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A festa terminou

Texto sobre vida e morte de Amy Winehouse que escrevi para o Alto-falante. Brinco que este é um texto brega. Mas no fundo é apenas um texto sincero. Enfim…

Imagine uma famosa cena do senso comum: um suicida prestes a pular do alto de um prédio enquanto pessoas o acompanham lá de baixo e gritam insistentemente “Pula! Pula! Pula!”. Esta foi a vida de Amy Winehouse, a maior cantora da música pop neste início de século. Vida que teve fim hoje (23/07), quando ela foi encontrada morta em sua casa, em Londres, aos 27 anos. O motivo? Não importa tanto agora.

Amy teve sua vida exposta sem dó nem piedade como em um Big Brother elevado ao extremo. Cortesia da mesma indústria que a criou, a do entretenimento. Criar deuses, alimentar monstros e empurrar restos mortais de seres humanos escada abaixo faz parte do jogo e paga as contas de muita gente ao redor do mundo. Mundo que Winehouse teria aos seus pés se quisesse. Talento para isso a mulher tinha. Sua potência vocal e, principalmente, sua entrega nas composições lhe garantiram uma espécie de status de voz dos corações desamparados em momentos de escuridão. Sinceridade geralmente causa identificação. E se identificar com algo que um artista canta faz com que a admiração por ele seja crescente e envolvente. Algo como um masoquismo do coração: cantar sobre nossa dor costuma trazer conforto de um jeito estranho. Desabafar faz bem, dizem os melhores amigos. E na falta de uma boa conversa, canções funcionam melhor que qualquer papo ou remédio.

Ao que parece, Amy não queria ter o mundo aos seus pés. Ela só queria a felicidade, essa coisa que todos nós buscamos. E a felicidade estava em seus amores. Mas diante da impossibilidade de viver tal sentimento, ela encontrou amparo no álcool e em outras drogas mais pesadas. O resultado foram anos vivendo em uma festa que nunca terminava. Bebidas, partes íntimas expostas, brigas e afins lhe garantiam mais destaque mundo afora do que sua música, essa coisa que ficou em um segundo plano.

Polêmica era seu nome do meio. E sofrimento deveria ser seu apelido. Mesmo cantando que não prestava, aquele olhar tristemente perdido em meio a flashes nunca escondeu a fragilidade dos sentimentos de Amy Winehouse. Seu coração partido geralmente estava escondido em bebidas, mesmo que ela soubesse que as respostas não estavam no fundo de um copo. Além disso, Amy era e ainda é um exemplo visceral e dilacerante daquilo que todo mundo tem na família ou, muito longe, na vizinhança: dependentes químicos. E às vezes companhia, carinho e atenção podem funcionar mais que uma Rehab, arrisco.

Resumidamente, Amy Winehouse amou demais. E sofreu em iguais proporções. Um claro exemplo dessas pessoas que querem viver intensamente o amor, mesmo que fora dos padrões. E ela estava certa. A vida corre e corre e nem percebemos. Chega uma hora que tudo acaba (com 27 anos ou não). Até que surge o momento em que o suicida finalmente pula do alto do prédio. A festa termina, alguns cospem um “já vai tarde” e a vida continua até que o próximo espetáculo comece. Ainda assim, Amy também viveu demais. Viveu intensamente e à maneira dela, é verdade. Mas viveu. E tomara que agora ela seja lembrada pela música que deixou. Não mais que isso.

Published in música

5 Comments

  1. “Ao que parece, Amy não queria ter o mundo aos seus pés. Ela só queria a felicidade, essa coisa que todos nós buscamos.”

    Lindo texto Lafa.

  2. Sandra Sandra

    Muito bom o texto. Um dos melhores sobre ela que li até agora. Lamentável os comentários desnecessários que venho lendo sobre a cantora.

  3. Lafaiete, adorei o texto! Bem sentimental. Escrevi sobre ela também e arrisquei dizer que Amy hoje dá reflexo a uma falsa moralidade. Em vida, suas atitudes foram aplaudidas, quanto mais escândalos melhor. Depois de morta, tudo o que ela viveu passou a ser motivo de lamentação. Em um surto de hipocrisia, Amy de repente teve sua vida descrita como uma “crônica de uma morte anunciada’. Ora, por que não se lamentava sua bebedeira antes nos tabloides, e só agora sua vida anunciava sua morte? É revoltante.

    Do meu texto: “A mesma imprensa que vendia e ria de seus escândalos, hoje os trata com piedade, fazendo parecer ela o fruto da fraqueza e símbolo da moralidade. Antes, quanto mais peitos expostos, quanto mais droga, melhor, hoje, tudo aquilo foi o anúncio de uma morte prematura e penosa.”

  4. Bel Fonseca Bel Fonseca

    Olá. Gostaria de deixar meu comentário, sem nenhuma intenção de tirar o mérito do texto em homenagear a Amy. Como você disse, “ao que parece”. É muita pretensão, especulação e leviandade achar que sabemos quais eram as questões existenciais de Amy Winehouse. Dessa maneira, caímos no senso comum ao inverso: em defesa dela, o que é louvável, focamos na vida pessoal e projetamos nossas próprias intenções nela. Afinal, você não pode ter certeza de nada do que falou em seu texto. Quem disse que a intenção de Amy em suas músicas era de fato retratar sua vida tal qual ela era? O que tem nelas de realidade e ficção? Isso é o que pensa a mídia, que não consegue discernir sujeito autor de sujeito biográfico, e coloca a vida pública das personalidades como a única de suas facetas. Além disso, nós sabemos que o jornalismo é um recorte dos acontecimentos e não um espelho do real. Não podemos ser ingênuos e imaginar que esse recorte de Amy representava sua vida. Se devemos nos lembrar da música boa que ela deixou, que tal então escrever sobre a música boa que ela deixou? Abs,

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