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Entrevista com Diogo Soares, do Los Porongas

Entrevista que fiz com Diogo Soares sobre o novo álbum do Los Porongas para o site do Alto-falante, logo antes dos shows que eles fizeram em Belo Horizonte.

Formada por Diogo Soares (voz), João Eduardo (guitarra), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria), a banda Los Porongas, uma das mais emblemáticas dessa geração, está com um novo disco cheio em mãos. O segundo depois do silêncio, posterior ao álbum Los Porongas (2007) e ao EP Enquanto uns dormem (2005), chega carregado de influências sobre a atual fase da banda na cidade de São Paulo. Nascido e criado no Acre, o grupo mudou-se para a capital paulista em 2007 e, desde então, vem caminhando com sua carreira dando passos que têm como prioridade a música.

O Los Porongas é emblemático por tudo que representa em relação ao que produz. Músicos acima da média unidos com um vocalista (e compositor) também acima da média que costuma cantar com emoção, despejando a alma em cima de um palco. Sem parecer forçado, há de ressaltar. Desses tipos que não são muito comuns pelas esquinas da música brasileira. E o resultado disso tudo é um som autoral que apresenta qualidade e ganha força com o álbum O segundo depois do silêncio.

O Alto-falante conversou com Diogo Soares a respeito do novo trabalho da banda, dessa fase na selva de concreto que é São Paulo, do envolvimento deles com a cena musical da cidade e por aí vai.

– Para começar: em “Bem longe” você canta “bem longe de casa / buscando chegar / quem voa sem asa / vai se acostumar”. Como foi o período de adaptação de vocês na nova cidade, novos amigos… O que aconteceu com a banda desde que vocês chegaram em São Paulo?

Muita coisa aconteceu e acabamos conhecendo muita gente. São Paulo tem isso de agregar quem está de passagem. No nosso caso tem muito haver com a música. Quando chegamos não conhecíamos ninguém e ninguém nos conhecia. Quatro anos depois eu tenho a impressão de que chegamos a São Paulo agora. Foi necessário um bom tempo para que encontrássemos nossa turma, ou mesmo para que a formássemos, eu diria. Acho que tem também o aspecto da mudança na vida de cada um dos integrantes. Isso foi muito drástico, até porque não morávamos juntos no Acre.

– Em que momento na história do Los Porongas vocês pararam para pensar em se mudar realmente para São Paulo? Quando vocês acharam que isso era necessário?

Não sei se houve um momento do tipo grito do Ipiranga, mas sei que em 2006, depois de rodar por cerca de 12 cidades brasileiras, o que era uma proeza pra uma banda do Acre até então, a gente sentiu públicos diferentes reagindo bem à nossa música. A banda começou em 2003 e desde lá sabíamos que se prosperasse e quiséssemos viver dessa música que aprendemos a fazer juntos, seria natural ir pra uma cidade onde o público de exceção fosse maior que no Acre e de onde fosse mais fácil e barato se deslocar. Se Rio Branco fosse onde fica Curitiba, talvez nós nunca tivéssemos saído de lá. Mas tem aquela coisa também, um grande pintor na renascença queria ir pra onde? Pra Florença, claro! Ou então ficava pintando retrato de nobre falido. São Paulo era a única opção para quem fosse mudar de Rio Branco querendo viver de rock quando tomamos essa decisão.

– Já pensaram no que poderia ter acontecido com a banda se vocês tivessem continuado no Acre e não fossem para São Paulo?

Nos conhecendo um pouco como já conheço, a banda poderia ter acabado. Quatro anos depois de sair de lá, vemos novas bandas se formando, espaços pra tocar surgindo, mas nada que sustente uma carreira, então imagine isso mais tempo atrás. Agora, é bem verdade que a banda podia ter acabado depois de nos mudarmos. Morar junto num lugar estranho, onde não existe amor, como canta o Criolo, foi difícil, mas nosso sonho era viver isso por inteiro, assumir ser artista para a vida e viver a história sendo uma banda que grava discos e faz shows. Isso falou mais alto.

O segundo depois do silêncio não é tão “ensolarado” quanto o primeiro álbum. Até o encarte reforça isso com o cinza. Vocês já falaram que o disco funciona como uma espécie de polaroide desse tempo de vocês em São Paulo, né? As composições dele seriam mais pessoais que no primeiro?

Acho que nossas canções sempre são pessoais, isso é algo em comum entre as músicas do primeiro e deste disco, tem a cara de cada um de nós. O que acredito que acontece n’O segundo depois do silêncio é que conseguimos imprimir nele as mudanças que aconteceram conosco neste tempo estranho, de adaptação e isso se mostra desde os timbres até as letras. São outros enfoques, outra forma de se expressar de cada um no seu instrumento, até porque nós quatro temos um processo de criação e relação com a música muito particular e diferente uns dos outros. Mas quanto às temáticas das canções, dá pra dizer que enquanto o primeiro disco tinha uma visão muito mais particular, no novo disco grande parte das letras coloca o eu lírico em situações de relação com outros seres.

– Existe alguma divisão nas composições da banda? Um faz isso, o outro faz aquilo… Como isso funciona?

Toda musica nasce de um jeito diferente. Não tem o songwritter, nem a dupla genial no Los Porongas, não existe um método. No primeiro disco eu fiz praticamente todas as letras, neste o João compôs vários trechos e o Anzol foi uma espécie de consultor, ou seja, se muda de música pra música, imagine de um disco pro outro. A gente pega a idéia do outro e vai transformando em uma obra coletiva a partir dos nossos talentos, referências e limitações. O Anzol, por exemplo, compôs várias melodias que foram a base pra gente começar a improvisar como em “Fortaleza” e “Silêncio”. Tem música que o Magrão só chega e cria o baixo, outras, como “Bem Longe” e “A Verdade”, são feitas a partir de uma linha de baixo que ele propôs e que carrega a canção. Todo mundo propõe coisas e começamos a tocar, aí vai surgindo a melodia, às vezes já com uma letra. Sem regras, nem fórmulas, nem tempo pré-determinado.

– O disco [O segundo depois do silêncio] está mais “pesado” que o anterior. Representa mais o que a banda é em cima do palco. Isso foi uma preocupação de vocês?

Que bom que tu achou isso! Todos nós achávamos que estava mais leve! E até me lembro de conversar com o João e atentar para isso, bem no início da pré-produção, mas o resultado que obtínhamos já no começo, em termos de canção, era tão agradável que ficou em segundo plano pensar o “peso” do disco. Acho que até preterimos o peso em detrimento da coerência. Às vezes é mais bonito uma viola caipira dobrando uma melodia com um piano que uma guitarra gritando alto, muito embora eu me amarre quando ela grite.

– O disco foi produzido por “João Eduardo, Carlos Eduardo Gadelha [d’O Jardin das Horas] e Los Porongas”. Como funcionou essa divisão e por que não foi produzido por “Carlos Eduardo Gadelha e Los Porongas”, por exemplo? Qual o papel do João no disco?

Isso me soa estranho mesmo lendo na pergunta e não na ficha técnica, mas é a única forma de dar os créditos corretamente. O processo de concepção e gravação desse disco foi lento e em cada etapa tinha alguém desempenhando um papel diferente. A banda levantou o som da pré-produção com o João tomando à frente disso, claro que com os meninos tocando e comigo cantando e interferindo na composição, mas quem fez toda a onda de estúdio, de comprar o MAC, os microfones certos, de se arriscar mixando o que gravávamos foi o João, então era como se ele fosse o produtor nessa época, até porque ele propunha muitas coisas em termos de arranjo, além dos instrumentos que ele tocava. Com a pré tivemos um norte da sonoridade que queríamos alcançar e muita coisa em termos de efeitos e mixagem já havia sido criada pelo João. Na reta final ele precisou se afastar das gravações e coube ao Carlos Gadelha, a quem já tínhamos incumbido de fazer a mixagem do disco, a tarefa de terminar de gravar e a liberdade de propor novos arranjos e edições nas canções, o que trouxe outras referências e imagens sonoras.

– Vocês chegaram a fazer uma espécie de pesquisa musical pensando no disco?

Acho que a pesquisa foi a mudança pra São Paulo. Os shows que a gente viu desde que chegou, as pessoas que conhecemos. Acho que os músicos que conhecemos e de quem nos tornamos amigos formam parte muito significativa das referências pra esse disco novo. Essa pesquisa foi a lei natural dos encontros agindo.

– Como rolou a história com Dado Villa-Lobos na música “Sangue novo”?

O Dado é um querido! Nos conhecemos através do Alex Antunes, que nos botou pra tocar juntos em nosso primeiro show em São Paulo, em abril de 2007. De lá pra cá já tocamos no Acre, no Rio e em Belém. Quando tocamos juntos no Rio, em 2009, num show em homenagem ao Chico Mendes, ele sugeriu que conhecêssemos o estúdio dele, o Lobo Mao, e gravássemos uma música pra sentir o clima. Passamos o dia seguinte gravando “Sangue Novo”, uma das únicas do repertório novo que estava pronta. Saímos de lá com a idéia de que voltaríamos ao Rio pra gravar, pois adoramos o som do lugar e a vibe da galera. Mas não rolava sair de São Paulo pra gravar noutro lugar. Como ele é um gentleman e um músico muito sensível, nos cedeu a faixa e ainda deu a dica: se o som do lugar for legal, comprem bons microfones, bons pré-amplificadores e gravem. E foi o que a gente fez.

– O estúdio Cambuci Roots, em que vocês centralizaram a produção e gravação do disco, fica na garagem da casa de vocês, né? Já rolou muita treta com os vizinhos por causa disso? [risos]

Risos porque num é tu! Rapaz, no Cambuci Roots nunca rolou treta, mas onde moramos por quase 3 anos foi um verdadeiro inferno. Ainda bem que acabou. Quando cada um foi morar num canto o Anzol foi cair no Cambuci Roots e eu moro numa rua atrás, o João mora perto também. Isso em São Paulo ajuda muito.

– Qual é a relação do Los Porongas com a cena musical de São Paulo?

Pra falar a verdade temos a impressão de que estamos chegando agora em São Paulo. Hoje temos uma vida social decente. Há quatro anos não conhecíamos ninguém e ninguém nos conhecia. Ainda bem que os amigos e os fãs se multiplicaram. Como não são muitos acreanos em São Paulo, nem tínhamos jeito de pseudo-londrino, ou éramos pernambucanos, ficamos um bom tempo sem turma. Mas o lugar se apropria de você e as amizades vão dando sentido a tudo, os encontros. Foi ótimo poder assistir e conhecer o Curumin, a Tulipa Ruiz, ou o Tatá [Aeroplano] e a turma do Cérebro Eletrônico, mas a relação de troca mais profunda e transformadora se deu mais intensamente com outros artistas de fora de São Paulo.

– E o papel do Mais Massa nisso tudo? Parece ser um esquema que vai muito além da música. É por aí mesmo?

O Mais Massa foi um resultado espontâneo do encontro entre músicos com trabalhos completamente distintos, numa cidade estranha e muito foda de se viver. Foi importante pra todo mundo em todos os sentidos que se possa imaginar. A gente, O Sonso, Saulo Duarte e a Unidade, O Jardim das Horas, Volver, Madame Saatan começamos a tocar juntos na Livraria da Esquina. Aí surgiu um sentimento de amizade e identificação que passou a unir todo mundo, mas cada um foi tocando sua carreira. O Mais Massa é além da música, mas foi só por ela que ele existiu, tanto que a gente quer lançar um disco com as composições que foram feitas no período em que essa movimentação começou. A amizade evoluiu para relações de trabalho muito sadias. A gente passou muito tempo querendo encontrar alguém que acreditasse que era possível ganhar dinheiro com a nossa música. E foi a partir do Mais Massa que começamos a trabalhar com Tiago Barizon, nosso produtor hoje, homem à frente do selo que lançou o novo disco, a Baritone Records (que tem um modelo de contrato que eu tenho certeza que vai ser objeto de estudo!). Ele foi um dos primeiros a incentivar a onda toda. A gente fica brincando de Tropicália e dizemos que até um Rogério Duarte teve, só que o nosso é um artista das palavras, um acadêmico estudioso e amante do rock e da literatura, sem dúvida uma das figuras centrais nessa nossa experiência coletiva. Não sei como esses dois aguentaram esse bocado de artista junto.

– O que o coro e as pessoas na música “Longo passeio” representam para vocês da banda?

São nossos amigos, é o que o Mais Massa deixou de mais importante, além das canções que fizemos, que acredito serem muito representativas do Brasil e do tempo em que a gente vive. Eu botei a maior pilha pra rolar esse coro. No dia da gravação rolou um churrasco e a galera tava num clima massa. Eu adoro isso de agregar, das pessoas se conhecerem e se disporem ao que pode acontecer de um encontro, de um show, de um happening, isso é o que mais me fascina na música. O poder que ela tem de conectar pessoas. Foi um tesão gravar aquilo. João e Carlos tiveram trabalho porque a cerveja correu solta. Nossas mulheres estão lá, o filho do Magrão; o Daniel Groove, que me fez enxergar novamente a poesia em São Paulo quando nos conhecemos; o Zeca Viana, que saiu da Volver e continuou em São Paulo pra tocar o próprio trabalho, o Saulo e o João Leão, que moram no Cambuci Roots, tanta gente. Na minha cabeça era pra ser uma mistura de “Travessia do Eixão” na versão da Legião Urbana com o [disco] Beach Boys’ Party!.

– Consegue definir o Los Porongas de 2007 e o Los Porongas de 2011 em uma frase?

“Saí pra dar um passeio pelo quintal do mundo e descobri que o universo é bem mais profundo”, é de uma música de um dos vocalistas mais doidos que eu vi no Acre, o Daniel do Lona.

– E como você acha que a banda vai estar daqui a dez anos? Ou não acha nada?

Daqui a dez anos eu quero que ainda sejamos amigos e estejamos em cima do palco emocionando as pessoas.

– Como foi o lançamento do disco em Rio Branco este ano? Teve um gostinho especial?

Sempre tem! Foi lotação máxima do mais importante teatro de Rio Branco. São sempre muito intensos os shows no Acre, talvez por uma mistura de saudade e orgulho do público em relação à banda.

– A banda já liberou O segundo depois do silêncio para download gratuito. Esse tipo de coisa não parece ser um “problema” para vocês, né?

Eu quero que o público acesse, possa ouvir, ter. Se quiser pagar a gente não acha ruim, não. Problema pra que, né? Eu quero é fazer show. Vou vender mais CDs no final do que em qualquer loja. E nem por isso vai deixar de ter na Fnac, ou na Cultura e onde mais se quiser vender o disco. Estamos vivendo uma mudança radical e ligeira. Em 2007 lançamos o primeiro disco e um ano depois, certamente menos de mil pessoas tiveram acesso a ele, porque só foram prensados mil, ainda que tenhamos disponibilizado pra baixar. Em 2011 lançamos o disco no Acre em janeiro e alguns meses depois decidimos incentivar o download gratuito e só o fizemos pelo Twitter e Facebook. Em menos de 48 horas mais de mil pessoas tinham baixado o disco.


Foto: divulgação

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