Skip to content →

Entrevista com Carlinhos Carneiro, da Bidê ou Balde

Pequena entrevista que fiz com Carlinhos Carneiro, vocalista da Bidê ou Balde, para o site do Alto-falante.

Bidê ou Balde, talvez a banda mais pop da cena independente brasileira, está com um novo trabalho em mãos, o EP Adeus, Segunda-Feira Triste. O EP quebra um período em que o grupo passou sem lançar material inédito. Cerca de seis anos desde o disco É preciso dar vazão aos sentimentos (2004) – álbum que foi relançando em 2006 pela saudosa revista Outracoisa, do músico Lobão. A banda ainda tem no currículo o EP Para onde voam os ventiladores de teto no inverno? (2001) e os discos Se sexo é o que importa, só o rock é sobre amor! (2000) e Outubro ou nada! (2002). Este último, uma verdadeira pérola pop da primeira década dos anos 00.

No final do ano passado, a banda lançou as músicas “Me Deixa Desafina” e “Tudo É Preza” como uma espécie de aperitivo para o EP, que deveria ter saído ainda em 2010. Em Adeus, Segunda-Feira Triste, as duas faixas vêm acompanhadas por outras três – “VVA Decomposto (ou, Tudo Funcionando Meio Jackson Five”, “Madonna” e “(Não Existe Lugar) Mais Longe Que O Japão” – que remetem aos primeiros anos da banda, tendo o humor e a ironia como fio condutor das canções, que continuam batendo cartão no universo pop, como é característico da Bidê ou Balde.

O Alto-falante bateu um papo com o vocalista Carlinhos Caneiro (o jovem que está sensualizando com uma maçã na foto abaixo) sobre os últimos anos da banda, as referências, o futuro e o EP, que é uma prévia para um álbum cheio que deve ser lançado ainda no primeiro semestre deste ano.

– O que a Bidê ou Balde aprontou nesse tempo todo em que não lançou música inédita?

Esse tempo foi grande, mas nem percebemos… Rolou na época em que mais fizemos shows e que novas praças se abriram pra gente tocar (interior do Paraná e de Santa Catarina, onde tínhamos tocado pouco até então, por exemplo). Dois (ou três) desses anos foram “perdidos” por um bom inconveniente, o Acústico MTV Bandas Gaúchas, pois recebemos o convite para participar quando estávamos lançando o nosso terceiro disco [É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos], daí vieram ensaios, gravação, período de divulgação, várias coisas, e a gente acabou ficando mais de um ano sem divulgar e fazer shows do disco que havíamos (mal) lançado, e para retomá-lo tivemos o convite de relançar o disco (com umas faixas de remix a mais) através da revista Outracoisa, que era capitaneada pelo Lobão… Daí fomos retomar a divulgação do “Vazão” só em 2006, quase dois anos depois dele ter sido lançado pela primeira vez, e em seguida nos dedicamos aos shows que pintaram para divulgá-lo e, como disse no começo, foi um monte de shows. Fomos até surpreendidos por essa ótima recepção que teve o lance de lançarmos o disco numa revista. Daí só fomos fazer a primeira pré-produção de material novo em 2007, e a partir daí começamos a pensar em formas de lançar esse próximo material… A cada ano, uma negociata (que não vingava no fim), e uma nova leva de canções… Eis que, em 2010, com um monte de músicas e ideias, resolvemos botar a coisa pra fora de qualquer maneira, e cá estamos!

– E esse quarto álbum, sai ou não sai? Já tem algum nome ou ainda permanece como “Projeto: Mistério”?

Estamos finalizando a gravação do disco cheio aqui em Porto Alegre, no Estúdio Mubemol, com o Gilberto Ribeiro Jr., um dos produtores que trabalharam com a gente nesse material do EP (o outro co-produtor do EP é o Ray Z). Ainda não temos título e, sim, ainda brincamos com o provisório “Projeto: Mistério”. Quem sabe agora chamar de “Projeto: Mistério 2.0”?

– A banda tinha programado um novo EP para abril, depois do lançamento de Adeus Segunda-Feira Triste, que acabou atrasando… O plano desse novo EP continua de pé?

Não… Infelizmente não. A ideia de fazer uma série de EPs caiu no momento que não conseguimos, como esperávamos, lançar esse Adeus, Segunda-Feira Triste ainda em 2010. Rolou muita burocracia e trabalheira junto à fábrica e ele acabou ficando pra março. Daí resolvemos gravar o material todo junto, como disco mesmo, a partir do verão (enquanto esperávamos pela chegada do EP). Então o próximo passo é disco!

– Aproveitando… E a história desse nome (Adeus Segunda-Feira Triste). Foi inspirado no livro Café-da-Manhã dos Campeões, do Kurt Vonnegut. Como foi isso?

Um amigo, o Marino, que é casado com a Katia [Aguiar, ex-tecladista da Bidê], me dizia há muito tempo que eu deveria ler o Matadouro 5, dizia que tinha a ver comigo. Mas eu levei uns anos para ouví-lo. Eu li em 2009 o Café-da-Manhã dos Campeões e me apaixonei por aquilo, pelo jeito que ele escrevia, a sátira ácida da coisa toda, me identifiquei completamente, e identifiquei no livro muito das coisas com que gosto de brincar ou pensar a respeito, as sujeirinhas escondidas de cada um, e a sujeirona maior que há por trás das sujeirinhas escondidas de cada um, e o jeito que tudo isso se insere no mundo pop, nas marcas mais conhecidas, nos ídolos mais eternos, essas coisas… Essas elipses e curiosas amarras, que são algo fantástico na obra do Vonnegut, sempre presente. Quando estávamos gravando o material do EP eu tinha acabado de ler o Matadouro 5, e já emendando com outro, o Hócus-Pócus… Me fissurei! Principalmente porque ele fica interligando histórias, trazendo o Kilgore Trout ou suas obras de volta… Pensei em usarmos isso como referência, como fazíamos na época do primeiro disco com o Twin Peaks e outros trabalhos do David Lynch. No mínimo, estaríamos dando dica de livro pra galera que nos curte, e isso não é mau.

– O disco cheio que está por vir vai seguir algum conceito? Vocês já têm alguma ideia sobre isso?

Não acho que vá ser “conceitual” mas, sim, sempre buscamos trabalhar algumas ideias que unam esteticamente a coisa toda, quer seja nas letras, na arte do encarte, vídeos… De alguma forma sempre tentamos unir as coisas através de alguns pontos em comum. Haverá diálogo com o EP também, provavelmente com a influência dos livros do Kurt Vonnegut (e do seu personagem Kilgore Trout) e com a “Hellgrafia” da capa.

– A Bidê ou Balde é quase uma usina de referências pop. O que é praticamente uma marca da banda… A banda parece que não tem medo de ser pop, né?

É como gostamos de fazer as coisas. Esses dias, numa outra entrevista, chamei isso de “caça-palavras” de referências, como naquele joguinho que vem em livrinhos de palavras cruzadas. Gosto, pessoalmente, de jogar isso com os discos, livros, filmes e tudo mais que gosto. Pode, provavelmente, botar a culpa no [cineasta Quentin] Tarantino. E ele talvez colocaria no [Jean-Luc] Godard. E, já que nos esbaldamos e nos refestelamos nas orgias pop de outrem, é lógico que não temos medo de ser pop, pelo contrário… Mas o conceito (ou rótulo) pop pode ter conotações mais nefastas por aí, então é sempre bom cuidar o pop onde amarramos o nosso cavalo.

– Pra você, a Bidê faz rock gaúcho ou pop gaúcho?

Acho que fazemos rock. Somos gaúchos, gostamos disso e isso é extremamente inspirador uma vez que tem tantos músicos e artistas legais, de quem somos fãs, por aqui, mas acho que pra fazer parte de um rótulo, o fato de sermos gaúchos deveria unir esteticamente os membros desse rótulo, enquanto que o legal do gauchismo é justamente a pluralidade de ideias que abarca, com estilos e propostas completamente diferentes entre si.

– Vocês gostam de desafinar ou já é algo natural da banda? (risos). Vocês não se importam em cantar/tocar certinho como no “padrão” das bandas “certinhas” das FMs?

Te juro que a gente tem certeza de que é uma banda “certinha” e no “padrão” das FMs! A gente acredita muito no que faz, gostamos disso, conhecemos muita gente que gosta e achamos absolutamente normal que as nossas músicas toquem (ou não) em rádios… Não mudamos o nosso jeito de fazer as coisas nem os nossos gostos e referências por influência externa ou comercial, justamente porque enxergamos viabilidade pop em várias coisas que gostamos, das mais esquisitas às mais normais, e sempre deixamos isso claro, citando e curtindo, do Sonic Youth ao RPM, do Kraftwerk ao Roberto Carlos. “Me deixa desafinar” talvez seja realmente emblemática nesse momento, por nela ninguém desafinar, por ter uma estrutura e arranjo simples, bem pop e redondo, apesar de estar falando dessa vontade/necessidade de metaforicamente desafinar, descaralhar… Eu tava louco pra dizer que isso é uma coisa muito Roberto Carlos, mas é de antes, Tom Jobim e Newton Mendonça, né…

– Tem uma história de que o Frank Jorge fez música com vocês para o disco novo. Como foi isso?

Fizemos uns shows com o Frank no baixo, em 2007, logo que o André [Surkamp, ex-baixista da Bidê Ou Balde] saiu da banda. Tocávamos coisas nossas e umas dele também. Foi demais, ele é um ídolo de verdade nosso. Um mestre mesmo, ancorado na semântica da coisa. Com essa aproximação, um tempo mais tarde, depois de termos feito a nossa primeira pré-produção de músicas novas, o [Leandro] Sá ou a Vivi [Peçaibes] mostrou pro Frank essas novidades, e no meio daquilo tinha umas bases sem letra, ou com letras ainda muito titubeantes minhas que não estavam legais, e no meio da conversa surgiu a pilha dele escrever as letras praquilo. E ele o fez, com facilidade e muito bem! Acho que vai rolar o nome dele numas quatro músicas do nosso disco. Se bobear, as melhores… Para a minha felicidade, algumas dessas letras que ele fez estavam incompletas, ou só tinham uma estrofe e, mais tarde, eu as completei, seguindo as ideias dele – e agora posso contar pra todo mundo lá em Bagé que eu já compus com o Frank Jorge!

– Levou muito tempo para bolar o nome “VVA Decomposto (ou, Tudo Funcionando Meio Jackson Five)”? Qual é a história dessa música?

[Risos] Não, não levou muito tempo não… VVA significa “vermelho, verde e azul”, as cores do sistema RGB (por sua vez, “red, green, blue”), que se decompõe no processo fotográfico da “Hellgrafia”, que estampa a capa do nosso EP, criado pelos artistas Gabriel Not e Leo Lage. Aquilo na capa é um pedaço de um filme fotográfico propositalmente mofado e deteriorado que ficou enterrado com restos de gengibre e não-sei-o-que-mais, depois fotografado, revelado (com muuuuito cuidado, em um laboratório especial) e escaneado. Sem nenhuma intervenção digital. O efeito de cores é próprio da decomposição do filme. Quando o Gabriel nos explicou esse processo, o Sá pirou na tradução do RGB e resolvemos nomear assim, “VVA Decomposto”, a faixa instrumental do EP. A parte “(ou, Tudo Funcionando Meio Jackson Five)” vem de:

1) dos livros do Kurt Vonnegut, pois vários têm um subtítulo nesse clima “- ou, …”;

2) da música “Tudo Funcionando Direito”, que vai estar no disco cheio e é uma das que o Frank Jorge letrou, e é de onde vem o riff de teclado (que foi criado pela Katia, nossa ex-tecladista, quando ela ainda era da banda) e harmonia em cima dos quais se sustenta o tema instrumental;

3) “Jackson Five” era como chamávamos essa vinhetinha criada a partir do riff de “Tudo Funcionando Direito”.

E somos muito fãs do Jorginho do Trompete, é um grande músico, um gênio, e durante as gravações chegamos à conclusão de que tínhamos que chamar o Jorginho, lembramos daquele tema instrumental “Jackson Five” da demo, pensamos em chamá-lo para solar em cima daquilo, mas antes demos uma (des)montada na base, incluímos piano preparado e umas outras ideias eruditas que são influência do Gilberto Ribeiro Jr., e assim chegamos a essa loucura. Mas, juro, não foi muito custoso pra remexermos na cachola e chegarmos a isso.

– “Tudo é preza” pode ser interpretada meio que como um manifesto sobre o modo como a música é descartável atualmente. Vocês têm uma preocupação em soar pop e acessível, mas sem ser fútil e efêmero?

Acho que, como fala a música, a nossa preocupação vai além do nosso próprio som. É uma música sobre paixão à musica, ou às músicas, em geral, das coisas que somos fãs e das coisas que não gostamos. Não sei te dizer, ou não mora em mim essa arrogância Oasis necessária para dizer, se a Bidê consegue de fato satisfazer essa ânsia mas, claro, tentamos, mesmo que a energia da coisa na nossa banda  ainda seja muito mais instintiva do que realmente pensada. De qualquer forma, a frase “vocês têm uma preocupação em soar pop e acessível, mas sem ser fútil e efêmero” é linda, diz muito, explica muito sobre a música e a nossa pilha mas, sei lá… Pirei que soaria arrogante concordar e ainda sair “assoberbando” isso daí por aí (ou aqui)… Mas gostei!

– A banda está bem presente nas redes sociais… Como vocês lidam com elas?

Estamos as nutrindo com montes de materiais exclusivos, promoções e estabelecendo contato direto com quem nos curte. A nossa página no Facebook, por exemplo, tem centralizado várias ações nossas, nossa lojinha de merchandising está lá, é o lugar onde mais rapidamente a nossa agenda é atualizada, por aí vai… No nosso canal do Youtube rolam vários vídeos dos shows e outras coisas divertidas (e até sérias). E através do Twitter às vezes até combinamos participações em nossos shows ou passeios pelas cidades que visitamos.

– Você se sente realizado com a banda no “patamar” em que ela está hoje ou ainda falta alguma coisa?

Falta participarmos de um especial de fim de ano do Roberto Carlos!

Fotos: divulgação.

Published in entrevista música

3 Comments

  1. […] A Bidê ou Balde disponibilizou toda a discografia oficial da banda para download gratuito pelo Facebook. O pacote contém os álbuns Se sexo é o que importa, só o rock é sobre amor! (2000), o clássico Outubro ou nada! (2002) e É preciso dar vazão aos sentimentos (2004). Além dos EPs Para onde voam os ventiladores de teto no inverno? (2001) e o recente Adeus, segunda-feira triste (2011 – Leia entrevista com Carlinhos Carneiro sobre o EP aqui). […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *