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O “machismo” de Giancarlo Rufatto

Escrevi este texto sobre o disco Machismo(2010) do Giancarlo Rufatto no ano passado para o site do Alto-falante e pedi ao Rufatto que fizesse um faixa a faixa bem livre sobre as canções do álbum. Tudo a seguir (e o texto até hoje ainda me parece interessante…).

“O lado positivo de fazer canções sem pretensão é poder tratar coisas pessoais sem preocupação maior do que divertir a si mesmo”. Esta frase, que está no “release sentimental” de Machismo (disponível para download aqui), álbum que o músico paranaense Giancarlo Rufatto lançou recentemente, sintetiza bem o que é o trabalho do sujeito: músicas sem a pretensão de cuspir verdades sobre a vida. Exceto as verdades pessoais. Rufatto vem de uma discografia calcada no estilo lo-fi de ser, com canções que sintetizam o cotidiano de um personagem urbano e, acima de tudo, a verdade do fundo do peito do autor. Transformando momentos em minutos existencialistas amparados por violões e melodias por vezes singelas e doloridas.

Rufatto sempre me pareceu a encarnação do personagem principal do livro Até O Dia Em Que O Cão Morreu (Companhia das Letras, 2007), de Daniel Galera. Principalmente por causa de músicas que revelam um estilo de vida urbano e dolorido de uma geração perdida nas amarras do cotidiano, algo como no livro de Galera. E o álbum Machismo é um apanhado disso. Canções como “Oquei”, “Desfaça as malas (e aceite o meu café)”, “Canção da espera” e “Curitiba, se você sorrir, lhe darei um doce” sintetizam esse lado do cotidiano, de cantar sobre as coisas da vida sem a pretensão de soar como poesia para a posteridade. Aqui a única pretensão parece ser a de registrar um momento. O momento em que o próprio autor vive. Canções que servem como um desabafo. Não mais que isso.

Ainda assim, as músicas acabam se transformando em retratos que sintetizam bem uma geração. Não a tal geração da nova música brasileira. Mas a geração do “cidadão comum” de classe média que trabalha para tentar pagar as contas no final do mês. Do “cidadão comum” imerso em uma adolescência tardia que sai da casa dos pais em busca da tão sonhada liberdade mas não consegue se virar sozinho. Do “cidadão comum” que tem decorado trechos e mais trechos de livros sobre cultura pop para usar em mesas de bar. Do “cidadão comum” que sonha viver um amor ao estilo das comédias românticas que Hollywood entrega a cada semana. Do “cidadão comum” que só quer ter uma vida melhor fazendo aquilo que gosta.

Todos os personagens do parágrafo anterior são identificáveis em meio aos versos de Giancarlo Rufatto que estão em Machismo. Não explicitamente, mas estão lá em entrelinhas e ideias. O disco une quatro faixas que ele lançou anteriormente (uma no Machismo EP, duas no EP Boas Festas E/Ou Single De Natal e uma no EP Canção Da Espera Ou O Fim Das Horas) com outras sete músicas inéditas. Sobre o nome do disco, Rufatto entrega que, “na teoria, o título ‘Machismo’ era uma avaliação sobre o caminho avesso que o homem médio fazia contrário ao feminismo, ficando mais sensível, mostrando sentimentos e outras coisas tipicamente ligadas à mulherada. Mas na prática é só uma piada sobre a total falta de jeito do homem para com os relacionamentos. Mas o álbum é mais relacionado à vida comum mesmo, sem grandes arroubos. Apenas tentando viver e pagar as contas”.

Machismo vem acompanhado de um “disco de covers” com as músicas “Não aprendi dizer adeus” (Leandro & Leonardo), “Eu sei, perdão” (Verde Velma), “Fake plastic trees” (“cover de Bob Dylan fazendo cover de Radiohead”, segundo Rufatto), “A garota na sua cama” (cover do próprio Rufatto) e “Inbetween days” (The Cure). O músico relata que “tocava há algum tempo essas versões. Na faculdade tinha até uma brincadeira de pegar uma música de fulano e executá-la como se fosse de ciclano. Exemplo: ‘como seria se o Pavement regravasse ‘Disarm’, do [Smashing] Pumpkins?’ Então surgiam coisas como Johnny Cash cantando ‘Bones’, do Radiohead, e ‘Paradise City’, do Guns [n Roses]. E Dylan tocando ‘Fake plastic trees’”.

Rufatto é um sujeito que escreve e canta com a sinceridade de quem só quer fazer aquilo que lhe agrada em busca de um pouco de diversão e desabafo pra que os dias caminhem de um jeito mais agradável. Com isso, a produção aparentemente tosca e desleixada das canções (lo-fi, ok?) reforçam o lado intimista e pessoal do trabalho do músico que parece compor para agradar a ele mesmo. Não mais que isso.

Para falar sobre as músicas de Machismo, ninguém melhor que o próprio Giancarlo Rufatto.

1 – Oquei foi a primeira a ser escrita. A letra está num disco do meu alterego “lo-fi dreams”, mas com outro direcionamento. A canção fala em aceitar o que sente pra tentar levar a vida pra frente – o que não dá muito certo. Na real, a maioria das pessoas simplesmente não estão prontas para conhecer o outro a fundo.

2 – Desfaça as malas (e aceite o meu café) é sobre estar sempre por um fio para desistir de tudo, estar sempre na defesa, sempre com a mala pronta para ir embora.

3 – Machismo é uma historinha com os clichês dos relacionamentos: o rapaz que tem de ser o durão, a moça que tem de ser a sensível. A primeira estrofe eu queria que soasse como uma luta de boxe entre o que você é e o que você sente. A segunda estrofe é a parte da mocinha, elas fazem drama, mas sempre se dão bem no final “hey, meu bem, sempre haverá outro ombro pra te cuidar”. E pra gente? Pra gente sempre haverá o bar.

4 – Frases de caminhão não são clichês Essa é sobre meu avô, que era caminhoneiro, e sobre minha família. O homem passou a vida e morreu na estrada. Meu pai é caminhoneiro, meus tios.

5 – Dois braços é uma canção sobre ter de acreditar todos os dias. As pessoas ouvem a palavra fé e pensam em religião, mas fé serve pra qualquer coisa, até pra loteria. E fé é uma coisa estranha. Na maior parte do tempo é “ou você tem ou não tem”, mas tem de ficar sempre se provando, sempre olhando por cima do muro como é o outro lado.

6 – Canção da espera Esperar, esperar, esperar. O que você faz enquanto espera? Eu fiquei fazendo canções enquanto esperava que ela viesse morar comigo. Ela não veio e aqui está um disco com 11 canções – sem contar os b-sides dos singles, canções desprezadas e outras canções que entrarão no disco da Hotel Avenida.

7 – Curitiba, se você sorrir, lhe darei um doce Essa é sobre um dia na vida da cidade. Gosto de Curitiba. Gosto de uma cidade que não se ofende por ser comparada à minha mãe ou a mulheres malucas que mudam de ideia o tempo todo.

8 – Chocolate & flores é sobre meu pai de sangue. Não me relaciono com ele, não sei nada sobre a vida dele, é tipo um tio bem distante. Essa letra é bem dura e talvez, num futuro distante, eu me arrependa de ter escrito. Mas hoje, não.

9 – Coração cheio é como a história da mulher que achou uma cobra congelada, levou pra casa e cuidou dela. Aí quando a cobra ficou boa, mordeu a mulher. Moral da historia: há certas coisas que simplesmente não podemos fingir. Podemos mentir, pelo menos não por muito tempo.

10 – Meu terrorismo foi a última canção a entrar no disco. Adoro essa letra pequenininha que fala sobre coisas ruins que as pessoas fazem a outras pessoas todos os dias – a pior destas coisas é jurar amor incondicional.

11 – Achados & perdidos o teclado da música denuncia: canção brega. Todas as canções do disco são meio bregas, mas essa é mais. O título, o arranjo, o assunto (o que se ganha e o que se perde de cada pessoa que se conhece por aí), o refrão, etc. Eu queria que a canção fosse meio Roberto Carlos, meio Erasmo, mas acho que ficou, no máximo, meio Sergio Reis indie, meio Amado Batista lo-fi.

Foto: divulgação (Albert Nane)

Published in música

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