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Entrevista com Bonifrate

Entrevista que fiz com o Bonifrate para o site do Alto-falante. Ele está lançando disco novo, mas a ideia da entrevista era ser mais ampla mesmo. Ir além do disco e “desvendar” um pouco do universo particular do sujeito. O legal é que, ao contrário do clima “viajandão” do trabalho dele, Bonifrate se mostra um cara bem sóbrio e ciente das coisas que faz. Não é ninguém “fritado”. É isso.

Bonifrate tem um mundo só dele.

Um mundo em que seres místicos e psicodélicos vivem ao lado de gatas loucas e fantasmas. As referências podem até parecer meio batidas, mas no mundo particular de Bonifrate, esses elementos caminham em harmonia. Prova disso é seu novo álbum solo, Um futuro inteiro (disponível para download gratuito), que chega em 2011 com gostinho de mofo de décadas passadas. Dentro de sua discografia solo, este é seu terceiro disco cheio, que vem depois de Sapos alquímicos na era espacial (2002) e Os Anões da Villa do Magma (2005), entre alguns EPs pelo caminho.

Bonifrate é uma das cabeças por trás da banda carioca Supercordas, que tem no currículo o bem falado Seres verdes ao redor (2006), uma espécie de encontro entre Sá, Rodrix e Guarabyra com Syd Barrett e Brian Wilson no século XXI. E enquanto o Supercordas não lança um novo álbum, o músico coloca na mesa seu trabalho solo mais bem produzido até agora, mas ainda assim dentro do esquema lo-fi, que já é uma “característica” de sua obra. Sobre isso ele fala: “Eu sempre fui um entusiasta da falta de recursos como campo criativo, mesmo que por necessidade”. E essa falta de recursos não diminui o resultado do trabalho ou algo do tipo, apenas faz com que tenha uma pegada ainda mais peculiar dentro do vasto campo de álbuns produzidos e disseminados a cada folha virada no calendário.

Bonifrate vem de uma escola que mistura folk, prog rock, psicodelia, rock rural e folhas verdes. Para conhecer um pouco mais sobre o sujeito, o Alto-falante teve uma conversa que vai além do novo álbum.

Boa viagem.

Lembra quando você fez sua primeira música?
Lembro, mas tento esquecer (risos). Era uma canção bem bobinha, escrita em inglês, sobre uma menina de quem eu gostava. Meu quarto em Parati tinha uma vista pra estrada, e eu ficava ali de plantão esperando ela passar de bicicleta. Depois eu tentei jogar no limbo essa canção, porque não gostava nem um pouco dela, e considerei a primeira de verdade um épico psicodélico em 3 movimentos chamado “Mushroom World”, que escrevi logo depois. Era igualmente boba, mas eu não tinha vergonha dela, e alguns dos meus amigos gostaram. Então eu comecei a escrever mais e gravar fitas pra dar pra eles.

Alguns sintetizam seu trabalho como folk, mas acredito que vai um pouco além do estilo… O que pensa disso?
Eu acho que folk não é só uma palavra de quatro letras (com o perdão do trocadilho). Não dá pra traduzir simplesmente como “folclore” e, se desse, eu diria que não tem nada a ver com o que eu faço. Tem a ver na medida em que se inventou essa tradição do “folk contemporâneo” em meados do século XX, e essa tradição foi se transformando, se diluindo em outras, se despolitizando, até que passou a se referir mais à forma do que à substância, mais a um cara com um violão de aço e um suspendedor de gaita do que ao teor político e trabalhista das letras, ao que ele estava operando ali com aquela parafernália. E eu toco com um violão de aço e um suspendedor de gaita, então a primeira coisa que deve vir à cabeça de quem assiste é… “folk”. E com essa certa razão.

Por outro lado, as palavras podem não definir, mas ajudam. Quando me perguntam qual é o esquema do show, eu posso até dizer que é “space folk”. Como “estilo”, acho que o som vai além, pode chegar ao prog, ao rock psicodélico, à marchinha, até ao synth pop; mas como uma palavra polissêmica, eu diria que o folk é que está bem além de mim.

Como foi o processo de produção de Um futuro inteiro?
Durante alguns meses em 2009 e 2010, eu passei por um desses surtos de composição. Vinha escrevendo umas duas canções por semana, e todas se relacionavam de alguma forma ao que estava acontecendo na minha vida, essa necessidade que as canções suprem de botar as coisas da vida nos seus “devidos lugares”. Mas esses “devidos lugares” não são como uma prateleira de discos ou um catálogo de biblioteca, e esse processo envolve justamente desorganizar os eventos pontuais em um todo mais ou menos coerente que não existe aqui e agora, existe em outro espaço-tempo, que é o das canções. É esse o espaço-tempo que me interessa. É o que rege o processo, e é o que rege a vida.

O processo de gravação foi bem simples (mas não necessariamente fácil). Gravei sozinho, no meu quarto, com uma placa de som USB, um notebook e dois microfones. Tive essa força incrível dos meus amigos e companheiros musicais, fazendo participações que realmente mudaram a cara do disco, e sempre pra melhor. Filipe Giraknob, Alexander Zhemchuzhnikov, Sandro Rodrigues, Augusto Malbouisson e Diogo Valentino: eu faço questão de citá-los, porque foram um refresco coletivo indispensável ao individualismo do resto do processo.

Até agora você tinha dois discos cheios e alguns EPs lançados. Sempre num esquema mais lo-fi… O Um futuro inteiro está mais “produzido”. Isso foi pensado? Por que você acha que isso ocorreu?
Acho que foi uma consequência lógica das transformações digitais desses anos. O primeiro disco, Sapos alquímicos na era espacial (2002), foi feito num gravador de fita de 4 canais; o segundo, Os anões da Villa do Magma (2005), já foi gravado no computador mas ainda estava tateando no escuro das novas possibilidades. Ainda acho Um futuro inteiro bem lo-fi, mas de um jeito diferente. No Anões, eu e Valentino (que mixou comigo) procuramos disfarçar a sonoridade digital. Eu gravei só percussões, não tem baterias programadas, só usamos plug-ins bem básicos, soa mais orgânico. Um futuro inteiro não teve essa preocupação. Aceitei fazer um disco lo-fi digital, que soa digital, sem preciosismos analógicos. Foi a verdadeira “farra do plug-in” (risos). Em outras palavras, eu sempre fui um entusiasta da falta de recursos como campo criativo, mesmo que por necessidade. Essa falta de recursos só mudou de forma. Ficou mais fácil emular digitalmente os recursos que faltavam.

Você costuma fazer uma divisão das músicas que compõe que entram no repertório do Supercordas ou no seu repertório solo? Como isso funciona?
Isso funciona de maneira bem pragmática. Se tem um disco solo no horizonte, eu escrevo pra esse disco, e se tem um dos Supercordas, escrevo pra ele. Mas às vezes pode sair uma canção que me pareça cair melhor como Supercordas, então eu boto na roda. Não tem regras rígidas, não tem porque ter. Por exemplo: tem uma canção nova que ficou de fora do álbum, mas que vai entrar num EP de extras e remixes. Eu fiz uma versão solo (junto com o Valentino), mas quero tocar com os Supercordas também porque é simplesmente a cara do som que a gente tem pensado em fazer depois.

Então tem esse EP a caminho… Já tem alguma coisa mais definida?
Não muito, mas deve constar de umas duas inéditas que não entraram no disco, um ou dois remixes, algo por aí.

Não dá pra fugir: e o novo disco do Supercordas, alguma previsão? Como anda a produção dele?
Prefiro não prognosticar. Tem sido uma grande saga dramática isso aí. Mudamos de idéia mil vezes sobre como gravar, com base nas circunstâncias, nas propostas, em mil idas e vindas. Temos bastante material já gravado, e posso dizer que estamos todos resolvidos a terminar logo, e com os recursos que nós temos e aos quais podemos recorrer. Estamos já pensando no outro, e que não demore a começar.

Se falassem para você escolher um artista nacional e outro gringo para dividir o palco, quais seriam?
Não sei se gostaria tanto de dividir o palco com algum artista que eu admire muito, acho que ficaria muito nervoso. Quer dizer, a gente dividiu uma vez com a Fernanda Takai e foi incrível, porque ela é incrível e fez a gente se sentir mesmo em casa. Eu gosto de dividir o palco com meus amigos, e alguns deles estão entre os melhores artistas do Brasil hoje em dia.

E quem são eles?
Pra ficar só nos amigos compositores bem chegados, e pra não gerar uma lista enorme e esquecer um monte de gente, eu acho que Simplício Neto, Augusto Malbouisson, Sandro Rodrigues a.k.a. Digital Ameríndio e Stan Molina são alguns dos melhores escritores de canções que o Brasil já teve. Eu e Stan queríamos fazer qualquer coisa que tivesse como título “Some of my friends are some of the best composers of all times”. Pode soar coisa de grupelho, e provavelmente é porque é mesmo.

E qual a sua banda dos sonhos?
Tenho um pé atrás com essas bandas dos sonhos, vê só o Dirty Mac no Rolling Stones Rock’n’Roll Circus. Tem o Clapton, o Richards, o Lennon e o Mitch Mitchell na mesma banda, mas é claro que a música não soa tão bem quanto a versão do White Album. Minhas bandas dos sonhos são as bandas que existem e que eu amo. Provavelmente os Flaming Lips. Eles conseguiram ir mais longe na minha idéia do que é uma grande banda do que qualquer outra jamais foi.

Escolha um: Syd Barrett ou Brian Wilson.
Syd. Por motivos subjetivos, não porque eu ache ele maior ou mais talentoso que o Brian. Simplesmente porque a música do Syd de alguma forma modelou a maneira como eu escrevo canções. Está nas raízes desse impulso. A música do Brian eu demorei mais pra conseguir entender e absorver, tem mais a ver com a racionalização do que com o abismo pra mim, mas na certa ela também está lá, nas minhas eternas favoritas.

Entre essas suas eternas favoritas, você consegue listar cinco músicas que fazem parte do seu DNA, por assim dizer?
São tantas, essas. Eu consigo citar algumas tendo o disco novo em mente, canções que têm conexões com a ambientação do álbum e que sempre tocaram na minha cabeça desde a primeira vez que eu ouvi: “Cold brains” do Beck, “Da maior importância” do Caetano, “It’s all over now baby blue” do Dylan, “Grilos” do Erasmo e “Dark globe” do Syd. Eu só citei compositores homens cantando sobre tensões e desencontros. Não foi pensado, mas parece natural em se tratando de um disco desse tipo.

Quais suas maiores influências? Não só as musicais…
Das musicais, a gente acabou citando algumas nesse papo, então acho que já tá bom. Das extra-musicais, tudo pode entrar no feitio de uma canção. É uma questão de olhar os sinais do mundo e decodificar, desorganizar, organizar de novo pra que aquilo exista num outro plano, onde as coisas são mais duráveis, mais abrangentes em termos de linguagem e de interpretação. Eu existo de um jeito em que nada de relevante parece realmente ter se passado se não tiver sido antes processado por novas canções. As canções influenciam tudo, e não o contrário.

Quais artistas você tem ouvido recentemente?
Eu tenho ouvido muito essa banda italiana chamada Jennifer Gentle. Os ambientes sonoros deles são fantásticos, podem te levar do alto de uma árvore num dia ensolarado até um porão escuro e com cheiro de mofo em poucas notas. Não tenho me ligado muito em novidades, eu escuto as mesmas coisas de sempre frequentemente, volta e meia mergulho em alguma música do passado que eu não tinha explorado muito anteriormente (o Leonard Cohen por exemplo foi um dos últimos), escuto sempre os discos novos das minhas bandas favoritas e eles quase sempre me instigam (ainda não consegui parar de ouvir o Embryonic dos Flaming Lips, é tipo o melhor disco de todos os tempos), e também escuto o que a galera que eu conheço e admiro daqui tem feito, procuro acompanhar.

Vocês do Supercordas não têm mais o Estúdio Musgo, né? Como foi a experiência de ter e manter um estúdio?
Não, o Musgo fechou no final de 2009. Foi bem desgastante, porque tínhamos que fazer o estúdio funcionar comercialmente pra podermos pagar as contas, que nem sempre se pagavam. Mas foi uma baita experiência. Acabamos trabalhando em projetos de outras pessoas, seja gravando, seja compondo arranjos, tínhamos bastante tempo pra tocar sem nos preocuparmos muito com as horas de ensaio ou de gravação. Com certeza fez a gente crescer, com o que tinha e bom e de ruim.

Então ainda não chegaram naquele lugar de “viver de música”. Acha que isso ainda vai rolar um dia?
Nem perto desse lugar, e seria muito otimista dizer que sim. Não sou tão otimista, mas sou um pouco. Acho que as coisas podem melhorar, mas a continuidade e o desenvolvimento futuros da música pra mim já não estão ligados a viver dela materialmente ou não.

Qual sua relação com a cena musical do Rio de Janeiro?
Não sei se há uma cena. São muitas coisas diferentes acontecendo, frequentemente de forma esparsa. Eu não tenho relação alguma, por exemplo, com a cena do samba da Lapa. Simplesmente não faz parte do meu universo. Mas quase toda sexta-feira estou logo ali do lado, no Plano B, assistindo a algum concerto experimental, de improviso livre, etc. Muitos dos meus amigos e companheiros musicais fazem parte dessa “cena”, que tem se expandido pra outros lugares ultimamente. Eu e a galera dos Supercordas estamos sempre circulando por esses meios. Tocando em projetos de amigos, inventando novos projetos, etc. Mas é o Rio de Janeiro, né? Sabe como é, de repente você pode estar no meio de uma efeméride da Orquestra Voadora, ou de uma muvuca roqueira numa gig dos Vulcânicos, e tá tudo valendo.

E como você vê a aceitação ou mesmo a “curiosidade” por parte do público da cidade em relação ao seu trabalho ou dos seus parceiros musicais?
Nós Supercordas costumávamos alcançar mais gente em São Paulo do que aqui, mas eu acho que isso mudou um pouco. Tem uma galera se interessando pelo nosso som, e pelos outros sons, e muita gente nova, que talvez não estivesse ainda ouvindo música independente em 2003 quando nós começamos, e certamente não estava no fim dos anos 90 quando os Vibrosensores existiam, por exemplo. Mas é difícil perceber isso da nossa parte, eu acho. Não deixa de parecer que é sempre um grande e crescente círculo de amigos que vão aos concertos e que, de maneiras diversas, se relacionam com música.

Tanto a sua obra solo quanto com o Supercordas está disponível para download gratuito. Isso não parece ser um problema para vocês. Pelo contrário, né?
Claro, pelo contrário. É como a música se espalha hoje em dia. Não se pode esperar das pessoas que elas comprem um CD e muito menos que comprem um download. Não no Brasil. Pro bem ou pro mal, o download gratuito já é incontornável. Voluntária ou involuntariamente vai acontecer com todo mundo que lança um disco. Mas isso não conclui nem soluciona o problema que se criou com a ruína das gravadoras. Você tem um monte de gente no escuro tentando encontrar novas formas de sobreviver com música, e é claro que a maioria não consegue. As próprias bandas devem ter uma mentalidade empresarial hoje em dia pra serem bem-sucedidas, e eu não acho isso nada bom. Ter uma mentalidade empresarial não tem nada a ver com fazer música relevante, instigante ou criativa. São outros tempos, a música não tem mais o papel que tinha no século XX.

E qual era esse papel?
Bom, não é como se houvesse um papel específico ou uma vontade comum que unisse todas as manifestações musicais, mas eu acho que a música tinha uma ligação mais estreita com a sociedade, conversava melhor com o planeta e o espaço onde se dava essa conversa não era tão fragmentado quanto hoje em dia é.

Ainda assim você sente uma necessidade de lançar disco físico?
Ah, sim. Porque eu ainda sou uma pessoa do século XX (risos). Um futuro inteiro está saindo com tiragem limitada, num esquema semi-caseiro de produção, pela Cloud Chapel Records do meu amigo Stan. Ainda existe aquela galera que, mesmo podendo fazer download, vai querer ter o disco em casa, nem que seja pra botar na estante e ouvir o mp3 baixado.

E os próximos passos?
Agora estou pra começar a montar um concerto com os Demônios do Brejo ou alguma variação deles. Nos próximos meses devemos fazer algumas apresentações por aqui [Rio de Janeiro] e por Sampa, em outras cidades se rolar a oportunidade. Quem quiser ficar por dentro desses movimentos pode escrever pra bonifrate@gmail.com pedindo pra entrar na lista de notícias. Espero muito poder tocar esse show em Belo Horizonte logo mais, tenho muita saudade dos camaradas mineiros.

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Published in entrevista música

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