Skip to content →

Entrevista com Romulo Fróes

Entrevista que fiz com o Romulo Fróes para o site do Alto-falante:

Romulo Fróes, além de ser possivelmente um dos maiores pensadores da nova geração da música brasileira, é também um artista com um trabalho peculiar que merece atenção. Entrevistas com ele no Scream & Yell e no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo comprovam o lado “pensador” que está estreitamente ligado ao seu trabalho e que, em alguns momentos, até coloca uma sombra em sua obra. Do outro lado, o já clássico álbum No chão sem o chão, um dos melhores discos de 2009 e o mais emblemático de sua carreira até agora, comprova seu valor e singularidade artística.

Este ano Romulo Fróes apresenta um novo trabalho, o disco Um labirinto em cada pé, que tem a “difícil tarefa” de suceder o elogiado No chão sem o chão. Enquanto este era mais rock e experimental, no qual Fróes tentou se afastar da alcunha de sambista que ganhou com os discos Calado (2004) e Cão (2006), Um labirinto em cada pé volta a ter o samba como um elemento forte entre as composições. Sobre isso, ele revela: “A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba”. O resultado é talvez seu álbum mais acessível. Ao mesmo tempo em que assume o samba e as raízes da música brasileira, também assume o pop ao lado de um experimentalismo sem cair em uma sonoridade não assessível, pelo contrário.

O Alto-falante conversou Romulo Fróes sobre o novo álbum, parcerias, banda dos sonhos, entre outras coisas.

Você é formado em artes plásticas. Como ocorreu seu envolvimento com música?

Meu envolvimento com música como muita gente, é familiar. Meu pai, apesar de não ser um músico, é um grande cantor e um apaixonado por música brasileira pré-bossa nova. Desde muito cedo ouvi ele ouvir e cantar junto com os discos de Orlando Silva, Francisco Alves, Custódio Mesquita, Jacob do Bandolim, Jamelão, Lupicínio Rodrigues e uma infinidade de outros artistas. Esse amor e esse gosto “severo” por música, eu herdei do meu pai. Mas se existe dom, desde cedo meu dom natural foi para o desenho, eu queria ser desenhista, artista plástico, daí construí um caminho nesse sentido, até chegar ao Nuno na bienal de 1994, quando o ajudei pela primeira vez.

O Nuno Ramos é artista plástico e também é seu parceiro musical. Qual a importância dele para você, para sua carreira?

Já não trabalho mais pra ele hoje, mas a importância de ter trabalhado com o Nuno é fundamental e definitiva na minha vida, entrei em contato com um mundo que nunca entraria se não trabalhasse com ele. Aprendi e aprendo coisas que nenhuma escola ensina, meu convívio com ele e depois com o Clima é que moldou a canção que eu faço, meu trabalho não existe sem os dois.

O novo trabalho lembra mais o segundo disco [Cão] do que o terceiro [No chão sem o chão]. Ainda assim, o Um labirinto em cada pé soa como uma continuação terceiro álbum, mas com um pé mais no samba, coisa que você tentou se afastar um pouco com o No chão sem o chão.

Não sou sambista, mas lido com o samba porque afinal sou um compositor de música brasileira e tenho esse direito. O No chão sem o chão serviu a este propósito. Descolar de mim a pecha de sambista que haviam me atribuído. A brincadeira é que agora que eu me libertei do rótulo de sambista, eu posso voltar a fazer samba.

Resumidamente, o álbum Calado é um samba mais triste, o Cão é essencialmente samba e o No chão sem o chão é mais rock, experimental. Você conseguiria dizer o que o disco atual reflete? Ele me parece algo como um samba mais pop…

Acho que é um disco de conclusão, de um processo realizado ao longo dos meus três primeiros álbuns. Exercitei minha composição nesses três discos, me valendo de toda a história da canção brasileira, muito centrado no samba, mas passando por todos os ritmos que compõe nossa música. Acho que tive mais acertos que erros, mas o mais importante é que criei uma base sólida de canções, que sustentam esse disco que lanço agora. É por causa dos outros álbuns, que acho que minha “voz” se individualiza nesse disco, acho que posso dizer que finalmente criei um vocabulário próprio dentro da canção brasileira. Quem ouvir o disco dirá se tenho razão.

Seu canto está menos “monótono” no novo álbum, no sentido de “menos linear”… Isso foi pensado? Você acha que está cantando melhor em Um labirinto em cada pé?

Definitivamente eu estou cantando melhor e isso obviamente se deve a prática, mas também a um desejo de atuar nesse sentido. Meu canto é muito influenciado pela bossa nova e por isso pode tender a monotonia como você disse. Sem querer perder essa austeridade que carrego na voz e que é uma marca minha, eu busquei soar mais expressivo nesse disco e acho que acabei encontrando um equilíbrio bom entre um canto mais para baixo, quase declamado e um canto mais para “fora”, interpretado.

A Nina Becker aparece em boa parte das canções do álbum em coros e backing vocals. O que ela representa para você e para o seu disco? E por que você não convidou outras cantoras além dela e da Dona Inah, por exemplo?

Continuando nesse desejo de “mexer” no meu canto, houve desta vez, como aconteceu em outros discos com a guitarra por exemplo, a vontade de explorar novas texturas musicais, novos caminhos melódicos, só que agora através de coros e backing vocals. A Nina é muito mais que só uma participação especial no disco, ela faz parte da banda, atua de forma determinante nos arranjos e na estética dele. E é a ponte com a minha geração, reverbera seu próprio trabalho no meu. Diferente da Dona Inah, que já parte de algo histórico, estabelecido, que é o samba e sua voz nos lembra disso, da influência e da permanência do samba na música brasileira. Dona Inah ao mesmo tempo que traz essa “verdade” ao disco, mostra também minha aproximação e o modo como me relaciono com esta tradição.

Como rolou a parceria com Arnaldo Antunes em “Rap em Latim”? Dos artistas “grandes e antigos” do Brasil, ele me parece ser um dos mais acessíveis com essa nova geração da música brasileira. É isso mesmo?

Exatamente, faz tempo que o Arnaldo está ligado a essa turma. Sua banda, por exemplo, é formada por músicos dessa geração como Marcelo Jeneci e Curumin e seu último disco foi produzido pelo Fernando Catatau do Cidadão Instigado. Mais recentemente, ele estreitou essa ligação, nos colocando em contato com uma geração de artistas consagrados em seu novo programa na MTV, Grêmio Recreativo. É de suma importância pra nós essa ponte que ele faz. De minha parte, ainda não realizei um desejo antigo que é me tornar parceiro do Arnaldo, por quem nutro uma admiração imensa. Dei um primeiro passo com a participação dele no disco como cantor e tenho muito orgulho disso, mas ainda quero muito fazer uma canção com ele, uma que seja.

Quais os maiores perrengues que você teve na produção do álbum?

Talvez a maior conquista da minha carreira seja meu relacionamento com a minha gravadora, a YB. Tenho a minha disposição um dos melhores e maiores estúdios do Brasil e um gênio da engenharia de som que é Cacá Lima, um dos sócios da YB, responsável pela sonoridade do meu disco novo. Conto também com a ajuda inestimável de Maurício Tagliari e Luca Raele, outros dois sócios e ex-integrantes do extinto grupo paulistano Nouvelle Cuisine, que são diretamente responsáveis, por exemplo, por eu estar cantando melhor nesse disco. Maurício, além disso, produziu o disco junto comigo. Acontece que a YB não ganha dinheiro comigo, ainda não, então preciso entrar na fila do estúdio que está sempre ocupado por trilhas de cinema e de publicidade, que é o que sustenta a produtora, além dos outros artistas que compõe a gravadora. Este é o maior perrengue, ainda mais pra um artista como eu que tem uma produção imensa de canções, ser paciente, aguardar minha vez de entrar em estúdio, mas esteja certo de que vale muito a pena, muito mesmo!

E qual o grande barato que você sentiu ao ver o disco pronto?

O mesmo de sempre, de um ciclo que se fecha. Pegar o “objeto” disco na mão, olhar o encarte, colocar o disco pra rodar, dá uma sensação de trabalho realizado que só um disco pode dar, por isso não acredito no seu fim. E uma sensação diferente de ver sua música disponibilizada na internet, que também é boa, mas é diferente.

Qual a necessidade que você tem em fazer música?

A mesma que eu tenho pra respirar.

Se você pudesse falar alguma coisa com Caetano Veloso, o que seria?

Muito obrigado.

O Caetano pegou uma galera nova para montar a Banda Cê – Pedro Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo). E se você pudesse fazer o caminho inverso: escolher alguns músicos das antigas para montar uma banda, quais seriam?

Eu montaria a banda do Farinha do Desprezo, disco do Macalé. Lanny Gordin, com quem já tive a honra de tocar e gravar, Tuti Moreno e o próprio Jards Macalé. Porque para mim talvez seja o maior som de banda que a música brasileira já teve.

Você tem pensado no formato para a banda que te acompanha nos shows? Algo que te possibilite rodar mais… Como está isso com o novo álbum?

Compliquei um pouco mais minha vida nesse show novo, porque adicionei mais dois músicos na banda que antes era formada por Guilherme Held na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Pedro Ito na bateria. Agora ela conta também com o Rodrigo Campos no violão e cavaquinho e Thiago França no saxofone. No meu último disco tinha uma formação bem reduzida, com apenas um trio de músicos além de mim, nem por isso aumentou a demanda por shows, tocar fora de São Paulo continuou uma missão muito difícil. Não penso na formação da banda nesse sentido, de viabilizar os shows, não pensei nisso quando era um trio, não penso agora que é um quinteto. Quem sabe não toco até mais, agora que tenho que carregar mais gente.

Você já havia disponibilizado o disco No chão sem o chão para download gratuito em alguns blogs. Agora você mesmo criou um blog para disponibilizar o Um labirinto em cada pé. Por que essa “mudança”?

Porque a sensação geral não era a de que eu tinha disponibilizado e sim de que os blogs tinham feito isso. Dessa vez, quis deixar claro que eu sou a favor de disponibilizar minha música, das mais diversas maneiras existentes. Seja baixando o disco novo por inteiro, seja pra ouvir em streaming, pra baixar faixa a faixa, seja pra comprar o disco físico mesmo. Está tudo lá no blog que eu criei, todos os caminhos a seguir. Tudo certinho, organizado, com as informações técnicas do disco, o encarte, o lindo texto de apresentação feio pelo Francisco Bosco e tudo mais.

Você acredita que quanto mais pessoas fizerem o download do teu disco, você vai conseguir viver de música? Aliás, como você vê essa questão de “viver de música”?

Não tenho a menor dúvida disso. Ano passado toquei em um festival em Belém, o Conexão Vivo e muitas pessoas pediram e cantaram músicas minhas no show. Foi uma surpresa e uma alegria imensas. Meu disco não está à venda em Belém, foi através da internet que elas conheceram minha música. Quanto mais e mais gente conhecer minha música, mais a possibilidade de viver da minha própria música aumenta.

Você é uma espécie de “pensador” dessa nova música brasileira. Tem entrevista em que você fala de tudo sobre essa nova geração, de menos da sua música, dos seus discos. Isso te incomoda? O que você acha disso?

Me incomoda sim, mas entendo também. A gente passa por um momento de grande transformação nos meios de produção e difusão de música e todo mundo está procurando entender o que é isso e qual o futuro da música produzida hoje. Mas acho também que, passado uma década dessas transformações, o interesse pela música que a minha geração produz, aumenta cada vez mais. Estamos vivendo um momento muito rico dentro da história da música brasileira e as pessoas começam a se dar conta disso.

E o que podemos esperar do Romulo Fróes daqui para frente?

Canção, canção, canção.

Foto: Divulgação (Fernanda Prado)

Published in entrevista música

2 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *