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Otto no Conexão Vivo Belo Horizonte

Depois do intervalo de alguns minutos desde o show anterior na mesma noite, do Cidadão Instigado, uma figura grande e desajeitada começa a caminhar entre os instrumentos em cima do palco, com as luzes ainda apagadas. É ele: Otto, que anda e corre de um lado para o outro enquanto os músicos de sua Jambro Band posicionam-se em seus lugares.

As luzes ascendem e a introdução de “Filha” ecoa pelo Grande Teatro do Palácio das Artes lotado. Nesta primeira música, Otto já pula e dança com aquele jeito estranho que lhe é peculiar. E a interpretação dele na música fica ainda mais pesada e intensa durante os versos “Aqui é festa amor / E há tristeza em minha vida”. Otto parece participar de uma constante sessão de descarrego de seus demônios desde o lançamento do álbum Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, em 2009. E o local escolhido é sempre o palco, aquele lugar sagrado.

Neste show, Otto estava bem melhor do que quando se apresentou no Lapa Multshow no ano passado, em Belo Horizonte. E já na segunda música da noite, “Janaína”, o músico chama o público para se levantar das cadeiras do Grande Teatro e participar da apresentação. Muitos já estavam em pé pelos corredores laterais do local. E após o chamado do pai Otto, o público em massa fica de pé em seus lugares e o músico quebra a barreira imaginária que existe entre público e artista quando desce do palco, caminha e canta em meio às cadeiras do local (dando trabalho aos iluminadores para localizá-lo em meio à plateia).

O repertório do show não fica preso ao último disco lançado (Certa manhã acordei de sonhos intranquilos), mas caminha por toda a discografia de Otto, reforçando que ele já tem uma história e público para se sustentar. Público que acompanha tanto as canções mais recentes, como “Saudade”, “Naquela mesa” e “Crua”, talvez a mais popular de seu repertório, por ter feito parte de trilha sonora em novela global (além das já citadas “Filha” e “Janaína”); quanto as mais antigas, como “Dias de janeiro”, “Condom black (stop play)”, “TV a cabo”, “Ciranda de maluco”, “O celular de Naná” e “Renault/Peugeot”. Hits particulares que fazem parte do repertório do show.

Além de caminhar entre as pessoas, outra forma de interação de Otto com o público são as suas já conhecidas conversas entre uma música e outra, com aquele seu jeito nonsense natural de ser. Frases desconexas, piadas internas e risadas entre os músicos da banda dão um toque especial ao show. O momento alto durante a apresentação nesse quesito talvez tenha sido a frase “o teatro é um centro belo”, agradecendo e refletindo a felicidade de tocar naquele palco de Belo Horizonte. Além de constantemente chamar o evento de “Conexões Vivo”.

Dentro do esquema de participações de artistas durante os shows da programação do Conexão Vivo, Otto convidou o rapper mineiro Renegado para cantar “Cuba” (canção que originalmente conta com o vocalista Chorão, do Charlie Brown Jr.) e mandar trechos de suas músicas. A participação, ou “conexão” entre os dois, indicou que faltou alguma coisa. Mesmo com toda a receptividade de Otto em relação ao rapper, a impressão que se teve é que faltou de fato uma conexão musical mais íntima, mais intrínseca entre os dois artistas. Em alguns instantes até a banda de Otto parecia meio perdida naquele momento. Talvez tenha faltado ensaio, talvez afinidade artística. Algo que realmente agregasse valor estético e musical à proposta do evento. A participação de Fernando Catatau (vocalista/guitarrista do Cidadão Instigado e guitarrista de Otto) no show do Renegado durante o Conexão Vivo de 2010 foi mais positiva neste sentido, por exemplo.

Após a participação do rapper, Otto mandou “Pra ser só minha mulher”, clássico brega de Erasmo Carlos e Ronnie Von, eternizado na voz de Roberto Carlos. E o show ainda seguiu por “O celular de Naná” e “Low” até chegar em uma versão emocionante de “Seis minutos”, música em que ele mais se entrega durante a apresentação e parece ser o auge de sua sessão de descarrego particular. Seus demônios e lágrimas do passado devem sair junto com o suor que escorre pelo seu corpo naquele momento. Otto acrescenta o nome de sua filha Bettina nos versos da canção, gritando “E você me falou de uma casa pequena / com uma varanda, chamando a Bettina pra jantar”. Isso diz muito sobre a música e sobre sua entrega durante aqueles poucos mais de seis minutos em que pode desabafar sobre sua vida por meio de sua arte.

Antes de encerrar a apresentação, Otto mandou “Homenagem à Olinda, Recife e Pai Edu”, de Clara Nunes, “Naquela mesa” e “Renault/Peugeot”, bem mais orgânica que a versão em disco, para fechar uma bela noite que teve todos os artifícios de um típico show do músico. Sem parecer repetitivo, Otto segue construindo uma carreira que provavelmente cresce a cada disco lançado. Além de ter sua música cada vez mais acessível sem perder suas raízes.

Fotos: divulgação.

Published in música show

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