ano. O meio é desgastante. É um meio em que, durante muito tempo, nunca fui muito aceito. Isso estava me cansando, estava um pouco saturado. E aí tive a ideia de uma história e estava percebendo que, quando lia um livro, a minha imaginação chegava muito mais próxima da realidade do que quando eu via um quadrinho que tinha um filtro já. A imagem já me segurava nesse caminho. Então comecei a ficar com vontade como um, sei lá, contador de histórias. E foi aí que experimentei esse primeiro texto. E cada vez gosto mais do que a palavra evoca.

[…]

Desse pessoal da nova geração, que está aqui, começando a publicar, você faz algum paralelo…
Mutarelli. … os gêmeos [Fábio Moon e Gabriel Ba]. Tem gente de outras gerações que ainda não são muito conhecidas, que acho maravilhosos. Tem o [Marcelo] Lélis, o [Fábio] Zimbres, Allan Alex, os textos do Patati. Tem muita gente boa. Desse pessoal novo, quem me impressionou bastante foi o Rafael Sica, achei bastante interessante. O problema daquele pôster que eu fiz do cara sentado no sofá e a família suicida é que hoje eu sou o cara, estou no sofá. Eu sou a família brasileira hoje. Mal e porcamente, mas sou, de alguma forma. É muito triste, cara, ver… Vir aqui é muito emocionante rever pessoas que conheci em 1991, na primeira Bienal [de Quadrinhos]. E eram pessoas cheias de sonhos e acreditavam muito nos quadrinhos. E elas estão aí tentando ainda, 20 anos depois, muito velhas… Porra, cara é muito triste. Muito emocionante também ver esses caras. Eu sei o que é essa luta. Ver esses caras ainda aí é muito emocionante, mas é muito triste também. E você vê esses jovens aí, que têm uma energia, e espero que essa energia persista por 20 anos. Porque ninguém vai muito longe. Quadrinho não vai muito longe, é um problema cultural. E mesmo que não seja cultural, Portugal é um lugar que respeita muito os quadrinhos e também não vende. O pessoal está parando de produzir porque não tem onde publicar, porque as pessoas não têm dinheiro pra comprar. É difícil, tem que fazer por essa obsessão ou fazer como um hobby e encontrar um tempo pra produzir isso. Mas ninguém vai muito longe com isso, não.

Pois é, você falou ainda pouco que ainda é uma coisa muito marginal. Mas agora está um momento bom, mas, segundo você falou, são ciclos e fases. Tem várias editoras surgindo, selos…
Mutarelli. Mas, assim, você vê, a Chiclete com Banana vendia 120 mil exemplares. Hoje em dia tem grandes editoras publicando quadrinhos, como a Companhia das Letras e várias outras, mas a tiragem desses quadrinhos é de 3 mil exemplares. E eu sei, por experiência própria, que esses 3 mil exemplares vão levar três anos, no mínimo, para vender. Então os quadrinhos, que eram um produto de massa, em banca e se vendia barato, a única forma de sobrevida que ele encontrou é ser editado como um livro e a custo de um livro e ser vendido dessa forma. Então também acho que esse fôlego das grandes editoras não vai durar muito.

[…]

E você voltou a produzir quadrinhos, né? Li que estava produzindo um álbum [o recém-lançado Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente (Quadrinhos na Cia.)]. Fala um pouco desse trabalho e por que decidiu fazê-lo.
Mutarelli. Eu voltei totalmente contra a minha vontade. Voltei a desenhar muito, pra mim, de forma bastante experimental e libertária, que é uma coisa que nunca tinha feito na minha existência. É um material que acho que dá para ser publicado, de alguma forma, um dia. Espero que uma obra póstuma, pra pagar o meu enterro, e o da viúva. Mas eu não consegui nenhum trabalho decente esse ano. O único trabalho decente era uma história em quadrinhos, que eu não queria fazer. Então o que eu conseguir dobrar os caras é fazer uma história com um desenho por página, num formato horizontal. É meio uma tela de cinema, onde entra o texto e imagem. Eu não gosto do resultado, mas é um trabalho, preciso trabalhar.

E por que não gostou?
Mutarelli. Porque não consigo a mesma liberdade que consigo nos meus cadernos, por exemplo. Eu queria uma coisa mais libertária, uma coisa mais experimental. Acho que a gente tem que recuperar um pouco o experimental, no bom sentido. Eu não quero… O fato de você se profissionalizar é muito perigoso. É muito perigoso você se acostumar no que dá certo e ficar fazendo isso. Mas eu não quero isso, quero experimentar, no melhor sentido. “Experimentar” fica uma coisa meio… quero ter prazer no que eu faço e ter surpresa ou sei lá. Eu não quero fazer o que sei fazer. Eu não sei fazer nada, mas não quero aprender a fazer nada também. Esse quadrinho, cheguei num lugar muito morno. Talvez eu ainda salve isso, ainda estou no meio do processo.

[…]

Estava pensando nisso, que o Ziraldo falou pro [Milo] Manara, na palestra dele: “Manara, o pessoal no Brasil não lê, não existe essa cultura”. Aqui, a televisão fez muitas vezes o papel do livro, ela é muito mais forte aqui do que a literatura. E as pessoas sabem ler imagem muito bem. O Brasil tem esse potencial e o quadrinho faz esse meio de campo entre o audiovisual e a literatura.
Mutarelli. A TV tem um problema seriíssimo. Quando eu era novo, gravava muito filme em VHS. A Globo, por exemplo, passava Fellini de madrugada. Mas teve um ponto em que a Globo estava muito ameaçada pelo SBT e ela baixou o nível para se equiparar. Não sendo preconceituoso nem nada, mas o nível caiu absurdamente. Quando abriram a porta para o sertanejo – não estou sendo preconceituoso, acho que tudo isso merece espaço, mas eles abriram demais, isso era lucrativo e eles largaram mão de tudo. Ainda temos a TV Cultura, ainda tem uma resistência. E a gente está sempre em transição, é um momento em que… quando isso deixar de dar dinheiro para eles, talvez voltem a recuperar alguma coisa. Acho que são essas transições, mas teve um momento em que a TV descuidou demais da mínima qualidade do que veiculava. E sem dúvida, é cansativo, a pessoa trabalha o dia inteiro, fica horas e horas no trânsito, quando chega em casa, é muito mais fácil sentar, ligar uma TV e conseguir esvaziar um pouco a mente – o que é muito saudável – enquanto janta, descansa duas horas, para tomar o banho e pegar a próxima condução. Também acho que isso é importante, a telenovela, temos coisas bastante interessantes ali. Não sou preconceituoso, não acho que as pessoas devem falar tão mal de Paulo Coelho ou de… Tudo isso tem espaço. E tem valores, né? Mas o que tenho mais esperança é nessa molecada que faz a televisão dela na tela [do computador], vai atrás do que quer, se alimenta e se comunica rapidamente com o mundo todo. Isso é bastante interessante, pode trazer… Porque eu mesmo cheguei às grandes editoras porque alguém me descobriu numa pequena editora. As grandes editoras, os canais de televisão estão percebendo que existem pessoas pequenas e marginais que podem ser bastante interessantes para elas.

[…]

A íntegra da entrevista continua aqui.

A curiosidade com esse novo trabalho do Mutarelli é demais por aqui.

 

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